A única pessoa obrigada a mudar de morada, procurar outro sítio, encaixotar a vida inteira e reconstruir a rotina do zero seria eu.
E, para cúmulo, aquele plano tão conveniente para ambos apoiava-se precisamente na minha casa.
— Não desmontem já essa cómoda — disse eu, sem levantar a voz. — A sua mudança para aqui não foi combinada com ninguém.
Tiago franziu o sobrolho.
— Então o que é que queres? Que eu vá arrendar uma casa quando existe este apartamento?
— Este apartamento existe para mim, Tiago. Não para ti.
— Vivi aqui sete anos.
— Sei perfeitamente disso.
Helena meteu-se logo na conversa:
— Ninguém te está a tirar nada, Ana. As pessoas podem separar-se com decência. Para o Tiago é mais cómodo ficar aqui, para mim também. Tu és nova, arranjas facilmente uma boa alternativa.
— Portanto, separar-se “com decência” significa que o conforto fica convosco e a mudança fica comigo.
A minha sogra guardou a fita métrica na mala, visivelmente contrariada. Antes de sair, disse ao filho que ainda conversariam sobre aquilo com calma.
Comigo, percebi nesse momento, ela já não pretendia discutir absolutamente nada.
Dois dias depois, Tiago enviou-me o anúncio de um T1 pequeno noutra zona da cidade.
Por baixo da ligação, escreveu:
“Vê este. Para ti sozinha chega perfeitamente.”
Abri as fotografias.
Era uma casa banal. Um quarto, cozinha, entrada estreita. Comecei, quase sem dar por isso, a verificar a distância até aos transportes, a imaginar onde poderia pôr a secretária, em que parede caberia a estante.
Nessa mesma noite, encontrei mais algumas opções.
Ainda hoje me custa explicar por que motivo entrei naquele jogo. Talvez porque, quando duas pessoas passam dias inteiros a agir como se uma decisão já estivesse tomada, é demasiado fácil começarmos a procurar maneira de nos adaptarmos à decisão delas.
Tiago reparou nos anúncios guardados no meu telemóvel e pareceu aliviar-se.
— Estás a ver? — comentou. — Há sítios perfeitamente aceitáveis. O essencial é não ficares agarrada a uma única zona.
Fiquei a olhar para ele.
O próprio Tiago recusava-se, de forma absoluta, a sair daquele bairro precisamente porque já se tinha habituado a tudo ali.
E nem sequer se dava conta da contradição.
No dia seguinte, fechei todos os anúncios e fui buscar a pasta com os documentos do apartamento.
O contrato estava guardado havia anos, misturado com outros papéis. Eu não precisava de o consultar todos os meses para me lembrar de quando tinha comprado a casa.
2015.
Nós só nos casámos em 2019.
Nesse mesmo dia, pedi aconselhamento e esclareci o que deveria fazer a seguir. Explicaram-me o essencial: tratar do divórcio com serenidade, manter a documentação organizada e não entrar em decisões precipitadas por conta própria. Se Tiago não aceitasse sair voluntariamente, então o assunto teria de ser resolvido pelos meios adequados.
Foi tudo o que eu precisava de ouvir.
Regressei a casa e apaguei os anúncios que tinha guardado.
À noite, foi o próprio Tiago quem perguntou:
— Então? Encontraste alguma coisa que sirva?
— Encontrei.
Ele mostrou logo interesse.
— Em que zona?
— Nesta.
— Não percebi.
— Eu fico aqui. A partir de agora, quem procura outro apartamento és tu.
Tiago ficou alguns segundos a olhar para mim.
