Mariana juntou as mochilas, os casacos das crianças e os sacos que tinham ficado espalhados junto à entrada. O desagrado continuava-lhe estampado no rosto, mas desta vez não tentou prolongar a discussão.
Manuel foi o primeiro a aproximar-se de João. Falou em voz baixa, sem a segurança com que chegara minutos antes.
— Devíamos ter telefonado antes. Tinhas razão.
— Sim, pai. Era o mínimo.
— Então vamos andando.
Aurora, porém, permaneceu imóvel, como se ainda esperasse que alguém recuasse.
— Então é assim? Nem sequer almoçamos?
Catarina consultou o relógio e respirou fundo antes de responder.
— Apareceram sem avisar. Nós não preparámos a casa para receber visitas.
— Mas trouxemos comida — insistiu Aurora.
— Podemos almoçar juntos hoje — disse Catarina, escolhendo bem cada palavra. — Depois do almoço, cada um volta para sua casa. E, da próxima vez, combina-se tudo antes.
A sogra pareceu ficar sem resposta. Talvez esperasse uma expulsão seca, uma cena à porta, qualquer coisa que lhe permitisse sentir-se ofendida. A proposta apanhou-a desprevenida.
— Quer dizer que hoje ainda podemos ficar?
— Durante umas horas. Não até ao fim do verão.
Nuno reacendeu o pequeno grelhador que João e Catarina já tinham comprado para a casa. João tratou da carne, Catarina lavou e cortou legumes, e Mariana, ainda calada, distribuiu pratos, talheres e guardanapos pela mesa improvisada no pátio. A tensão não desapareceu por completo, mas foi-se tornando menos pesada, como uma nuvem que se afasta devagar sem chegar a abrir totalmente o céu.
Aurora quase não participou na conversa. Limitou-se a comer, a olhar para o quintal e, de vez em quando, a observar a nora com uma expressão difícil de decifrar.
Ninguém voltou a falar em quartos, colchões, tendas ou férias em família. As crianças brincaram apenas na zona indicada por João, longe das ferramentas, das tábuas e do anexo ainda por arrumar. Mariana, desta vez, manteve-se atenta e chamou-as sempre que se aproximavam demais.
Depois do almoço, os familiares ajudaram a levantar a mesa. Mariana recolheu os brinquedos e as roupas dos filhos, Nuno certificou-se de que o grelhador ficava apagado e deitou água sobre as brasas. Ao fim da tarde, os dois carros saíram finalmente do pátio.
Catarina fechou o portão e ficou um segundo com a mão pousada no trinco, como se precisasse de confirmar que o silêncio era real. Depois voltou para junto da casa.
João estava sentado no degrau da entrada. Ao lado dele continuava a bancada de madeira por montar, com parafusos, ripas e uma chave de fendas espalhados.
— Estive quase a dizer que sim — confessou ele, sem levantar logo os olhos.
— Eu percebi.
— A minha vontade foi dizer: “Falta pouco para acabar agosto, aguentamos mais umas semanas.”
Catarina sentou-se ao lado dele, deixando entre ambos um pequeno espaço.
— E em setembro vinham apanhar maçãs. No inverno apareciam para passar as festas. No verão seguinte, a Mariana chegava cá com uma piscina insuflável e dizia que era para os miúdos.
João soltou um riso curto.
— Ela era bem capaz.
— Por isso é que tinha de ficar claro hoje.
Ele rodou a chave de fendas entre os dedos, sem a usar.
— Eu não queria criar uma guerra.
— Se tivesses cedido, a guerra ficava cá dentro. Todos os fins de semana. Todos os dias.
— Eu sei.
Catarina olhou para ele com mais cansaço do que zanga.
— As decisões que dizem respeito aos dois não podem ser tomadas só para evitar que alguém fique melindrado.
João anuiu.
— Eu também queria viver isto com calma. Só tive medo de o dizer à minha mãe.
— Hoje disseste.
— Tarde, mas disse.
Catarina pegou no folheto de instruções da bancada e estendeu-lho.
— Então acaba comigo isto. Se não montarmos agora, ainda fica aqui até ao outono.
Trabalharam até o sol começar a baixar. João apertava parafusos, alinhava as ripas e fazia força onde era preciso; Catarina verificava as peças, conferia os encaixes e avisava quando alguma coisa ficava torta. Quando a bancada ficou finalmente pronta, levaram-na para debaixo da macieira e sentaram-se nela pela primeira vez desde que tinham comprado a casa. Dessa vez, sem vozes à volta, sem exigências, sem planos impostos.
Alguns dias depois, Aurora telefonou a João. A chamada foi breve. Quando desligou, ele foi ter com Catarina à cozinha.
— A minha mãe quer vir no sábado.
Catarina pousou a lista das compras em cima da mesa.
— Só ela?
— Não. Vêm o meu pai, a Mariana, o Nuno e os miúdos.
— Para dormir?
— Não. Chegam de manhã e vão-se embora depois do jantar. Disseram que trazem comida e que ajudam no terreno.
— Nós tínhamos combinado acabar o caminho nesse sábado.
— Eu disse isso. O pai ofereceu-se para me ajudar com as tábuas, e o Nuno disse que podia levar os restos dos ramos para o ecoponto.
Catarina ficou uns instantes calada, a ponderar.
— Então que venham às onze. Nem antes, nem quando lhes apetecer.
No sábado seguinte, chegaram exatamente à hora marcada. Aurora trazia um bolo, Mariana apareceu com um conjunto de pequenas luzes para o jardim, e Manuel tirou da bagageira um par de luvas de trabalho já gastas, mas limpas.
Dessa vez, ninguém entrou pelo portão como se a casa lhe pertencesse.
— Onde posso pôr as coisas da comida? — perguntou Aurora.
— Na cozinha. Há uma prateleira livre do lado esquerdo — respondeu Catarina.
Mariana não foi espreitar os quartos nem comentar onde cada um poderia dormir. Ajudou as crianças a mudar de roupa, calçou-lhes sapatilhas velhas e perguntou a Catarina qual era a zona segura para brincarem.
Nuno juntou-se a João e os dois começaram a carregar os ramos secos para fora do terreno. Manuel ficou com as tábuas do caminho e trabalhou sem grandes discursos. Aurora, em determinado momento, abriu a boca como se fosse dar uma opinião sobre o canteiro, mas conteve-se antes de falar.
Depois do almoço, ninguém se instalou à sombra à espera de ser servido. Voltaram todos ao que estavam a fazer. Ao fim da tarde, o caminho já estava quase concluído, o pátio encontrava-se muito mais limpo e as crianças, esgotadas de correr e ajudar “à sua maneira”, foram as primeiras a pedir para voltar para casa.
Antes de se irem embora, Mariana ficou um pouco para trás, junto ao portão.
— No próximo fim de semana não vimos — disse ela. — Já temos coisas combinadas.
— Está bem — respondeu Catarina.
— Daqui a duas semanas… posso perguntar?
— Claro. Perguntar, sim. Primeiro vemos a data e combinamos.
Mariana fez um breve aceno de cabeça, menos defensivo do que de costume.
Aurora aproximou-se por último.
— Deixei-vos o resto do bolo.
— Obrigada.
A sogra hesitou.
— Hoje não atrapalhámos?
Catarina fitou-a. A pergunta soou estranha vinda dela, mas não vinha carregada de ironia.
— Hoje correu bem.
Aurora ajeitou a alça da mala no ombro.
— Então até à próxima.
Os carros afastaram-se quando o sol de agosto já começava a desaparecer por trás das árvores.
Com o passar das semanas, a família habituou-se a telefonar antes de aparecer. Algumas vezes, João e Catarina convidavam todos para passar apenas o dia. Noutras, diziam que não dava: havia obras para adiantar, contas para organizar ou simplesmente vontade de descansar a dois. Aos poucos, ninguém voltou a tratar uma recusa como uma afronta pessoal.
A tentativa de transformar a casa num alojamento de verão para toda a família passou a ser recordada com certo embaraço. Mariana deixou de chamar “seu” a qualquer quarto. Nuno nunca mais levou malas ou objetos sem perguntar. Aurora parou de fazer planos em nome dos donos.
A casa continuava presa ao crédito, exigia trabalho constante e consumia dinheiro todos os meses. Catarina não escondia isso de ninguém e também não permitia que a compra fosse vista como uma oferta gratuita para o descanso de toda a parentela.
Não foi preciso uma discussão escandalosa. Catarina não expulsou ninguém de forma humilhante, nem cortou relações. Bastou abrir a agenda, mostrar os compromissos reais e dizer em voz alta aquilo que João demorara tanto tempo a admitir.
Aquela casa era, antes de tudo, o lugar de quem a estava a construir e a pagar. As visitas eram bem-vindas — mas apenas quando eram verdadeiramente convidadas.
