— Precisamente por sermos família, Miguel, é que ainda estou a conversar contigo, em vez de mandar simplesmente trocar as fechaduras — respondeu Ana, sem baixar os olhos. — A tua “menina” portou-se como uma pessoa egoísta e malcriada. Aguentei duas semanas. Tentei falar com ela. Expliquei-lhe que, numa casa que não é nossa, arrumamos o que sujamos, não fazemos barulho de madrugada e não mexemos nas coisas dos outros. Sabes o que ela me respondeu?
Miguel ficou calado, com os maxilares cerrados.
— Disse-me: “Esta casa é do meu irmão, faço o que me apetecer. Se não gostas, o problema é teu.” Foi isto, Miguel. Palavra por palavra. E quando lhe pedi que procurasse outro sítio para ficar, informou-me que não saía daqui para lado nenhum. Portanto, sim: pus-lhe as malas no patamar. E, já agora, fi-lo com cuidado, tudo dobrado e arrumado.
— Era essa a tua obrigação! — explodiu Miguel, percebendo no mesmo instante que estava a dizer um disparate, mas incapaz de travar. — Tu és a dona da casa! Tu é que tinhas de encontrar maneira de lidar com ela!
— A minha obrigação? — Na voz de Ana soou um espanto frio. — Miguel, estás mesmo a ouvir-te? Agora também é dever meu educar a tua irmã adulta?
— Ela não é adulta! Tem dezanove anos!
— Eu tinha dezoito quando aluguei um quarto numa residência e trabalhava à noite para o conseguir pagar — disse Ana, com uma serenidade cortante. — E, mesmo assim, conseguia limpar o que sujava e não tratava a pessoa que me acolhia como se me devesse vassalagem. Por isso, não me venhas falar de idade.
— Não é a mesma coisa! — Miguel sentia a discussão a escapar-lhe por entre os dedos e essa impotência só lhe inflamava mais a raiva. — A Catarina foi criada de outra maneira, está habituada a…
— Habituada a quê? — interrompeu Ana. — A que limpem sempre atrás dela? A que lhe permitam tudo? A que o irmão resolva qualquer problema? Miguel, ela tem dezanove anos. Há pessoas dessa idade que já trabalham, constituem família, têm filhos, assumem responsabilidades sérias. E tu queres convencer-me de que ela é uma criança?
— Para com essa mania de dar lições! — berrou ele. — Tens sequer noção do que fizeste? Ela está no corredor do prédio! Tem um exame depois de amanhã! Não tem para onde ir!
— Tem uma mãe que vive a duas horas daqui — respondeu Ana, impassível. — Tem residências de estudantes, caso seja admitida. E também tem dinheiro para um hotel, vindo daquilo que tu lhe transferes com tanta regularidade.
— Como é que sabes das transferências? — escapou-lhe antes que conseguisse pensar.
— Porque a conta é dos dois, génio — replicou Ana, cansada. — E eu vejo todos os movimentos. Cinquenta euros para despesas. Cem euros para roupa. Mais setenta não se sabe bem para quê. Em duas semanas, Miguel. Duzentos e vinte euros.
— Ela é minha irmã!
— E era o meu problema! — Pela primeira vez, Ana levantou a voz. — Um problema que acabou há exatamente uma hora, quando a pus porta fora!
— Tu… tu és maluca! — cuspiu Miguel, perdendo de vez o domínio de si. — És uma egoísta sem coração, que não quer saber da minha família para nada!
— Para. — A voz de Ana voltou a ficar baixa. — Miguel, acabaste de me chamar maluca e egoísta?
Havia qualquer coisa naquele tom que o obrigou a calar-se.
— Eu… reagi de cabeça quente…
— Não, espera. Vamos levar essa ideia até ao fim — continuou Ana, com uma calma que metia medo. — Sou egoísta porque não quero viver no meio da desordem dentro da minha própria casa? Porque não aceito que uma pessoa praticamente desconhecida abra os meus armários e remexa nas minhas coisas? Porque me fartei de limpar atrás de uma mulher adulta que nem sequer sabe dizer bom dia?
— A Catarina não é uma desconhecida!
— Para mim é, Miguel. É uma estranha. Antes disto, vi-a três vezes na vida: no nosso casamento, na passagem de ano e no aniversário da tua mãe. E em todas essas ocasiões comportou-se como se eu fosse empregada dela. Portanto, sim: para mim é uma pessoa de fora que abusou da hospitalidade que lhe dei.
— Está bem! Excelente! — Miguel já falava sem filtro, arrastado pelo próprio orgulho ferido. — Então a minha família é gente estranha para ti! Se calhar também eu devia ir embora, não é? Para não “profanar” este teu reino!
O silêncio prolongou-se tanto que Miguel chegou a afastar o telemóvel do ouvido para confirmar se a chamada não tinha caído.
— Sabes uma coisa, Miguel — disse Ana por fim, com uma voz estranha, ao mesmo tempo exausta e firme. — A tua irmã pode voltar. Hoje à noite. Entra, recolhe o resto das coisas, pede-me desculpa pela falta de respeito e vai-se embora. Se achas que isto é inaceitável, então vai com ela. Comprei este apartamento antes de nos casarmos; é meu, por inteiro. Podes levar as tuas coisas e viver onde quiseres.
