“Compraram uma casa? Que maravilha! Então está decidido: este verão passamos cá todos em família” — declarou Aurora, pousando as duas mãos sobre a mesa com um ar de satisfação absoluta

Histórias
Maravilhoso e inquietante, um verão de promessas frágeis.

— Compraram uma casa? Que maravilha! Então está decidido: este verão passamos cá todos em família — declarou Aurora, pousando as duas mãos sobre a mesa da cozinha com um ar de satisfação absoluta.

Catarina fechou devagar a porta do frigorífico. Primeiro olhou para a sogra, depois para Mariana, filha dela, que já tivera tempo de percorrer as divisões com os dois filhos. Tiago, o marido de Mariana, ficara no quintal; observava com expressão prática o espaço junto ao anexo, como se estivesse a escolher onde montaria a sua própria oficina.

Rui estava sentado em frente da mãe e não dizia nada. Pelo modo como passava repetidamente os dedos pela borda da caneca, Catarina percebeu logo: o marido procurava, aflito, uma forma de responder sem magoar ninguém.

Era sempre assim. Rui passava a vida à procura das palavras certas. E, quase sempre, essa procura acabava da mesma maneira: ele aceitava as condições dos outros, e depois era Catarina quem tinha de lidar com as consequências.

Do lado de fora, pela janela aberta, ouvia-se o canto insistente dos grilos. O sol de agosto já aquecera o terreiro, embora mal passasse das dez da manhã. Na fachada recém-pintada, as molduras brancas das janelas destacavam-se com nitidez; perto da entrada acumulavam-se sacos de terra, e ao longo do caminho estavam alinhadas tábuas destinadas aos futuros canteiros.

A casa tinha sido comprada no início do verão. Era pequena, térrea, com dois quartos, uma cozinha aberta para a sala e um terreno que os antigos donos praticamente não cuidavam havia anos. A compra fora o resultado de muitas economias, de viagens adiadas, de gastos cortados e de dezenas de visitas a imóveis que, por um motivo ou outro, nunca serviam.

Catarina e Rui tinham-se conhecido seis anos antes, no aniversário de um amigo comum. Passados poucos meses, concluíram que atravessar a cidade inteira para se verem deixara de fazer sentido, e arrendaram um apartamento juntos. Um ano depois, casaram.

A ideia de ter uma casa própria surgiu quase logo a seguir ao casamento. Não imaginavam muros altos, três andares nem um jardim imenso. Queriam apenas um lugar simples, onde pudessem chegar depois do trabalho, abrir as janelas, mexer na terra, plantar alguma coisa e não ouvir, através da parede, a televisão dos vizinhos.

Durante anos, foram juntando dinheiro, acompanhando anúncios e comparando zonas. Quando finalmente conseguiram dar a entrada, escolheram uma casa numa localidade tranquila, suficientemente perto para se chegar à cidade sem perder horas em filas.

A propriedade ficou em nome dos dois, e o crédito também. Cada tábua, cada lata de tinta, cada caixa de parafusos entrava na lista partilhada de despesas. Ambos sabiam muito bem quanto ainda faltava pagar e quanto custaria manter o terreno em condições.

Assim que receberam as chaves, deitaram mãos à obra.

A fachada estava baça e descascada, por isso Rui raspou o revestimento antigo, enquanto Catarina pintava a parte inferior das paredes. Ao fim da tarde, os braços tremiam-lhes de cansaço; ainda assim, na manhã seguinte, lá estavam outra vez com os pincéis na mão.

A cozinha chegou desmontada, em várias caixas. Rui passou horas a comparar peças com o manual de instruções, enquanto Catarina separava ferragens e assinalava numa folha os módulos já montados. Por duas vezes tiveram de desmontar um armário, porque as calhas tinham sido fixadas do lado errado. Discutiram, riram-se da própria confiança exagerada e, perto da meia-noite, conseguiram finalmente terminar.

No exterior, o trabalho não era menor. Arrancaram a erva velha, levaram embora ramos secos e limparam o caminho até ao anexo. Catarina queria preparar, no outono, uma zona para arbustos de frutos vermelhos; Rui sonhava construir uma cobertura junto à casa.

Trabalhavam depois do emprego e em quase todos os fins de semana. Às vezes adormeciam logo a seguir ao jantar, antes sequer de conversarem sobre o que fariam no dia seguinte. Mas aquele cansaço não lhes pesava da mesma forma. Cada pedaço de parede concluído, cada prateleira montada, cada caminho limpo recordava-lhes que, desta vez, estavam a fazer tudo por eles próprios.

Resolveram contar a novidade apenas aos familiares mais próximos.

Durante vários dias, Catarina evitou publicar fotografias. A casa ainda lhe parecia demasiado inacabada. Havia ferramentas no alpendre, caixas espalhadas pela sala e uma parte do terreno continuava coberta de mato.

Rui riu-se quando a mulher, mais uma vez, se recusou a tirar fotografias à cozinha.

— Daqui a um ano ainda vamos andar a acabar qualquer coisa. Se for por isso, escondemos a casa até ao próximo verão.

Na sexta-feira à noite, Catarina acabou por ceder. Tirou algumas fotografias: a fachada, as macieiras, a cozinha e Rui com a aparafusadora na mão, ao lado de um banco ainda por montar. Enviou tudo para o grupo da família e escreveu que, finalmente, se tinham mudado para a sua própria casa fora da cidade.

As respostas chegaram quase de imediato.

No início, foram só felicitações. Uma tia afastada de Rui desejou-lhes uma vida calma naquele lugar. Mariana pediu para ver os quartos das crianças. Aurora escreveu que sempre dissera ao filho que o ar do campo fazia bem à saúde.

Meia hora depois, o tom da conversa mudou.

Mariana quis saber se havia algum lago por perto. Tiago perguntou se seria possível instalar um grelhador grande no quintal. A sogra começou a comentar que as crianças aproveitavam muito mais as férias longe da cidade.

Catarina lia as mensagens com a testa franzida.

— Eles já estão a planear férias aqui — disse ao marido.

Rui inclinou-se para espreitar o telemóvel.

— Estão só contentes por nós.

— A Mariana escreveu que vai trazer uma piscina insuflável e pô-la junto à macieira.

— Deve estar a brincar.

— Então por que é que a tua mãe perguntou qual dos quartos está livre?

Rui percorreu rapidamente a conversa com o dedo.

— Não comeces a imaginar coisas. Eles sabem que a casa é pequena.

Catarina não insistiu. Na família de Rui, era comum lançarem ideias no grupo que nunca passavam de mensagens. Preferiu acreditar que, dentro de um ou dois dias, a excitação à volta da compra desapareceria.

Mas, no domingo de manhã, dois carros pararam junto ao portão.

Nesse momento, os dois estavam ocupados na cozinha. Catarina limpava as prateleiras novas; Rui aparafusava puxadores nas portas dos armários.

Tiago foi o primeiro a entrar no quintal. Trazia um saco numa mão e uma cadeira dobrável na outra.

— Recebam os convidados!

Logo atrás apareceu Mariana com as crianças. Aurora vinha por último, acompanhada do marido, Carlos.

Ninguém tinha telefonado antes.

— Vão ficar muito tempo? — perguntou Catarina, depois de cumprimentar todos.

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