“Pôs-me na rua!” gritou Catarina em lágrimas após Ana despejar as suas malas no patamar

Histórias
Ato cruel e indigno, impossível de aceitar.

— Miguel, fala com a tua mulher, por favor! Mas quem é que ela pensa que é?! Pôs-me na rua!

Miguel estava sentado no escritório, mergulhado em contratos e pastas, quando o telemóvel quase explodiu com uma voz estridente, cortada por soluços.

— Miguel, tens de falar com a tua mulher! Ela atirou-me para fora de casa! Quem é que ela julga que é?!

Era Catarina, a irmã dele. A voz tremia-lhe de indignação e choro. Miguel afastou os documentos para o lado e sentiu, nas têmporas, o início daquela dor de cabeça que já conhecia demasiado bem.

— Catarina, acalma-te. O que é que aconteceu?

— O que aconteceu?! — guinchou ela, subindo uma oitava. — A tua mulher… aquela… pegou nas minhas coisas todas e despejou-as no patamar! Simplesmente atirou tudo para fora! Como se fosse lixo! Estou aqui nas escadas com as malas, e os vizinhos a olharem para mim como se eu fosse… sei lá, uma sem-abrigo! Miguel, estás a perceber?! Humilhou-me à frente de toda a gente!

Miguel fechou os olhos e massajou a cana do nariz. Nas últimas duas semanas, pressentira que em casa se estava a acumular qualquer coisa desagradável. Ana andava calada, tensa, e Catarina… Catarina comportava-se como se tivesse sido instalada num hotel de cinco estrelas com serviço completo.

— E antes disso? O que é que levou a essa situação? — perguntou ele, com cautela.

— Nada! Absolutamente nada! — Catarina quase se engasgava. — Eu estava só a viver aí, a estudar para os exames, sem fazer mal a ninguém. E esta manhã ela entrou de rompante no meu quarto… quer dizer, no quarto de hóspedes, e começou a gritar que eu tinha de me ir embora! Eu disse-lhe que tinha vindo para casa do meu irmão, que aquela também era a tua casa, e ela… ela pôs-se a enfiar as minhas roupas nas malas! Miguel, nem me deixou arrumar as coisas como deve ser! Empurrou-me porta fora com tudo!

Por dentro, Miguel sentiu a irritação ferver. Como se atrevera Ana? Catarina era irmã dele, praticamente uma miúda, tinha vindo preparar-se para entrar na universidade, e era assim que a tratavam? Na casa dele?

— Ela perdeu o juízo?! — escapou-lhe. — Onde estás agora?

— No patamar! Com três malas! Miguel, eu nem tenho para onde ir! Tenho exame depois de amanhã, devia estar a estudar, e agora…

— Fica onde estás. Eu trato disto já — cortou ele, seco, e desligou antes de ouvir o resto do choro da irmã.

Tinha os dedos a tremer quando marcou o número da mulher. O toque pareceu-lhe interminável.

— Sim? — atendeu Ana, com uma calma tão perfeita que o irritou ainda mais.

— Ana, que raio se está a passar?! — rebentou Miguel, incapaz de se conter. — Podes explicar-me por que motivo a minha irmã está nas escadas com as malas todas?!

Do outro lado houve silêncio. Ele ouviu apenas a respiração dela, regular, dominada.

— Porque lhe pedi que saísse e ela recusou — respondeu Ana, no mesmo tom controlado. — Portanto, dei-lhe uma ajuda com a mudança.

— Estás a brincar comigo?! — a voz de Miguel subiu tanto que alguns colegas olharam na direção dele. Virou-se ostensivamente para a janela e baixou o tom para um sussurro carregado de raiva. — Ela é minha irmã! Uma rapariga de dezanove anos que veio fazer exames de acesso! Puseste-a na rua como se fosse uma qualquer…

— Miguel, pensa bem antes de acabares essa frase — interrompeu Ana, agora com a voz fria. — Não digas nada de que te possas arrepender.

— Eu é que me vou arrepender?! — Miguel quase sufocava de indignação. — Tu expulsaste a minha irmã! Uma miúda! Tens noção do que fizeste?

— Uma miúda — repetiu Ana, e havia algo perigoso naquela serenidade. — Uma “miúda” que, em duas semanas, não lavou um único prato que sujou. Uma “miúda” que organizou encontros cá em casa enquanto nós estávamos a trabalhar. Uma “miúda” que vestiu um vestido meu novo sem pedir autorização e ainda lhe deixou uma nódoa de vinho tinto. Uma “miúda” que esta manhã me informou que não saía daqui para lado nenhum porque “o irmão dela mora aqui”.

— E depois?! — Miguel cortou-lhe a palavra. — O irmão dela mora mesmo aí! Esta também é a minha casa, ou já te esqueceste?

— Não, Miguel — disse Ana, mais baixo, mas por isso mesmo ainda mais ameaçadora. — Esta é a minha casa. É o meu apartamento, comprado com o meu dinheiro três anos antes de eu casar contigo. Tu vives aqui porque és meu marido. A tua irmã ficou aqui porque insististe durante duas semanas, e eu aceitei. Temporariamente. Só durante o período dos exames.

— Ah, agora é “o teu apartamento”! — rosnou Miguel, sentindo o chão fugir-lhe debaixo dos pés, embora se recusasse a admiti-lo. — Somos uma família! Ou isso para ti não significa nada?

— Precisamente por sermos família, Miguel.

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