Nessa noite, João ficou muito tempo sentado sozinho dentro do carro, sem ligar o motor.
Repassava, uma a uma, as cenas dos últimos anos. As observações ferinas da mãe, atiradas como quem não queria a coisa. O modo como Ana fingia não ouvir, engolindo a mágoa para não criar conflito. As crianças, quietas a um canto, a assistir a tudo sem compreenderem por que razão ninguém punha fim àquilo.
E, sobretudo, lembrava-se de si próprio a repetir sempre a mesma frase, como se ela resolvesse alguma coisa:
— Não ligues.
Foi então que uma certeza dura lhe atravessou o peito.
O silêncio também fere.
Uma semana depois, aproximava-se o aniversário de Tiago. Teresa telefonou ao neto com antecedência, como fazia todos os anos.
— A avó já comprou a tua prenda.
— Obrigado.
— Então, a que horas devo aparecer?
Do outro lado, Tiago calou-se por instantes.
— Avó…
— Diz, querido.
— Se a mãe não for convidada…
Ele respirou fundo, como se lhe custasse dizer aquilo.
— Então não está ninguém convidado.
Teresa ficou sem saber o que responder.
— Que disparate é esse?
— Não é disparate nenhum. Foste tu que disseste que a mãe não era família. Mas, para mim, ela é a pessoa mais importante.
A chamada terminou logo depois.
Durante muito tempo, Teresa permaneceu sentada, com o telemóvel apertado na mão. Pela primeira vez em muitos anos, o que sentiu não foi raiva. Foi vazio.
De repente, percebeu que o problema nunca fora apenas Ana. Com as próprias palavras, tinha afastado precisamente aqueles para quem preparava a mesa em dias de festa.
Mas remendar aquilo era muito mais difícil do que fazer o melhor bolo do mundo.
E foi nesse momento que Teresa decidiu, pela primeira vez, não esperar que a perdoassem. Teria de ser ela a dar o primeiro passo em direção à família.
Passaram quase sete dias.
Várias vezes marcou o número de Ana. Várias vezes ficou a olhar para o ecrã iluminado. E, sempre antes de a chamada seguir, desligava.
O orgulho prendia-lhe a garganta.
“Porque hei de ser eu a pedir desculpa? Sou mais velha. Sou a mãe”, repetia para si mesma.
Mas, por mais que tentasse convencer-se, a imagem daquele domingo voltava sem descanso.
Doze pratos postos.
Os pastéis preferidos de Tiago.
O bolo de que Rita tanto gostava.
E cadeiras vazias.
Pela primeira vez em muitos anos, o almoço de família não tinha servido para ninguém. Não porque a comida estivesse má. Mas porque, àquela mesa, não havia lugar para a pessoa mais importante na vida das crianças: a mãe delas.
Na véspera do aniversário de Tiago, João foi a casa de Teresa.
— Precisamos de conversar.
Ela percebeu de imediato que não seria uma conversa simples.
— Outra vez sobre a Ana?
— Não. Sobre nós.
João sentou-se à frente dela.
— Lembras-te do que o pai dizia? Que uma família pode ser destruída com uma só palavra.
Teresa desviou o olhar.
— Não exageres.
— Não estou a exagerar. Estou a dizer a verdade.
Falava com uma calma que ela não lhe conhecia. Sem levantar a voz, sem impaciência.
— Durante anos, calei-me. Quando criticavas a minha mulher. Quando gozavas com o trabalho dela. Quando dizias às crianças que a mãe não percebia nada. Eu dizia a mim próprio que era mais fácil assim. Mas afinal o meu silêncio soava a concordância.
Teresa pousou a chávena na mesa com força.
— Então agora a culpa é toda minha?
— Não. Também é minha. Porque deixei que continuasse.
Ela fitou o filho, surpreendida.
Nunca tinham tido uma conversa assim.
No dia do aniversário de Tiago, em casa de Ana juntaram-se apenas os mais próximos. As crianças encheram a sala de balões. Ana preparou um bolo de chocolate, e a cozinha ficou tomada pelo cheiro doce da baunilha e da canela.
Apesar dos sorrisos, ela sabia que o filho esperava uma coisa acima de todas as outras.
Um telefonema.
Da avó.
Mas o telemóvel continuava mudo.
Faltava uma hora para a festa começar quando a campainha tocou, inesperada. Tiago foi o primeiro a correr para a porta.
Do outro lado estavam João e Teresa.
Nas mãos, a sogra não trazia o enorme saco de presentes de todos os anos. Segurava apenas um pequeno ramo de margaridas.
As flores preferidas de Ana.
A sala mergulhou num silêncio espantado.
Teresa deu um passo em frente.
Olhou para a nora.
