— Não te metas, é a minha mãe. Aguenta, por mim. E Catarina aguentava. Convencera-se de que a paciência era uma espécie rara de amor. Um dia, pensava ela, ele há de perceber. Um dia há de levantar-se, pôr-se entre as duas e dizer: basta.
Mas agora, diante daquele saco cheio de frascos, daqueles pepinos alinhados com esmero em conserva, que a mãe dela cultivava num pequeno terreno e lhe mandava por alguém que viesse à cidade, porque Gonçalo, claro, fazia questão de comer “coisas caseiras, nada dessas porcarias de supermercado”, Catarina compreendeu de repente uma verdade simples e brutal: ele nunca se levantaria. Não lhe convinha. Era-lhe cómodo que a mãe entrasse pela casa deles às sete da manhã, remexesse armários, mudasse objetos de lugar, lesse mensagens enquanto ele estava no duche e opinasse sobre o dinheiro do casal como se ambos fossem menores incapazes de decidir por si.
— Gonçalo — disse ela, e a voz falhou-lhe por um instante, apesar do esforço enorme para manter a calma. — Foste tu que lhe ligaste? Foste queixar-te dos meus frascos?
Só então ele ergueu os olhos. Piscou várias vezes, depressa demais. Depois deixou escapar um sorriso encolhido, nervoso, quase miserável, o sorriso de quem ainda espera transformar a vergonha numa piada.
— Eu só comentei que a varanda estava cheia de tralha. Nada de especial. Uma resmunguice de homem, sabes como é. Tu sabes que eu não gosto de ver espaços atafulhados.
— Resmungaste — repetiu Catarina, sentindo os lábios apertarem-se numa linha fina. — Portanto, tu resmungaste. E a tua mãe apareceu logo. Às sete da manhã. Como se fosse uma equipa de emergência. Veio salvar-te dos meus pepinos em conserva.
— Eu não apareci coisa nenhuma! — disparou Aurora, ofendida. — Ia a passar para o centro de saúde. Tinha de medir a tensão. Já agora, tenho o coração fraco, caso te lembres, e tu pões-te aí com esses teatros.
— Medir a tensão — murmurou Catarina, assentindo devagar, antes de se levantar da mesa. As pernas pareciam não lhe pertencer, moles, pesadas, mas dentro da cabeça instalara-se uma lucidez fria, quase luminosa. — E, por acaso, também passavas pelo notário, não era?
A cozinha mergulhou num silêncio tão absoluto que até o camião do lixo, lá fora, pareceu calar-se. Gonçalo parou de mastigar e ficou a olhar para a mulher com a expressão de quem a ouvira falar uma língua desconhecida. Aurora, pelo contrário, endireitou-se toda; o rosto redondo e corado endureceu como pedra, e só as sobrancelhas subiram, deixando à vista uns olhos pequenos, agudos, espinhosos.
— Que disparate é esse? Que notário? — perguntou ela, num tom gelado. Ainda assim, lá no fundo daquela frieza, Catarina apanhou uma vibração breve. Como uma corda tocada sem querer, prestes a rebentar.
— Encontrei um recibo no casaco do Gonçalo — respondeu Catarina. A sua voz perdera a tremura; estava seca, precisa, quase burocrática, como se lesse as instruções de um eletrodoméstico. — Consulta notarial. Assunto: partilha de bens. Data: anteontem. Coincidência? Não me parece.
Gonçalo ficou vermelho. Não de embaraço, mas de raiva. Afastou o prato com um gesto brusco, e a omelete escorregou para a toalha plastificada com um ruído mole e desagradável.
— Andaste a vasculhar-me os bolsos? Perdeste completamente a noção? São coisas minhas!
— Coisas tuas? — Catarina soltou uma gargalhada curta, amarga, onde se ouviu tudo o que se acumulara ao longo dos anos: cansaço, sarcasmo e uma desilusão áspera como fel. — Tu moras no meu apartamento, Gonçalo. Comes na minha cozinha, dormes nos meus lençóis, penduras as tuas meias no meu aquecedor. E ainda tens a ousadia de me falar em coisas tuas? Ontem queixaste-te à tua mãe dos meus frascos e, anteontem, os dois foram informar-se sobre a melhor forma de me arrancar metade da casa. É esta a ordem correta dos acontecimentos?
Aurora soltou um suspiro ruidoso, levou a mão ao peito, como quem invoca o coração por testemunha, e deixou-se cair pesadamente no banco da cozinha.
