Conseguiu aquilo que queria, pelo menos na aparência: calou-a e arranjou transporte. Uma vitória pequena, táctica, quase mesquinha. Ainda assim, algures no fundo da consciência, começou a mexer-se uma sensação desagradável, como se, nesse mesmo instante, tivesse perdido algo muito mais valioso. Só que Miguel ainda não sabia dar nome a essa perda.
A meia-noite já tinha ficado para trás havia bastante tempo. Ana continuava acordada. Estava sentada na sala, com um livro aberto sobre o colo, embora não lesse uma única linha. A luz do candeeiro caía sobre as páginas, mas as letras não se juntavam em palavras. Ela apenas esperava, escutando os ruídos discretos da casa durante a noite. Sabia que alguma coisa ia acontecer. Não sabia de que forma, nem a que horas, mas sentia a inevitabilidade daquele desfecho.
Primeiro ouviu-se um arranhar abafado junto à porta. Depois, um remexer incerto, arrastado, como se quem estivesse do outro lado não conseguisse coordenar os movimentos. A chave demorou demasiado tempo a encontrar a fechadura. Por fim, houve um estalido metálico, a porta abriu-se, e Miguel apareceu no limiar.
Vinha encharcado pela chuva. O cabelo colava-se-lhe à testa, e a camisa cara, aquela que nessa manhã ele arrancara da tábua de engomar com tanta importância, estava reduzida a um trapo amarrotado. Estava bêbedo. Mas não era a bebedeira ruidosa, alegre ou agressiva que Ana já conhecia. Era uma embriaguez baça, pesada, impregnada de derrota. Miguel parecia desfeito.
Entrou sem olhar para ela e avançou em silêncio até à mesa. Do bolso interior do casaco tirou uma folha amarrotada, dobrada em quatro, e atirou-a para cima do tampo de vidro da mesa de centro. Um auto. Um formulário branco, escrito a tinta azul, que, sob a luz mortiça da sala, se parecia assustadoramente com uma certidão de óbito.
Ana não se levantou. Limitou-se a observá-lo: os ombros caídos, o corpo a afundar-se com dificuldade no cadeirão, a cabeça atirada para trás como se já não tivesse forças para a sustentar. Ele não disse nada. Porém, logo atrás dele, no vão da porta, surgiu outra figura.
Svetlana Anatolievna.
Estava de casaco aberto, plantada à entrada com uma expressão dura, determinada, como um general que acabasse de chegar ao campo de uma batalha perdida. Entrou, fechou a porta atrás de si e, sem sequer tirar o casaco, fixou Ana com um olhar acusador.
— Estás satisfeita? — A voz da mãe dele era fria e cortante como metal. Não havia pergunta nenhuma ali. Apenas condenação.
Ana fechou devagar o livro e pousou-o ao seu lado.
— Satisfeita com o quê, Svetlana Anatolievna?
— Com tudo isto! — Ela fez um gesto largo, abrangendo a sala, o papel em cima da mesa e o filho, que permanecia de olhos fechados no cadeirão. — Era isto que querias, não era? Levaste o rapaz a este ponto! Olha bem para o que fizeste!
Deu mais um passo, e a sua presença pareceu ocupar a divisão inteira. Miguel continuou imóvel, instalado no papel de vítima que a mãe lhe oferecia com tanta prontidão.
— Se lhe tivesses emprestado o teu carro, um carro decente, um carro como deve ser, nada disto tinha acontecido! — continuou ela, cada vez mais exaltada. — Mas não. Tinhas de mostrar carácter. Tinhas de o humilhar. Obrigaste-o a ir no meu carro velho!
— O seu “carro velho” está em perfeitas condições — respondeu Ana, sem alterar o tom. — E isso não tem qualquer relação com o facto de o seu filho não saber beber. Nem com o facto de não ser capaz de se impedir de pegar no volante depois de beber.
— Não te atrevas! — explodiu Svetlana Anatolievna. — Com o teu carro ele nunca se teria metido numa situação destas! O teu tem travões melhores, é mais recente! Na estrada, toda a gente teria cuidado com ele. O meu, ninguém respeita! Ele só bateu noutro carro no parque porque não sentiu bem as dimensões. Está habituado a coisas boas, e tu tiraste-lhas!
A acusação era tão absurda que, por um instante, Ana nem encontrou resposta. Não a censuravam por se ter recusado a satisfazer um pedido irresponsável de um homem embriagado; censuravam-na por lhe ter dado um instrumento inadequado para quebrar as regras.
— Tens razão, mãe… — murmurou Miguel de repente, sem abrir os olhos. A voz saiu-lhe arrastada, queixosa, lamentável. — Ela fez de propósito. Ela odeia-me.
Era uma manobra ensaiada até à perfeição. Ele confirmava, acrescentava combustível ao incêndio, e a mãe atacava de novo com forças renovadas.
— Ouviste?! Ouviste o que o meu filho está a dizer?! Preparaste-lhe uma armadilha! Fizeste tudo de propósito! Querias que ele se espetasse no meu carro enquanto o teu ficava intacto debaixo da janela! Tu sabias que hoje era a festa da empresa, sabias que ele ia beber! Querias que acabasse assim!
Svetlana Anatolievna estava agora junto de Ana, quase a gritar-lhe na cara. Tinha o rosto vermelho de fúria.
