— Logo se vê — respondeu Mariana, com uma leveza que não prometia nada de concreto. — Os miúdos estavam ansiosos por conhecer a casa.
O filho mais velho dela já atravessava o quintal a correr na direção do anexo; a menina mais nova esticava-se nas pontas dos pés para espreitar pelas janelas.
— No anexo ninguém entra, está bem? Há ferramentas lá dentro — avisou Catarina, elevando a voz.
Mariana limitou-se a fazer um gesto despreocupado com a mão.
— Eles têm cuidado.
Catarina não confiou nessa segurança. Foi atrás das crianças, alcançou-as junto à porta e fechou o anexo à chave. Enquanto isso, Rui carregava para dentro os sacos que os familiares tinham trazido.
Em poucos minutos, os recém-chegados comportavam-se como se já conhecessem cada canto da propriedade. Tiago começou a percorrer a vedação, avaliando onde ficaria melhor montar o grelhador. Carlos examinou as macieiras com ar entendido e anunciou que dois ramos precisavam de ser cortados. Mariana, por sua vez, fez uma volta pela casa, entrou nos dois quartos, abriu portas, observou paredes e perguntou qual deles seria reservado aos hóspedes.
— Não temos quarto de hóspedes — respondeu Catarina.
— E este aqui?
Mariana apontava para o quarto mais pequeno, onde Catarina e Rui ainda guardavam caixas, ferramentas, rolos de tinta e materiais da obra.
— Esse vai ser o escritório do Rui.
— A secretária pode ficar encostada à janela. E, se deixarem um sofá, serve perfeitamente para alguém dormir.
— Ainda não decidimos o que vai ficar aí.
Mariana sorriu como quem corrige uma criança incapaz de perceber uma solução evidente.
— Estou só a dar uma ideia prática.
Catarina não lhe respondeu. Voltou para a cozinha e começou a arrumar os produtos que os visitantes tinham trazido, mais para ocupar as mãos do que por necessidade.
Depois do chá, Aurora pousou a chávena, olhou à volta da mesa e avançou diretamente para o assunto que, pelos vistos, todos já tinham tratado antes.
— Então compraram a casa. Muito bem! Nós cá em família já combinámos passar o verão convosco.
Disse aquilo num tom quase alegre, como se anunciasse uma surpresa agradável e esperasse que o filho aderisse de imediato.
Catarina desviou os olhos para a janela. Ainda faltavam algumas semanas para o fim de agosto, mas a maneira como a sogra falava deixava claro que não se referia apenas àquele verão. Na cabeça deles, a casa já estava integrada nos planos de todas as épocas seguintes.
— Quem é que combinou isso exatamente? — perguntou ela.
— Falámos no grupo — explicou Mariana. — A mãe e o pai vêm durante a semana. Nós vimos com as crianças. O Tiago tem de trabalhar em parte de agosto, por isso vai indo e vindo da cidade.
— Que grupo? — perguntou Rui, franzindo a testa.
— Temos um grupo só da família.
Rui levantou a cabeça de imediato.
— E eu não estou nele porquê?
Mariana encolheu os ombros, como se aquilo não tivesse importância.
— Criámos à pressa para não encher o grupo principal com conversas pequenas.
— Ou seja, estiveram a organizar o uso da nossa casa sem falar connosco? — perguntou Catarina, devagar.
— Não ponhas as coisas nesses termos — interveio Aurora. — Ninguém quer tomar conta da vossa casa. Só queremos passar tempo juntos.
Levantou-se da cadeira e caminhou até ao corredor, já a distribuir espaços como se estivesse a fazer uma vistoria.
— Eu e o Carlos ficamos no quarto perto da cozinha. À noite dá-nos jeito não ter de atravessar a casa. A Mariana e as crianças podem instalar-se no outro quarto. O Tiago traz uma cama dobrável.
Catarina virou-se para o marido.
Rui piscou os olhos, confuso, e olhou para a mãe.
— E nós dormimos onde?
— Vocês são novos — respondeu Aurora, com naturalidade. — Montam uma tenda boa no quintal. Em agosto está calor.
Durante alguns segundos, Rui pareceu incapaz de articular uma palavra.
— Estás a sugerir que saiamos do nosso próprio quarto?
— Não será sempre — disse Aurora. — Vamos alternando. Além disso, vocês já tinham dito que queriam tratar do terreno. Assim até aproveitam.
Mariana apressou-se a reforçar a ideia da mãe:
— As crianças precisam de rotina, não dá para as pôr numa tenda. Para vocês pode ser quase como acampar, uma coisa diferente.
Catarina observava atentamente o rosto do marido. Rui já entreabria a boca, e ela reconheceu aquele instante perigoso: o sorriso tenso, a inspiração rápida, a frase que vinha sempre a seguir — “Está bem, havemos de arranjar uma solução.”
Antes, cedências dessas tinham significado aceitar um jantar inconveniente, alterar uma viagem ou adaptar planos de festas. Agora, Rui preparava-se para entregar aos familiares a casa que os dois ainda teriam de pagar durante anos ao banco.
Catarina levantou-se.
— Esperem só um momento.
Foi ao quarto e regressou com a agenda. Ali estavam listas de compras, prazos de pagamentos, notas sobre a obra e contas previstas para os meses seguintes.
Pousou a agenda em cima da mesa e abriu-a na página certa.
Aurora ficou alerta.
— O que é isso?
— As despesas da casa.
— E para que precisamos nós de ver isso?
— Se estão a planear viver aqui o verão inteiro, convém saberem quanto custa manter esta casa a funcionar.
Tiago, que até então olhava pela janela para o quintal, voltou a sentar-se à mesa.
Catarina passou o dedo pelas linhas escritas à mão.
— Prestação do crédito habitação. Seguro. Eletricidade. Água. Recolha de resíduos. Impostos. Manutenção dos equipamentos. Custos do terreno. Materiais que compramos para continuar as obras.
— O que é que a obra tem a ver com a nossa vinda? — perguntou Mariana.
— Tem tudo a ver. Se passarmos a alojar mais seis pessoas aqui dentro, muitos trabalhos ficam parados. O quarto onde estão os materiais já foi atribuído por vocês como quarto de alguém. Portanto, parte das coisas terá de ser deslocada, e os prazos da remodelação também mudam.
— Podemos ajudar — ofereceu Carlos.
— Ótimo. Então não vamos distribuir apenas quartos. Também vamos distribuir tarefas.
Catarina virou mais uma página.
— Cortar a relva, cuidar das plantas, limpar o que as crianças sujarem, comprar comida, cozinhar, lavar a casa de banho, controlar o consumo de água e de luz. Se o Tiago quer montar um grelhador grande, também é preciso prever lenha ou carvão, limpeza do espaço e regras de segurança.
Tiago endireitou-se na cadeira.
— Do grelhador trato eu.
— Excelente. Fica registado.
Ele fechou a cara, mas não disse mais nada.
Catarina fez as contas depressa. Não mencionou o valor da casa nem discutiu quanto ela e Rui ganhavam. Limitou-se a enumerar os encargos inevitáveis e os custos novos que surgiriam se uma família inteira passasse a viver ali durante semanas.
— Se vierem todos ao mesmo tempo e ficarem até ao fim de agosto, a vossa parte corresponde a cerca de um terço das despesas correntes da casa nesse período. A alimentação fica por conta de cada um. O consumo adicional de água e eletricidade será pago à parte. E as obras não param, por isso, durante o dia, os quartos têm de ficar livres.
