— E a que propósito é que veio bater à minha porta? Não tem uma filha adorada, aquela a quem ofereceu o apartamento?
Ana permanecia à entrada, de braços cruzados, sem a mínima intenção de sorrir. À sua frente, Teresa, uma mulher miúda, seca, de lábios apertados, acabava de passar a soleira e pousava no chão uma mala antiga, aos quadrados. Trazia consigo um cheiro a naftalina misturado com medicamentos. João, marido de Ana, estava ao lado das duas, inquieto, sem saber para onde olhar.
Teresa endireitou-se tanto quanto as costas doridas lhe permitiam e encarou a nora com ar desafiador.
— A Mariana, neste momento, não tem condições para cuidar de mim. Está com obras em casa. E vocês vivem aqui os dois, com duas divisões. Não me digas que não há um canto para a mãe do teu marido.
— Um canto? — Ana soltou uma risada curta, sem alegria. — A senhora deu o seu T3 na Avenida da Liberdade à sua filha. Então que seja ela a arranjar-lhe esse canto. Aqui, para sua informação, há um quarto e uma sala junta com a cozinha. Onde tenciona instalar-se? Numa cama dobrável entre a televisão e o frigorífico?

João pigarreou, constrangido.
— Ana, chega. A mãe fica só uns tempos. Até acabarem as obras da Mariana.
— Só uns tempos? — Ana virou-se para ele. — Tu acreditas mesmo nisso? A Mariana pô-la fora assim que a escritura ficou feita. Sabes perfeitamente como estas coisas começam: primeiro são as obras, depois aparecem problemas, a seguir surge um namorado a quem a velha estorva. E, no fim, a tua mãe fica connosco. Para sempre.
Teresa levou as mãos ao peito, indignada.
— Que crueldade a tua! João, diz-lhe alguma coisa! Eu criei-te, passei noites sem dormir, tirei da minha boca para te dar!
— O que tinha para dar, deu à Mariana — cortou Ana. — E não foi pouco. Foi tudo. Um apartamento inteiro. Quanto a nós, nunca nos tratou como família. O João é o quê para si? Um filho? Ou apenas um parente decorativo?
João suspirou. Estava esgotado daquela discussão antes mesmo de ela começar. Sentia-se magoado por si e por Ana, mas nunca aprendera a contrariar a mãe. Teresa sempre soubera apertar-lhe o coração com a palavra “dever”. E Mariana, desde pequena, fora a preferida. A ela perdoavam-se as faltas às aulas, o carro do pai amolgado, os casamentos falhados. João crescera discreto, obediente. Fizera um curso técnico, começara a trabalhar cedo e comprara aquele apartamento com Ana, a crédito. Agora encontrava-se preso entre duas frentes, incapaz de escolher sem sentir culpa.
— João… — Teresa mudou de tom, tornando a voz frágil e queixosa. — A tensão subiu-me. Deixa-me pelo menos sentar um bocadinho, venho cansada da viagem.
João pegou na mala e encostou-a à parede do corredor. Ana, porém, não se afastou.
— Pode ir para a cozinha. Eu faço chá. Mas antes quero ouvir a verdade: vendeu o apartamento ou ofereceu-o?
Teresa tirou os sapatos, calçou umas pantufas que trazia dentro de um saco e seguiu para a cozinha apoiada no braço do filho. Sentou-se à mesa, com as mãos muito juntas diante de si.
— Ofereci — admitiu, quase num murmúrio. — A Mariana prometeu que eu ficaria no quarto virado para o pátio, aquele mais sossegado. Disse que tomaria conta de mim. Mas, mal assinei os papéis, mandou trocar as fechaduras. Disse que precisava do seu espaço. Que eu atrapalhava a vida dela.
Ana encheu três canecas com chá. Os seus dedos tremiam ligeiramente, embora a voz continuasse firme.
— E agora espera que nós a acolhamos depois dessa traição? A senhora nunca nos deu valor. Nem sequer nos convidou para a festa da casa nova da Mariana. Nos aniversários do João, telefona uma vez de seis em seis meses, e só quando precisa de alguma coisa.
— Ana — interrompeu João —, a mãe já está a sofrer bastante.
— Eu também sofro, João. Sofro por ver a tua mãe a pisar a tua dignidade como se fosse um tapete. Tu trabalhas em dois sítios para conseguirmos pagar o empréstimo da casa. A tua irmã recebeu um apartamento sem mexer um dedo. E agora a tua mãe senta-se na nossa cozinha como se fosse natural sermos nós a resolver o problema.
Teresa apertou ainda mais os lábios.
— O João é homem. Um homem tem obrigação de sustentar a família. Já a Mariana é sensível, uma alma criativa. A vida pesa-lhe muito.
— Alma criativa… — repetiu Ana, com uma ironia amarga. — Nunca trabalhou um dia inteiro na vida. Primeiro viveu à sua custa, agora vai viver no apartamento que era seu. E nós ficamos todos espremidos aqui em trinta metros quadrados.
João pousou a caneca na mesa com força excessiva. O chá saltou para fora.
— Basta! A mãe fica. Está decidido.
Ana fitou-o durante alguns segundos, sem pestanejar.
— Está decidido por ti? E a minha opinião conta para alguma coisa?
— E queres que ela vá para onde? Para a rua?
— Para casa da pessoa a quem deu o apartamento. Que exija o quarto que lhe foi prometido. Se tivesse ficado com usufruto ou direito de habitação na escritura, podia reclamar. Ficou alguma coisa por escrito?
Teresa corou.
— Não. A Mariana pediu-me para tratar disso antes. Disse que, se eu mudasse a minha morada, seria tudo mais simples para tratar de uns apoios.
— Meu Deus… — Ana cobriu o rosto com as mãos. — Até isso fez. A senhora pensou, em algum momento? A Mariana descartou-a como quem deita fora uma cómoda velha, e agora vem exigir que nós a recolhamos.
João levantou-se da cadeira.
— Eu não consigo pôr a minha mãe na rua. Mesmo que ela tenha cometido um erro. É a minha mãe.
— A tua mãe — repetiu Ana, erguendo-se também. — Muito bem. Então que fique. Mas ouça-me bem, Teresa: vou tolerá-la aqui apenas por respeito ao seu filho. Não pense, porém, que vai mandar nesta casa. Este apartamento é meu e do João; comprámo-lo antes de casar e continuamos a pagá-lo juntos. A senhora está aqui como visita. Portanto, comporte-se como tal.
Teresa contraiu a boca, mas não respondeu. Levantou-se devagar e foi para a sala. Ana ouviu o sofá ranger e a sogra suspirar enquanto se acomodava.
