Durante alguns segundos, Gonçalo permaneceu no meio da cozinha, os braços caídos ao longo do corpo, como se alguém lhe tivesse retirado toda a força de uma só vez. A altivez com que entrara desaparecera sem deixar rasto; no lugar dela havia apenas um desconcerto quase infantil. Parecia ter compreendido, finalmente, que a partida terminara, que já não haveria cedências, lágrimas conciliadoras nem um abraço acompanhado de um “desculpa, vamos esquecer isto”. Aurora puxava-lhe a manga, murmurava-lhe qualquer coisa ao ouvido, mas ele continuava imóvel.
— Catarina… — balbuciou, com a voz a falhar-lhe. — Perdoa-me. Eu não queria que isto chegasse a este ponto. A minha mãe está nervosa, só isso… Nós somos família…
— Não — cortou ela, e aquela palavra, breve e limpa, encerrou mais decisão do que todas as discussões anteriores. — Não somos família. Vocês foram a tua tentativa de resolver os teus problemas com aquilo que é meu. E eu deixei de ser caixa multibanco. Também não sou uma fortaleza para cercarem até eu me render. Sabes perfeitamente por onde se sai. A porta continua no mesmo sítio.
Sem esperar resposta, virou-lhes as costas, entrou na casa de banho e fechou o trinco. Encostou a testa aos azulejos frios e, pela primeira vez em muitos meses, inspirou fundo, como se o ar lhe coubesse de novo inteiro no peito. Do outro lado chegavam vozes abafadas, passos, um arrastar qualquer, portas de armário a bater. Mãe e filho deviam estar a conferenciar, talvez a contar hipóteses, talvez a procurar mais um argumento. Mas Catarina já não queria saber. Imaginou-os a sair, imaginou o apartamento a recuperar o silêncio. Depois, viu-se a mudar os móveis de lugar, a mandar embora o sofá velho de que Gonçalo tanto gostava e a pôr flores novas no parapeito. Flores escolhidas por ela. Só por ela. Sem pedir licença a ninguém.
Quase uma hora depois, ouviu a chave rodar na fechadura da entrada. Houve um primeiro estalido, depois outro. Em seguida, nada. Um silêncio liso, definitivo, espalhou-se pela casa.
Catarina abriu a porta da casa de banho e saiu devagar, como quem regressa a um território depois de uma tempestade. O apartamento estava vazio. Na cozinha, porém, no chão, ficara esquecido o saco de plástico com os frascos. Os pepinos, mergulhados na salmoura, brilhavam baços através do vidro, indiferentes ao desastre doméstico de que tinham sido testemunhas. Ela pegou no saco com cuidado, quase com ternura, como se transportasse um animal doente, e levou-o para a varanda. Colocou-o exatamente no mesmo canto de onde tudo começara.
À noite, sentou-se na sala com as pernas encolhidas debaixo do corpo, uma chávena de camomila entre as mãos. Lá fora, o poente de outubro apagava-se lentamente, tingindo as janelas dos prédios vizinhos de um dourado cansado. Dentro dela havia uma sensação estranha. Não era euforia, nem tristeza. Era espaço. Como numa divisão fechada durante anos, onde, de repente, alguém abrira todas as janelas.
O telemóvel tocou. No ecrã apareceu o nome de Mariana — a amiga com quem trabalhava no gabinete de projetos e que tinha o dom irritante e precioso de ligar sempre no instante certo.
— Então? — perguntou Mariana, sem qualquer preâmbulo. — Posso concluir que o festival “sogra em marcha” chegou ao fim?
Catarina deixou escapar um sorriso.
— Chegou. A tropa de assalto bateu em retirada. Que a mala lhes faça bom proveito.
— E tu? Como estás?
Catarina ficou calada por um momento. Rodou entre os dedos o pequeno coador do chá, depois olhou para a parede. Até ao dia anterior, estivera ali pendurada uma fotografia do casamento dela com Gonçalo. Agora restava apenas um retângulo mais claro no papel de parede desbotado.
— Sabes uma coisa? — disse por fim. — Quando alguém tenta tirar-te a casa, percebes de repente que aquilo não são só paredes, móveis e contas para pagar. É a tua vida. E defender a tua vida não é motivo de vergonha. Mesmo que, para isso, tenhas de pôr alguém na rua. Sobretudo quando esse alguém te aparece à porta com um notário escondido na manga.
— Assim é que se fala — aprovou Mariana, com um riso curto. — E o Gonçalo?
— Foi-se embora. Nem se lembrou dos frascos de conserva de que tanto gostava.
— Então ainda volta.
Catarina pousou a chávena na mesa, sem pressa.
— Que tente — respondeu, e a voz saiu-lhe firme, sem uma única quebra. — Mudei as fechaduras. A partir de agora, quem define as regras sou eu.
