“Depois do divórcio, a minha mãe vem viver para aqui” — anunciou Tiago, dando como certo que Ana teria de sair do apartamento que comprara

Histórias
Essa atitude é mesquinha e profundamente injusta.

— Depois do divórcio, a minha mãe vem viver para aqui — anunciou Tiago. — Esvazias por completo o quarto pequeno. Se precisares de algum móvel, levas contigo.

Fiquei alguns segundos a encará-lo, sem conseguir perceber em que momento a conversa sobre a nossa separação se tinha transformado numa reunião sobre o meu despejo.

— Levo os móveis para onde?

Tiago pousou o telemóvel na mesa e respondeu já com impaciência:

— Ana, vamos voltar ao mesmo assunto outra vez? Eu fico aqui, a minha mãe muda-se para minha casa. Tu arranjas um apartamento mais pequeno. Para ti sozinha, duas divisões são até demais.

Estávamos sentados na cozinha do apartamento que eu comprara em 2015. Só nos casámos em 2019, e foi depois do casamento que Tiago se instalou comigo.

Durante todos aqueles anos, eu chamara àquela casa “o nosso lar”. Nunca me ocorreu estar a lembrar ao meu marido que, legalmente, a proprietária era apenas uma pessoa.

Pelos vistos, Tiago tirara daí uma conclusão muito diferente.

— E por que razão és tu quem deve ficar? — perguntei.

Ele falou com aquele tom de quem explica uma coisa simples, quase óbvia:

— Porque moro aqui há sete anos. O trabalho fica perto, o ginásio também, já conheço os supermercados da zona. Tu trabalhas a partir de casa. Que diferença te faz viver num sítio ou noutro? A mãe também acha que é a solução mais sensata.

— Já falaste disso com a tua mãe?

— Claro. Depois do divórcio, ela vem para aqui.

A conversa sobre o fim do nosso casamento ainda nem tinha terminado, mas eles já tinham decidido onde eu iria viver, onde Tiago continuaria instalado e que quarto caberia a Helena.

No dia seguinte, a minha sogra apareceu em pessoa.

Eu estava a trabalhar no quarto pequeno quando ouvi a voz dela no corredor:

— Tiago, traz a fita métrica. Se a Ana levar a secretária, a cómoda cabe aqui de certeza.

Saí imediatamente.

Helena encontrava-se junto à parede, a medir o espaço livre. Tiago, ao lado, olhava para o telemóvel e apontava números.

— O que é que vocês estão a fazer? — perguntei.

A minha sogra virou-se para mim com uma calma absoluta.

— Estamos a ver que móveis meus dá para pôr aqui. Tenho pena de deixar a cómoda. As estantes levas tu, fazem-te falta para o trabalho.

— Levo para onde?

Ela franziu o sobrolho.

— Para o teu novo apartamento. O Tiago disse que já tinham combinado tudo.

— Quem combinou foi o Tiago.

O meu marido meteu-se logo na conversa:

— Ana, ontem falámos sobre isto.

— Ontem apresentaste-me um plano já fechado.

Helena dobrou a fita métrica e tentou soar conciliadora:

— Para quê discutir por causa das palavras? De qualquer forma, vocês vão separar-se. O Tiago está habituado a viver aqui. Para ti é mais simples escolher outro lugar.

Olhei para a fita métrica que ela segurava.

— E a senhora por que motivo precisa de vir morar com o Tiago?

A pergunta pareceu até surpreendê-la.

— Quero arrendar o meu apartamento. Qual é a lógica de o deixar vazio? Eu fico aqui com o meu filho e, lá, entram inquilinos. Assim é prático para toda a gente.

Foi nesse instante que o esquema deles se tornou completamente claro.

Tiago conservava a zona de sempre e ficava com o apartamento. Helena mudava-se para junto do filho e ganhava a possibilidade de arrendar a sua própria casa.

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