— Tu ouves sequer o que a tua mãe te está a dizer? Ou a tua importância já te tapou os ouvidos?
Catarina estremeceu. A colher bateu no rebordo do pires com um tilintar seco, e aquele som abriu a quietude da cozinha como uma bofetada. Lá fora, a madrugada cinzenta mal começava a levantar-se; no pátio, o camião do lixo fazia ranger os contentores. E, no vão da porta, já estava Aurora, a sogra, de casaco vestido, embora fosse apenas o início de outubro. Entrara sem avisar, em plena hora do pequeno-almoço, como se aquele gesto lhe fosse devido por algum direito antigo e indiscutível.
— Venho só um instante — atirou ela, sem dirigir o olhar à nora, avançando para a mesa com a naturalidade de quem se move dentro da própria casa. — Gonçalo, estás pronto? Ou voltaste a dormir como se o mundo não existisse?
Gonçalo encontrava-se sentado em frente de Catarina, curvado sobre o prato onde arrefecia uma omelete. Assim que viu a mãe, encolheu-se todo, enterrando a cabeça entre os ombros; por um segundo, pareceu um miúdo apanhado a fumar às escondidas na casa de banho da escola. Era sempre igual. Ao pé dela, murchava, apagava-se, como se alguém lhe tivesse aberto uma válvula e deixado sair o ar.
— Mãe, agora logo de manhã? — murmurou, espetando o garfo num pedaço de tomate sem vontade. — Deixa-me acabar o café.

— Não é “logo de manhã”. É no patamar, onde a tua mulher resolveu montar uma vergonha que faz os vizinhos desviarem o olhar — respondeu Aurora, com as palavras cortadas a régua. Pousou sobre a mesa um saco de plástico pesado. Lá dentro, qualquer coisa de vidro chocou com um ruído surdo. — Catarina, minha querida, isto é teu? Encontrei à porta. Frascos de conservas. Mesmo encostados ao umbral. Uma indecência. Este prédio é respeitável, não é um armazém de aldeia. Tira isto daqui imediatamente, antes que toda a gente veja.
Catarina ergueu devagar os olhos da chávena. A garganta ficou-lhe seca. Na véspera, aqueles frascos estavam na varanda, alinhados com cuidado dentro de uma caixa de plástico que ela comprara de propósito pela internet para não atrapalharem a passagem. Fora Gonçalo quem os levara para lá. Sozinho. Sem que ninguém o obrigasse. E agora apareciam junto à porta de entrada, como se tivessem ganhado pernas durante a noite.
— Aurora — disse ela, num tom baixo, mas firme. — Os frascos estavam na varanda. Eu não os deixei no patamar.
— Então andas com a memória aos buracos — cortou a sogra, sacudindo a mão no ar. — Gonçalo, estás a ver em que condições vives? Ainda ontem me telefonaste a queixar-te de que já nem se podia respirar com tanto frasco e tanta conserva. Eu só quis ajudar. E tu, Catarina, em vez de agradeceres, fazes outra vez esse papel de princesa ofendida. Sabes como se chama isso? Ingratidão.
Gonçalo não respondeu. Mais do que calado, parecia ausente. O olhar baço, ainda preso ao sono, vagueava algures perto da manteigueira, sem pousar um instante sequer na mulher ou na mãe. Catarina observava-lhe a cabeça baixa, a pele rosada no alto do crânio, os dedos a desfazerem mecanicamente o pão sobre o prato, e sentia nascer dentro de si, debaixo das costelas, uma coisa nova e corrosiva. Era como ligar à tomada um fio estragado e ouvir o estalar da corrente. As faíscas já começavam a saltar.
Durante dois anos tentara habituar-se. Durante dois anos repetira a si mesma que Aurora era apenas uma mulher só, uma mãe assustada com a ideia de perder o filho. Durante dois anos engolira reparos sobre o chão mal lavado, sobre as cortinas demasiado vivas, sobre as almôndegas que nunca ficavam tão suculentas como as da mãe dele, sobre o detergente da roupa, escolhido sem cabeça, caro demais, quando havia outros mais baratos. Engolia tudo e sorria. Fazia-o porque Gonçalo lhe pedia, vez após vez, que não transformasse aquilo numa guerra.
