“Então está decidido: este verão vamos passá-lo todos convosco” — anunciou Aurora, deixando João sem palavras e Catarina apreensiva

Histórias
A aparente bondade esconde egoísmo frio e injusto.

À volta da mesa, o silêncio instalou-se de repente.

Foi Mariana quem primeiro conseguiu reagir.

— Estás mesmo a dizer que queres cobrar dinheiro à tua própria família por ficar aqui?

— Foram vocês que se ofereceram para viver nesta casa durante várias semanas.

— Mas nós não vimos como estranhos.

— Precisamente por isso deviam ser os primeiros a não empurrar todas as despesas para cima de nós.

Aurora endireitou-se na cadeira, ofendida.

— Desde quando é que descansar em casa de família se paga?

— Uma coisa é aparecerem durante umas horas, depois de serem convidados. Outra bem diferente é decidirem sozinhos que quartos vão ocupar e instalarem-se aqui o verão inteiro.

— Nós não vos íamos atrapalhar.

Catarina olhou para as crianças, que naquele instante corriam à volta de um banco ainda por terminar. Uma delas já tinha agarrado numa embalagem de ferragens que João deixara junto à entrada.

— A casa e o terreno continuam em obras. Há ferramentas, parafusos, tábuas, sacos de material por todo o lado. Se ficarem cá, vamos ter de andar constantemente atrás dos miúdos para garantir que ninguém se magoa. Só isso já altera completamente os nossos planos.

Mariana chamou o filho e tirou-lhe a embalagem das mãos.

— Basta arrumar o que for perigoso.

— Não temos uma divisão livre onde meter uma obra inteira.

— Então para que compraram uma casa, se afinal não há lugar para ninguém? — perguntou ela, já sem esconder a irritação.

Catarina inclinou ligeiramente a cabeça e observou a cunhada com atenção.

— Comprámo-la para nós.

Aurora apertou a pega da mala com força.

— João, estás a ouvir a maneira como a tua mulher fala com a tua irmã?

Ele ergueu os olhos da agenda.

— Estou.

— E não tens nada a dizer?

João demorou alguns segundos a responder. Catarina não o pressionou, nem tentou falar por ele. Se ele queria aceitar aquela ocupação familiar, teria de o dizer em voz alta e explicar por que motivo uma decisão sobre a casa dos dois estava a ser tomada sem ela.

Aurora aproveitou a pausa.

— Nunca imaginei que comprar uma casa mudasse tanto a Catarina. Antes era muito mais acolhedora.

— Antes ninguém nos tinha sugerido dormir numa tenda enquanto ocupava o nosso quarto — respondeu Catarina.

Manuel tossiu discretamente e lançou um olhar à mulher.

— A parte da tenda foi, de facto, exagerada.

— Eu só apresentei uma solução prática.

— Prática para vocês — corrigiu Catarina.

A sogra virou-se outra vez para o filho.

— Passámos anos a dizer que devíamos estar mais tempo juntos. Agora finalmente há essa possibilidade e a tua mulher aparece com contas na mão.

João passou a palma pelo queixo. Depois fechou a agenda e empurrou-a na direção de Catarina.

— Mãe, a Catarina tem razão.

Mariana soltou o ar com estrondo.

— Claro. Ela já decidiu tudo.

— Não — João fixou a irmã. — Quem decidiu tudo foram vocês. Sem mim e sem a Catarina. Até criaram um grupo à parte para distribuir a nossa casa como se fosse uma pensão.

— Queríamos fazer uma surpresa.

— Surpresa é oferecer alguma coisa. Não é anunciar aos donos que eles vão dormir no quintal.

Aurora desviou o rosto para a janela.

— Portanto, os teus pais já não têm lugar aqui.

— Têm lugar como convidados, quando forem convidados — disse João. — Mas ninguém vai viver aqui durante semanas só porque lhe apeteceu.

Catarina reparou na mudança no rosto do marido. A confusão inicial desaparecera. João falava sem aquele sorriso culpado de sempre e, pela primeira vez naquela conversa, não tentava agradar a todos ao mesmo tempo.

— Comprámos esta casa porque queríamos ter um sítio tranquilo para nós — continuou ele. — Durante o verão inteiro, trabalhamos aqui depois do nosso trabalho normal. Eu não planeei passar todas as noites a acender o grelhador para a família e depois andar à procura de um sítio onde dormir.

Nuno ergueu as mãos, num gesto defensivo.

— Ninguém te pediu para fazer grelhados todas as noites.

— A mãe já decidiu que era preciso comprar um grelhador maior.

— Foi só uma ideia.

— Ideias dessas discutem-se com os donos antes de aparecerem com crianças e escolherem quartos.

Mariana ficou corada.

— Hoje viemos apenas ver a casa.

— Então porque estavas a decidir onde ia ficar o sofá para vocês dormirem? — perguntou Catarina.

A cunhada abriu a boca, mas não encontrou resposta.

Aurora tentou levar a conversa para outro lado.

— Muito bem. Admitamos que não ficamos cá de forma permanente. Mas aos fins de semana havemos de vir. Não vão passar recibo à família sempre que aparecermos, pois não?

Catarina sorriu com serenidade.

— Podem vir quando forem convidados. Combinamos a data antes. Se estivermos com obras, se tivermos outros planos ou se simplesmente quisermos ficar os dois sozinhos, a visita fica para outra altura.

— Agora tenho de marcar hora para ver o meu próprio filho?

— O João pode estar convosco quando quiser. Mas uma visita a uma casa que também é minha ele combina comigo, da mesma maneira que eu combinaria com ele antes de trazer convidados meus.

— Esta casa não é um hotel, nem uma colónia de férias da família — acrescentou João. — Não se entra aqui por decisão de um grupo de mensagens.

Aurora franziu o sobrolho.

— Muito conveniente. Compraram uma casa e, no mesmo instante, fecharam a porta a toda a gente.

Catarina abriu a agenda na página onde tinha anotado os trabalhos já feitos.

— Qual de vocês nos ajudou a montar a cozinha?

Ninguém respondeu.

— Quem veio pintar a fachada?

Nuno desviou os olhos.

— Quem limpou o terreno, carregou ramos, transportou entulho, comprou materiais ou, pelo menos, perguntou se precisávamos de ajuda?

Aurora encolheu um ombro, contrariada.

— Vocês também não pediram.

— Exatamente. Fizemos tudo sozinhos. Mas vocês também nunca se ofereceram. No entanto, bastou verem umas fotografias para começarem logo a repartir quartos.

— Não precisas de pôr cada pormenor na balança — disse Mariana.

— Não estou a contar pormenores. Estou a contar o nosso dinheiro e o nosso tempo.

Catarina virou a agenda para eles. Na folha viam-se datas de entregas, prazos de pagamentos e uma lista de tarefas que ainda teriam de ser concluídas antes do outono.

— Isto não nos caiu nas mãos como uma casa de férias pronta a usar. Fizemos um empréstimo e comprámos uma casa que ainda estamos a recuperar. Aqui não há empregados. Ninguém vai cozinhar para um grupo grande, limpar o que esse grupo sujar e adiar obras para que os outros possam descansar.

Nuno levantou-se da cadeira.

— Acho que já percebemos tudo.

Chamou as crianças para junto dele.

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