Sobre ela acumulavam-se travessas, saladas, garrafas e copos que nunca chegavam a esvaziar-se, porque alguém os voltava logo a encher. À medida que a noite avançava, as vozes subiam de tom, as gargalhadas tornavam-se mais soltas e Carlos, já bastante animado, regressou a um dos seus assuntos preferidos: o suposto sucesso das mulheres.
Ele e Cristina tinham um gosto especial por falar disso quando estavam rodeados de pessoas que ganhavam menos do que eles.
— Às vezes olho para a nossa Helena — arrastou Carlos, recostando-se na cadeira com aquela confiança insolente — e não consigo deixar de me espantar. Vinte anos no mesmo sítio, fechada entre livros e silêncio. Um ordenado que mal dá para alpista. Sem ambição, sem progressão, sem objetivos a sério.
Fez uma pausa calculada, como quem espera que todos se voltem para o ouvir melhor, e continuou:
— O Miguel deixa a saúde nas obras, enquanto a Helena anda a mudar livros de uma prateleira para a outra e a limpar pó às estantes. Uma guardiã do lar, sem dúvida. Um peso morto simpático, vá.
Algumas pessoas soltaram risinhos à mesa. Cristina inclinou a cabeça em aprovação, satisfeita com a tirada do marido.
Helena encolheu-se. Os ombros caíram-lhe, o corpo pareceu diminuir dentro da cadeira. No rosto apareceu-lhe aquela expressão de culpa a que eu já me habituara, como se fosse obrigada a pedir desculpa pelo emprego que tinha, pelas escolhas que fizera, pela vida que levara.
Debaixo da toalha, cravei as mãos nos joelhos com tanta força que senti os dedos dormentes. Tremiam-me de tensão.
E quando Carlos se inclinou para alcançar o jarro e, fingindo estar apenas a brincar, deu a Helena um leve piparote no nariz, como se ela fosse uma criança sem juízo, pousei a faca no prato.
Ou melhor: quase a atirei.
O metal bateu na porcelana com um som seco. Aos poucos, as conversas à volta da mesa foram morrendo.
— Carlos — disse eu, sem levantar a voz.
Mas, no silêncio que se instalou, todos me ouviram.
Ele virou-se na minha direção com um sorriso satisfeito, convencido de que eu ia acrescentar mais uma piada ao espetáculo.
— Durante estes vinte anos, a Helena passou vários anos a cuidar sozinha da mãe gravemente doente — comecei. — Lavou-a, alimentou-a, levantou-a da cama, passou noites inteiras sem dormir. Comprou do próprio bolso tudo o que era necessário e, mesmo assim, continuou a trabalhar.
O sorriso desapareceu-lhe.
— Quando o Miguel sofreu aquela lesão gravíssima na coluna, foi a Helena quem o pôs de pé outra vez. Durante meses levou-o a médicos, tratou-lhe dos pensos, ajudou-o a reaprender movimentos básicos. Enquanto isso, vocês limitavam-se a telefonar e a suspirar do outro lado da linha.
Passei os olhos por todos os que estavam sentados à mesa.
— Algum de vocês apareceu uma única vez para ajudar de verdade? Alguém ficou um dia sequer com a mãe dela? Alguém substituiu a Helena junto do Miguel, nem que fosse por umas horas? Não.
Cristina apertou os lábios, pronta para intervir, mas eu não lhe deixei espaço.
— A Helena é uma pessoa boa, íntegra e compassiva. Nunca abandona os seus e nunca anda a exibir aquilo que faz pelos outros.
Voltei então a encarar Carlos.
— E tu, de que é que te podes orgulhar, para além do cargo e do ordenado alto? Talvez fosse melhor começares por arrumar a tua própria vida familiar. O vosso casamento, há anos, aguenta-se à custa de viagens caras e do hábito de representarem diante da família que está tudo perfeito.
A quietude tornou-se tão densa que se ouvia o relógio a trabalhar na divisão ao lado.
— Por isso, pensa duas vezes antes de falares do peso que os outros carregam, Carlos. Sobretudo quando o teu próprio barco familiar já anda rachado há muito tempo.
A conversa morreu de vez. Carlos ficou vermelho até às orelhas, coberto de manchas, e Cristina comprimiu tanto a boca que os lábios quase desapareceram. Durante o resto da noite, ambos falaram comigo de forma tensa, com palavras espremidas entre os dentes. Mas pedir desculpa pelo que eu dissera nunca me passou pela cabeça.
Da segunda vez, foi ainda mais difícil ficar calada.
