Aconteceu nesse verão, na casa de campo de Cristina.
Andávamos a apanhar groselhas, os homens tratavam da carne na grelha e as crianças corriam pelo terreno como se lhes tivessem dado corda. Cristina instalara-se na varanda, junto das sobrinhas mais novas, e distribuía conselhos de beleza com o ar satisfeito de quem se considera uma autoridade no assunto.
— O essencial, meninas — dizia ela, enquanto admirava a manicura acabada de fazer — é nunca se deixarem ao abandono. Senão acabam como certas pessoas. Olhem para a Helena: sem penteado, sem uma gota de maquilhagem, sempre com aqueles vestidos largos e berrantes, o cabelo preso de qualquer maneira. A nossa Heleninha ainda vai brincar tanto às naturais que acaba sozinha de vez.
Limpei as mãos a uma toalha, aproximei-me da varanda e parei mesmo diante dela.
— Cristina — disse, num tom calmo. — A Helena não usa maquilhagem porque, depois de um tratamento muito agressivo, ficou com uma alergia fortíssima. Fez esse tratamento há dois anos e não contou a quase ninguém da família. Agora já sabes.
Cristina deixou de olhar para as unhas.
— E usa roupa larga porque, desde a operação, as cicatrizes ainda lhe repuxam — continuei. — Em compensação, tu, com as tuas injeções de beleza e essa maldade permanente, pareces um peixe seco muito bem envernizado.
A varanda mergulhou num silêncio pesado.
— E se eu voltar a ouvir-te comentar a aparência dela uma única vez — acrescentei — conto ao teu filho por que motivo o pai dele, há dois anos, passou meses a viver num hotel. E também digo quem pagou essa suposta viagem de trabalho.
Cristina puxou o ar como se se estivesse a engasgar, levantou-se de repente e bateu na cadeira. A cadeira tombou com estrondo sobre as tábuas da varanda.
Ela começou logo aos gritos, mas, dessa vez, eu também não fiquei calada.
Com a algazarra, Rui apareceu a correr. Agarrou-me pelo braço, mandou-me calar entre dentes e exigiu que eu acabasse imediatamente com aquele escândalo.
Saímos da casa de campo no meio de uma discussão em voz alta.
Durante os três dias seguintes, Rui não me dirigiu palavra. Mas eu já percebia uma coisa: a verdadeira conversa ainda estava por vir.
Em agosto, celebrou-se o aniversário de ouro do casamento da tia Teresa.
A festa foi preparada com toda a pompa: sala de restaurante, toalhas brancas impecáveis, empregados a circular entre as mesas compridas e quase toda a família reunida.
Helena apareceu com um vestido solto, de um tom cereja escuro. Miguel vinha de fato, passado a ferro com um cuidado quase militar.
Ao início, a noite decorreu sem sobressaltos. Porém, Carlos e Cristina beberam mais do que deviam e, pelo visto, acharam que chegara a altura de se vingarem das humilhações anteriores.
Carlos levantou-se e pediu o microfone ao apresentador.
— Hoje estão aqui pessoas que conquistaram muito na vida — começou ele, olhando na nossa direção. — É bonito ver a família reunida. E quero destacar, em particular, um ramo muito especial: a Helena e o Miguel.
Virou-se para eles de corpo inteiro.
— Vejam bem a nossa Heleninha. Cinquenta e seis anos, e o que tem ela para mostrar? Filhos, não tem. Carreira, também não. Casa própria, nem vê-la. Vive no apartamento do Miguel, praticamente por favor. Helena, ao menos deseja à tia Teresa aquilo que tu nunca conseguiste alcançar.
Ele sabia perfeitamente onde estava a bater.
Helena e Miguel não tinham tido filhos por causa da doença grave dela. Dentro da família, esse assunto era evitado como uma ferida aberta. Carlos conhecia a razão e escolheu, de propósito, o ponto mais doloroso.
Um murmúrio abafado percorreu a sala.
Helena tapou o rosto com as mãos e começou a chorar. Sem soluços, quase sem som. Apenas os ombros estremeciam de leve.
Foi então que me levantei.
Caminhei até ao apresentador, tirei-lhe o microfone das mãos e dirigi-me para a mesa principal.
— Agora vão ouvir-me a mim — anunciei. — Já que Carlos decidiu falar, eu também vou falar.
