Afinal, o Ano Novo aproximava-se… e com ele, quem sabe, alguma hipótese nova, uma porta entreaberta, qualquer mudança.
Mas, no fundo, Ana sabia que se enganava a si própria. A passagem de ano não tinha poderes mágicos. Nada se resolveria por mudar o número no calendário. Talvez, pelo contrário, tudo ficasse ainda mais difícil.
O trabalho acabou por lhe ocupar a cabeça à força. Ana escreveu, arquivou documentos, atendeu chamadas, respondeu a pedidos, como se o corpo estivesse ali e a alma funcionasse em piloto automático. Ainda assim, algures dentro dela, permanecia a sombra amarga daquele olhar apagado de Maria naquela manhã.
Quando chegou a hora de almoço, permitiu-se finalmente sentar. Abriu a caixa com a massa que trouxera de casa e soltou o ar devagar, como se naquele gesto pudesse largar também parte do cansaço. Porém, mal pegou no garfo, o telemóvel vibrou sobre a mesa.
Era a filha.
— Mãe… — a voz de Maria vinha baixinha, cuidadosa, como se a rapariga já se estivesse a preparar para ouvir um “não”. — Eu queria perguntar-te uma coisa…
— Claro, meu amor — interrompeu Ana, antes que ela terminasse. — Eu mando-te o dinheiro. Para o bilhete e para as pipocas. Vai. Diverte-te com as tuas amigas.
Do outro lado, fez-se um silêncio de um segundo. Um silêncio tão grande que parecia incredulidade.
— Mãe! Mãezinha! Obrigada! Eu… depois conto-te tudo, mesmo tudo!
Ana ouviu, na voz da filha, regressar aquele som antigo, leve e luminoso, que há tanto tempo não escutava.
— Que corra tudo bem, minha querida.
Desligou e abriu logo a aplicação do banco. O saldo era quase ridículo de tão baixo. Mesmo assim, Ana não hesitou. Escreveu o número de Maria, confirmou a transferência e enviou-lhe o que restava. O último dinheiro.
Olhou então para a massa simples, sem almôndegas, sem salada, sem nada que a tornasse mais apetecível, e, para sua surpresa, sentiu um alívio inesperado. Como se, ao pagar aquele bilhete de cinema, tivesse comprado à filha um pequeno pedaço de infância normal.
Ao fim do dia, a cidade desapareceu debaixo de uma neve densa. Os flocos caíam em novelos grandes, como nos filmes antigos, mas não havia beleza nenhuma naquilo. O trânsito atrasava-se, os autocarros arrastavam-se pelas ruas a passo de caracol e as pessoas esperavam nas paragens com o rosto fechado.
Ana esteve quase vinte minutos ao frio, já encharcada e a tremer. Quando o autocarro finalmente surgiu, todos avançaram ao mesmo tempo para as portas. Ela conseguiu entrar à custa de empurrões e pedidos abafados, ficando esmagada junto a um varão, sem espaço sequer para mudar o peso de uma perna para a outra.
Foi precisamente nesse instante que o telemóvel tocou.
Era Teresa, a sogra. Como sempre, parecia escolher os momentos mais inconvenientes para aparecer na vida de Ana. Ela fechou os olhos por um segundo e suspirou. Só lhe faltava aquela.
— Estou?… — disse, tentando segurar o aparelho de modo a não o deixar cair aos pés da multidão.
— Ana, não te vou tomar muito tempo — anunciou Teresa, sem qualquer cumprimento verdadeiro. — Antes das festas, é preciso fazer uma limpeza a sério. Vais lá a casa tratar disso. O João disse-me que tens o fim de semana livre.
Ana quase deixou escorregar o telemóvel, mas apertou-o com mais força.
Ficou imóvel.
Aquele era o último fim de semana antes do Ano Novo. Tinha prometido a Maria que enfeitariam a casa, montariam a árvore e fariam bolachas caseiras, só para criarem, nem que fosse por umas horas, uma migalha de ambiente festivo.
— Teresa, eu… já tinha combinado coisas. Eu e a Maria íamos…
— As tuas coisas podem esperar! — cortou a sogra, seca. — Eu já tenho idade, estas tarefas custam-me. É tua obrigação ajudar-nos.
Ana mordeu a resposta que lhe subiu à boca. Sabia muito bem que o problema não era a idade de Teresa. Era o vício incessante do tabaco, que a deixava ofegante só de atravessar a sala.
— Falamos depois, está bem? Agora não consigo…
— Está decidido. Espero-te no sábado.
A chamada caiu antes que Ana conseguisse dizer mais alguma coisa. Ficou com o telemóvel na mão, presa entre casacos molhados e sacos de compras, tentando não perder o equilíbrio. Ligar de volta era impossível; mal conseguia manter-se de pé, apertada pela multidão como se estivesse dentro de uma prensa.
Chegou a casa tarde, gelada, exausta, completamente espremida. Mas, assim que abriu a porta, Maria correu para ela. Trazia o rosto aceso de entusiasmo, as faces coradas, os olhos a brilhar.
— Mãe! Foi tão giro! E houve uma parte tão engraçada… — começou a contar, sem parar, enquanto puxava Ana para a cozinha. — Eu aqueci o jantar! Senta-te aqui. A tua caneca está ali. Mãe, foi mesmo espetacular!
Ana olhou para a filha com os olhos cansados, mas sentiu o coração aquecer. Maria estava feliz. E, naquele momento, isso valia mais do que qualquer outra coisa. Passou-lhe a mão pelo ombro, escutou as histórias apressadas, sorriu nos intervalos certos, mesmo quando já quase não tinha forças para se manter direita.
João não estava em casa, embora o relógio de parede marcasse oito horas. Ana nem sequer se surpreendeu. Aquilo deixara, há muito, de parecer estranho; fazia parte da rotina, como uma peça gasta e inevitável da vida deles.
Limitou-se a dizer à filha, num tom baixo e terno:
— O que importa é que tiveste um dia bom, meu amor.
Maria correu depois para o quarto para falar ao telefone com uma amiga. Mesmo através da parede, Ana conseguia ouvir-lhe o riso claro, aquele riso que, ultimamente, surgia cada vez menos.
Devagar, arrumou os pratos do jantar, passou as canecas por água e limpou a mesa. Cada gesto parecia exigir-lhe um esforço enorme. O cansaço pousava-lhe nos ombros como chumbo.
