— Antes das festas, é preciso fazer uma limpeza a sério. Passa lá por casa e deixa-nos o apartamento em ordem. O João disse-me que tens o fim de semana livre.
— Teresa, eu… também tinha planos. Eu e a Maria…
— Os teus planos podem esperar! — cortou ela, sem a deixar acabar. — Eu já tenho idade, essas coisas custam-me. Ajudar-nos é a tua obrigação.
Ana levantou-se às seis, como fazia todos os dias. Saiu do quarto em silêncio, nas pontas dos pés, para não acordar a filha, Maria. Na cozinha, ligou a chaleira e, enquanto a água aquecia, pegou no telemóvel.
Havia três meses que a manhã começava sempre da mesma maneira: abria a aplicação do banco e contava quantos dias faltavam para receber o ordenado. No cartão quase não restava nada. O salário, esse, só cairia na semana seguinte.

Pousou o telefone, soltou o ar devagar e apoiou as mãos no parapeito da janela. Numa cadeira, largado desde a véspera, estava o velho casaco de malha da escola de Maria, com a manga cuidadosamente remendada por Ana. A menina já quase não cabia nele, mas comprar um novo parecia um sonho fora do alcance.
No dia anterior, ao regressar da escola, as botas de inverno de Maria tinham cedido: a sola abrira-se como se se tivesse cansado de aguentar. Ana viu bem a forma como a filha tentou esconder o rasgão, só para não a entristecer.
À noite, as duas estavam numa sapataria perto de casa, à procura do par mais barato que, ainda assim, fosse novo e quente.
— Mãe, para quê? Eu ainda consigo andar com as outras…
— Não, meu amor. O inverno mal começou. Não vais andar com os pés encharcados por causa de umas botas rotas. Ainda ficas doente…
E lá se foi mais uma parte de um orçamento que, na verdade, já nem existia.
Quando regressaram, ouviram do quarto um suspiro pesado e o arrastar de chinelos no chão. Era João. Tinha acordado tarde, porque só se deitara de madrugada, depois de intermináveis transmissões online com os amigos. O resto do dia passara-o estendido na cama, sem pressa para coisa nenhuma.
— Demoraram tanto porquê? — resmungou, passando por elas sem sequer olhar para a mulher.
— Fomos comprar botas de inverno para a Maria.
— Não tinhas mais onde gastar dinheiro? Agora somos ricos? — atirou ele.
— Não! Esse é precisamente o problema: dinheiro é o que não há. Mas as botas da nossa filha estavam todas abertas. Já era altura de te recompores, João! — respondeu Ana, mais áspera do que queria.
— Lá estás tu outra vez com nervos — murmurou ele. — Eu já disse que vou arranjar trabalho. Mas também não posso aceitar qualquer coisa. Sou homem ou não sou?
Ana apertou os lábios. Aquela frase, nos últimos três meses, já lhe tinha sido servida vezes sem conta. Primeiro, João anunciou que ia trabalhar como estafeta.
— Isso é que é um bom negócio! Os estafetas ganham bem!
Só que, depois de três entregas não confirmadas e de ainda lhe terem descontado dinheiro da conta, João mudou rapidamente de discurso.
— São uns vigaristas! — gritou na altura. — A culpa não é minha! Fizeram-me uma armadilha!
Resultado: não ganhou nada e ainda ficou com prejuízo. Depois decidiu experimentar conduzir para uma plataforma de transporte. Mas os pedidos melhores e mais bem pagos nunca lhe calhavam: o carro era de gama baixa e, para principiantes, sobravam quase sempre as viagens fracas. Agora permanecia em casa, ofendido com a vida inteira.
As despesas da família caíam todas sobre Ana: comida, roupa, escola, contas da casa, medicamentos.
Na manhã seguinte, quando Maria ainda mal tinha aberto os olhos para se preparar para as aulas, Ana já se aprontava para sair. Como sempre, a filha aproximou-se para lhe dar um beijo no rosto. Mas, num relance, os olhos da menina percorreram a mãe: o casaco acolchoado antigo, gasto até ao limite, e o gorro de sempre, os mesmos havia cinco anos.
Ana percebeu aquele olhar, e o coração apertou-se-lhe. A filha tinha vergonha.
— Mãe… hoje, depois das aulas, a Inês e a Rita vão ao cinema ver um filme de Ano Novo. Será que eu… também podia ir?
A voz morreu-lhe antes de terminar a pergunta. Não queria pedir.
— Liga-me quando saíres da escola. Talvez se arranje maneira. Eu tento encontrar algum dinheiro.
Mas Maria já sabia qual era a resposta. Para aquela família, cinema era luxo. Sempre fora. Só que agora a falta de dinheiro doía com uma nitidez ainda maior. A menina limitou-se a acenar com a cabeça, como se acreditasse, e foi vestir-se.
Ao chegar ao trabalho, Ana sentou-se à secretária e enterrou o rosto nas mãos. Estava quase a fazer quarenta anos. Há dez trabalhava no mesmo sítio, poupava sempre em si própria, andava há cinco invernos com o mesmo casaco, que nem depois de lavado parecia melhor.
E todos os meses repetia a mesma contagem: dias até ao salário, dias até ao adiantamento, dias até ao momento em que pudesse comprar qualquer coisa nova para Maria, para que a filha deixasse de olhar para as colegas com aquele brilho discreto de inveja.
Ana não se queixava. Limitava-se a continuar. Mas naquele dia… naquele dia tudo lhe pareceu mais pesado, mais triste. De repente, imaginou Maria parada à porta do cinema, a ver as outras raparigas comprarem pipocas, enquanto dizia, com um sorriso inventado: “Eu não quero.”
Ana limpou uma lágrima, respirou fundo e sussurrou a frase que repetia a si mesma todas as manhãs:
— Só mais um pouco. Nós aguentamos. Tudo há de se compor… já falta tão pouco.
