“Os teus planos podem esperar!” cortou ela, interrompendo Ana e exigindo que ela passasse o fim de semana a limpar o apartamento

Histórias
É profundamente injusto e cortante, coração em farrapos.

Foi para o quarto, mudou de roupa quase sem pensar, enfiou-se debaixo do edredão e adormeceu no mesmo instante, como se o corpo tivesse desligado.

O sono, porém, trouxe-lhe um sonho estranho, pesado e cinzento, daqueles que se colam à pele como chuva de novembro. Via João, via a mãe dele, via rostos sem nome, ouvia vozes. Gritavam, exigiam, davam ordens, agitavam os braços diante dela. Primeiro, tudo se misturava numa confusão sem forma; depois, pouco a pouco, aquela névoa começou a ganhar um tom ameaçador. Ana não percebia o que se passava, até que, de repente, ouviu um estrondo.

Um estrondo verdadeiro.

Abriu os olhos de rompante. Eram quatro da madrugada. Da cozinha vinha barulho: pancadas, vidro a bater, cadeiras a arrastar. Ana levantou-se, atravessou o corredor descalça e empurrou a porta, semicerrando os olhos por causa da luz.

Um homem que ela nunca tinha visto estava estendido sobre a mesa da cozinha, de braços abertos, como se tivesse decidido passar ali a noite. Ao lado dele, João permanecia sentado, vermelho, bêbedo a ponto de mal se aguentar consciente, e devorava os restos do jantar — precisamente a comida que Ana tinha guardado para chegar até ao fim do mês.

— Que é que queres? — resmungou ele, ao reparar nela. — Temos visitas…

— Visitas, João? A esta hora? São quatro da manhã! — Só então Ana despertou por completo. — Mas que raio se passa aqui?

João tentou pôr-se de pé, cambaleou e caiu outra vez na cadeira.

— Não grites… está quase a chegar o Ano Novo… descontrai…

— Claro. Contigo é facílimo uma pessoa descontrair-se — respondeu Ana, com a voz apertada, fazendo um esforço enorme para não explodir.

Nesse momento, algo dentro dela cedeu. Como se um fio muito fino, que durante anos a mantivera inteira à força, se tivesse partido. Aproximou-se da mesa, agarrou o desconhecido pela manga do casaco e puxou-o para fora da cozinha, quase arrastando-o pelo corredor. A porta do prédio bateu com força. João estremeceu.

— Mas que estás tu a fazer? — protestou ele, indignado e mole.

— Já vais perceber.

Ana voltou-se, foi até ao marido e, sem hesitar, empurrou-o também para o patamar, atrás do amigo.

João ainda tentou resistir, mas sem convicção. As pernas falhavam-lhe, vencidas pelo álcool.

— Vai dormir onde quiseres. Nas escadas, em casa do teu amigo, na rua. Para mim é igual.

— Sua… — começou ele, preparando um insulto.

Mas a porta fechou-se antes que terminasse. Ana ficou parada no meio da entrada, a olhar para a madeira, sem acreditar inteiramente no que acabara de fazer. Passados alguns minutos, regressou à cozinha, juntou os restos espalhados, atirou as garrafas vazias para o lixo e preparou para si uma chávena de chá bem quente.

O sono evaporara-se. Sentou-se junto à janela e ficou a observar a rua branca lá fora, a neve a esconder a sujidade e o cinzento da cidade, como se por algumas horas tudo pudesse parecer limpo. A certa altura, deu por si a notar que o céu começava a clarear. Estava na hora de se arranjar para ir trabalhar.

Quando saiu de casa, João já não estava à porta. Pela primeira vez na vida, isso não lhe despertou qualquer preocupação. A sexta-feira passou quase sem que Ana desse por ela. Trabalhou com aplicação, concentrada, decidida a deixar tudo pronto a tempo para não ter de ficar depois da hora.

Ao fim da tarde, a direção reuniu o departamento inteiro e anunciou:

— Obrigado a todos pelo empenho. Este ano haverá prémio de fim de ano.

Quando o dinheiro entrou no cartão, Ana ficou a olhar para o valor sem conseguir acreditar. Era o dobro do que esperava. Levou a mão à boca, sentindo as lágrimas subirem — lágrimas de alegria, mas sobretudo de alívio.

O telemóvel vibrou-lhe na mão. Era Sofia, a amiga que Ana não via havia dois anos. Sete anos antes, Sofia tinha ido em trabalho para fora, conhecera lá um homem e ninguém imaginara que acabaria por ficar. Casara, tivera um filho… vivia longe, mas nunca se esquecera de Ana.

— Ana, estou na cidade! Só por três dias. Vemo-nos?

Ana sorriu e respondeu sem pensar duas vezes:

— Vem cá a casa hoje à noite.

Quando João finalmente se dignou aparecer, já de noite, vinha convencido de que encontraria a mulher arrependida, talvez a chorar, talvez pronta a pedir desculpa. Até ensaiara uma expressão severa para a receber.

Mas, ao abrir a porta, deparou-se com outra cena: Ana e Sofia estavam sentadas na cozinha, a rir e a beber vinho.

João ficou encarnado.

— Que palhaçada é esta?! Que estás tu a fazer?! — começou a berrar, como sempre. — O que é que eu te disse sobre meteres estranhos na minha casa? Que circo montaste aqui?

Sofia ficou imóvel, com o copo na mão, sem compreender o que estava a acontecer. Olhou para a amiga, interrogativa. Ana limitou-se a suspirar, pousou o copo na mesa e falou com uma calma que nem ela própria reconheceu:

— João… estou tão farta de ti. A sério. De ti e da tua mãe.

Encarou-o diretamente.

— Como se costuma dizer, Ano Novo, vida nova. — Fez uma breve pausa. — Vou deixar-te, João. Junta as tuas coisas e sai do meu apartamento.

O marido piscou os olhos, como se aquelas palavras não fizessem sentido.

— Mas de que estás tu a falar? — Depois abriu um sorriso torto, cheio de desprezo. — Está bem, eu arrumo. Mas ainda te vais arrepender. E a tua filha? Como é que ela vai crescer sem pai? Pensaste nisso?

Ana soltou uma gargalhada curta.

— A minha filha? Agora lembraste-te da Maria? Bom… ao menos lembraste-te.

Levantou-se e apontou para a porta.

— Não te preocupes com ela. A Maria vai sobreviver a essa “perda”.

Casa da Encarnação