Mas aquele número já não enganava Catarina. Conhecia demasiado bem aquela pose teatral, aquele gesto dramático levado ao peito. Aurora recorria a ele sempre que se via encostada à parede e precisava de transformar a própria culpa em fragilidade.
— Catarina — começou a sogra, de repente com uma voz macia, melosa, quase condescendente, como se falasse com alguém à beira de um ataque de nervos —, estás a pôr coisas na cabeça. Ninguém quer tirar-te nada. Estamos só a falar de justiça. Do que é correto. Tu vives com o meu filho, são marido e mulher, são uma família. Mas, legalmente, ele nesta casa não é ninguém. A morada dele continua a ser a minha, no meu T2 lá para os arredores. No entanto, é aqui que ele vive. Achas isso normal? Achas mesmo justo? Não queres que o teu marido se sinta dono da própria casa, em vez de um hóspede tolerado?
— Esta casa é minha — respondeu Catarina, com uma calma cortante, pronunciando cada palavra como se a pousasse sobre pedra. — Minha. Foi comprada antes do casamento. Com dinheiro que eu ganhei sozinha. Quando conheci o Gonçalo, ele ainda vivia consigo e andava de autocarro porque tinha vendido o carro para pagar dívidas. Nunca lhe atirei isso à cara. Eu gostava dele. Mas não vou permitir que façam de mim uma parva disposta a entregar o que é meu só para vos agradar.
Gonçalo levantou-se de repente. A cadeira foi empurrada para trás com estrondo e bateu no aquecedor. A expressão dele mudou num instante; o rosto, antes familiar, tornou-se duro, quase irreconhecível.
— Chega! — berrou ele, e naquele grito não havia vestígio da delicadeza ponderada por que Catarina se apaixonara um dia. — Achas que eu não percebo a forma como olhas para mim? Como se eu fosse uma barata que apanhaste por pena! Essa tua grande paixão nunca passou de uma maneira de te sentires superior! “A minha casa, o meu dinheiro, as minhas regras.” E eu sou o quê? Uma peça da mobília? O empregado da cozinha? A minha mãe tem razão: és egoísta. Só pensas em ti e nos teus metros quadrados!
Ele respirava com força, o peito a subir e a descer. Aurora observava o filho com um triunfo mal disfarçado, como um comandante satisfeito por ver finalmente o soldado sair da trincheira e avançar para o ataque. Catarina, encostada à bancada, sentiu qualquer coisa ceder dentro de si. Não foi o coração. Era antes uma mola escondida, uma peça invisível que, até ali, mantivera de pé a vida dos dois. Sempre imaginara que uma rutura doesse. Afinal, primeiro fazia barulho. Depois, trazia alívio.
— Está bem — disse ela, tão baixo que a voz quase se perdeu. — Então sou egoísta. Então amor é a tua mãe remexer nas minhas coisas logo de manhã e tu ires assinar papéis ao notário pelas minhas costas. Percebi tudo.
Virou-se sem pressa, saiu da cozinha e seguiu pelo corredor. Abriu a porta do armário embutido e tirou da prateleira de cima uma mala antiga, gasta nos cantos, a mesma que em tempos levara para campos de férias quando ainda era estudante. Regressou com ela e largou-a no chão, mesmo diante de Gonçalo. O som foi seco e surdo, como se tivesse caído ali algo definitivo.
— Junta as tuas coisas pessoais — ordenou, encarando-o sem desviar os olhos. — Meias, roupa interior, carregadores, o comprovativo do notário. Tudo o que seja teu. E leva também a tua mãe. Daqui a uma hora não quero nenhum dos dois nesta casa.
— Não tens esse direito! — guinchou Aurora, pondo-se de pé num salto, apesar do ar frágil que exibira momentos antes. — Ele mora aqui! É teu marido! Vamos pôr isto em tribunal!
— Ponham — respondeu Catarina, encolhendo os ombros. — Tenho a escritura do apartamento, tenho testemunhas de que chegaram aqui a tentar impor exigências desde a porta, e tenho a conversa gravada no telemóvel. Também aprendi a preparar-me para as vossas visitas, imagine. Portanto, sim, recorram ao tribunal se quiserem. Mas, por agora, rua.
Gonçalo ficou parado diante dela, sem conseguir dizer palavra.
