Os dedos dele lançaram-se sobre o ecrã, furiosos, a marcar o número que sabia de cor, como se o tivesse gravado na pele. Ana ergueu-se com calma, pegou na chávena e dirigiu-se ao lava-loiça, virando-lhe deliberadamente as costas. Aquela cena terminara. A seguinte começava naquele instante.
— Mãe, sou eu — disse Miguel.
A voz que, segundos antes, vibrava de raiva, transformou-se de imediato. Entrou-lhe no tom uma súplica quase infantil, uma doçura magoada que ele reservava apenas para as conversas com a mãe.
Ana conhecia bem aquela voz. Já a ouvira vezes demais. Era a voz de um menino a quem tinham tirado o balde no parque e que corria para se queixar à única pessoa do mundo que, acontecesse o que acontecesse, ficaria sempre do lado dele.
Sem pressa, passou a chávena por água, pousou-a no escorredor e pegou num pano da cozinha. Cada gesto seu era contido, medido, quase cerimonial, como se pertencesse a uma realidade mais lenta e silenciosa, onde não chegavam os ecos daquela pequena tragédia telefónica.
— Não, não, está tudo bem… quer dizer, quase — continuou ele. — Estou a ligar porque hoje tenho o jantar da empresa. É fora da cidade, tenho mesmo de ir. A Ana fez uma cena e não me dá as chaves do carro.
Calou-se por um momento, escutando a voz que chilreava do outro lado da linha. Ana, com uma minúcia quase provocadora, limpou a bancada que já estava impecável. Não precisava de ouvir a mãe dele para adivinhar o discurso. Algo sobre Ana estar “cada vez mais atrevida”, sobre não saber dar valor ao marido que tinha, e, claro, o inevitável “eu bem te avisei”. Era um guião antigo, gasto, conhecido até à náusea.
— Exatamente, é isso mesmo que eu lhe digo! Que isto é uma humilhação! Que agora fico aqui feito um idiota, obrigado a… Não, imagina, nem isso! Diz para eu chamar um táxi. Disse que não me empresta o carro nunca mais. Nunca.
Miguel começou a andar pela cozinha de um lado para o outro, como um animal fechado numa jaula, tendo o telemóvel como única abertura para o exterior. De vez em quando lançava olhares carregados contra as costas de Ana, mas ela não se virava.
Para ele, aquela indiferença era quase insuportável. Ana tornara-se uma parede muda, lisa, contra a qual a fúria dele batia e regressava sem efeito. Isso enfurecia-o ainda mais. Precisava de plateia para o seu número, precisava de reação, mas a principal espectadora abandonara a sala com uma frieza insultuosa.
— Porquê? Porque sim! Voltou a atirar-me à cara aquela história… Sim, a da carta… Oh, por favor, mãe, como se isso fosse alguma coisa de outro mundo! Pode acontecer a qualquer um! — Fez um gesto largo com a mão livre, como quem afasta uma mosca incómoda, embora falasse para alguém invisível. — Agora usa isso contra mim! Agarra-se a isso como se eu lhe tivesse roubado a última coisa que tinha na vida!
Ana abriu o frigorífico e tirou um iogurte. Retirou a película, foi buscar uma colher e ficou de pé junto à janela, comendo devagar enquanto olhava para a paisagem cinzenta lá fora. A chuva começara a cair. As gotas batiam no parapeito metálico com um som regular, indiferente, acompanhando a conversa como uma percussão sem alma.
— O teu? Mãe, estás a falar a sério? — A voz de Miguel mudou de novo.
Agora havia nela alívio verdadeiro, misturado com o princípio de uma vitória. Parou no centro da cozinha, e o rosto iluminou-se-lhe.
— Claro, vou já aí. Pega, pega, porque não havia de pegar? Mãe, salvaste-me. A sério. Obrigado. Um beijo, estou aí daqui a pouco.
Desligou e atirou o telemóvel para cima da mesa com força. O embate do aparelho contra a madeira produziu um estalido seco, quase desafiante. Depois olhou para Ana, que nesse instante deitava o copo vazio do iogurte no lixo.
Nos olhos dele brilhava a satisfação de quem acabava de conquistar terreno. Vencera aquela ronda. Encontrara uma saída. Provara-lhe, pelo menos na sua cabeça, que Ana não era o centro do universo, que ainda existiam outras pessoas dispostas a ajudá-lo.
— Estás a ver? Nem toda a gente neste mundo é como tu. Ainda há pessoas normais, pessoas que gostam de nós e ajudam, em vez de passarem a vida a levantar obstáculos.
Disse-o de cima, com uma superioridade moral quase teatral. Esperou que Ana respondesse, que lhe atirasse alguma frase de volta, que lhe desse o conflito de que ele ainda precisava para completar a vitória. Mas ela limitou-se a fechar a porta de um armário, em silêncio.
— Fico muito contente por ti, Miguel — respondeu, sem sequer olhar para ele. — E pela tua mãe também.
Depois saiu da cozinha, deixando-o sozinho com aquele pequeno triunfo. Durante alguns segundos, Miguel saboreou-o. Em seguida foi para o quarto, arrancou da tábua a camisa acabada de engomar e começou a vestir-se.
