“Nesse carro, tu não entras. Nunca” disse Ana friamente, recusando ceder o carro a Miguel após ele ter batido o veículo enquanto conduzia embriagado

Histórias
Irresponsável e egoísta, nunca mais confiável.

— O problema é teu, querido: ficaste sem carro. Foste tu que te sentaste ao volante num estado em que mal conseguias manter-te de pé. Portanto, nem penses em pedir-me o meu. Nesse carro, tu não entras. Nunca.

— Dá-me as chaves do teu carro. Tenho de ir à estância — atirou Miguel, sem sequer levantar os olhos do que estava a fazer.

Um jato de vapor quente escapou-se do ferro com um silvo, vencendo a última dobra teimosa no colarinho da camisa branca. Ele passava a peça com gestos propositadamente descuidados, como se o simples facto de engomar a própria roupa já fosse uma façanha digna de reconhecimento. Aquilo nem soara a pedido. Parecera antes uma ordem banal, mais um ponto lido em voz alta da lista de tarefas daquela manhã.

Sentada à mesa da cozinha, Ana levou a chávena aos lábios e bebeu um gole de café devagar. Não olhou para ele. Tinha os olhos presos na janela, no pátio cinzento lá fora, onde os tejadilhos dos carros brilhavam sob uma chuva miudinha.

— Chama um táxi.

A voz saiu-lhe lisa, calma, sem a mínima vibração de emoção. Apenas uma palavra lançada ao ar.

O ruído do ferro cessou. Miguel desligou-o e pousou-o sobre a tábua com uma pancada surda. Depois virou-se. A expressão dele, até aí carregada daquela superioridade tranquila que tanto gostava de exibir, começou a alterar-se lentamente.

— O quê? Que táxi? — perguntou, como se ela tivesse acabado de dizer o maior disparate do mundo. — O carro está ali mesmo, debaixo da janela.

— O meu carro está ali — corrigiu Ana, pousando a chávena vazia no pires com cuidado. O toque da porcelana pareceu demasiado alto no silêncio da manhã. Só então virou a cabeça para ele e encarou-o. Sem desafio teatral, mas também sem a mais pequena hesitação. — O teu ficou enrolado num poste quando conduziste bêbedo. E a carta foi-te apreendida. Já te esqueceste?

— E então? Acontece! Agora estou sem carro, por isso levo o teu.

— O problema é teu, querido: ficaste sem carro. Foste tu que te puseste ao volante num estado em que nem de pé te aguentavas. Por isso, não me peças o meu carro. Não vais sentar-te lá dentro. Nunca.

Pronunciou cada palavra com precisão, como se estivesse a ler uma sentença. Não havia censura na voz, nem sequer raiva. Apenas factos secos, impossíveis de varrer para debaixo do tapete. A tensão instalou-se na cozinha. Miguel aproximou-se devagar da mesa e inclinou-se sobre ela. Não lhe tocou, mas o corpo dele, grande e forte, ocupou o espaço como um instrumento de pressão. Estava habituado a que isso bastasse.

— Ana, não me irrites. Já disse: dá-me as chaves.

Ela não se afastou. Não se encolheu na cadeira. Limitou-se a erguer os olhos para ele. No olhar não havia medo; havia apenas um cansaço frio, distante. Já assistira àquela cena vezes demais, embora com cenários diferentes.

— Não. Tu não vais pegar no volante do meu carro. Nunca.

A última palavra saiu mais baixa, mas pesou mais do que qualquer grito. Tinha a firmeza de um ponto final colocado no fim de uma frase longa e dolorosa.

O rosto de Miguel ganhou cor. O autocontrolo de que tanto se orgulhava começou a rachar.

— Tu enlouqueceste?! Como é que eu apareço na festa da empresa de táxi? Como um miserável qualquer? À frente do departamento inteiro! Estás a fazer isto de propósito. Queres humilhar-me diante de toda a gente!

Não gritava, mas a voz tremia de fúria contida. Passou a tratá-la com aquela agressividade íntima que usava sempre que sentia o controlo escapar-lhe. Era a arma dele: transformar tudo numa ofensa pessoal, obrigá-la a defender-se, a justificar-se, a explicar. Mas Ana não entrou no jogo. Ficou calada, a observá-lo, deixando que as palavras dele caíssem no vazio. Deixou-o despejar a irritação.

Quando ele por fim se calou, ofegante, Ana fez algo que Miguel não esperava de todo. Pegou no telemóvel que estava em cima da mesa e estendeu-lho. Um sorriso quase impercetível, amargo, passou-lhe pelos lábios.

— Toma — disse, no mesmo tom sereno. — Liga à tua mãe. Talvez ela te empreste a lata velha dela.

Ele ficou imóvel, alternando o olhar entre o telemóvel na mão dela e o rosto de Ana, incapaz de medir de imediato o alcance daquele sarcasmo. Ana não recolheu o braço. Pelo contrário, o olhar tornou-se ainda mais duro.

— Só não te esqueças de lhe lembrar que estás sem carta.

Miguel arrancou-lhe o telemóvel da mão com tanta força que parecia querer parti-lo.

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