João aproximou-se da mulher e pousou-lhe as mãos nos ombros, num gesto cansado e agradecido.
— Obrigado — murmurou ele.
Ana nem se virou de imediato. Limitou-se a respirar fundo.
— Não me agradeças — respondeu em voz baixa. — Não estou a fazer isto por ela. Estou a fazê-lo por ti.
Nessa noite, porém, o sono não veio. Ana ficou deitada, imóvel, a ouvir a respiração regular do marido, enquanto a cabeça lhe trabalhava sem descanso. As queixas de Teresa repetiam-se-lhe na memória, misturadas com aquele ar de vítima resignada, quase humilde. Mas havia qualquer coisa naquela história que não encaixava. Teresa cedera depressa demais. Aceitara as condições sem discutir como Ana esperava. Fora para o sofá em silêncio, como se já tivesse previsto tudo. Uma mulher como ela, habituada a comandar, a impor-se e a dobrar os outros à sua vontade, não baixaria a cabeça assim tão facilmente.
Ao fim de algum tempo, Ana levantou-se com cuidado, vestiu o robe por cima da camisa de dormir e saiu do quarto. No corredor, a pequena luz de presença lançava uma claridade baça sobre as paredes. Junto à mala de viagem da sogra estava a bolsa dela.
Ana sabia perfeitamente que remexer nas coisas de outra pessoa era errado. Ainda assim, uma inquietação insistente empurrava-a para ali. Havia alguma coisa naquela bolsa. Alguma coisa importante. Agachou-se, abriu devagar o fecho e espreitou para dentro. Encontrou uma carteira, um lenço, caixas de medicamentos e vários papéis dobrados. Tirou uma folha e desdobrou-a com dedos tensos.
Era uma cópia de uma escritura de doação.
Passou os olhos pelas linhas com rapidez, até que, de repente, ficou gelada.
Na parte referente às obrigações de quem recebia o imóvel, lia-se que a donatária se comprometia a garantir à doadora o direito de habitação vitalícia na casa transmitida. Mais abaixo, aparecia a assinatura de Mariana. Ana virou a folha. No verso, havia uma declaração escrita à mão: “A doadora renuncia a este direito por livre vontade, sem nada a reclamar.” Por baixo, a assinatura de Teresa.
Mas aquela assinatura parecia errada.
As letras estavam trémulas, cortadas, como se a mão que segurara a caneta tivesse sido conduzida por outra pessoa, ou como se Teresa estivesse num estado em que mal pudesse resistir.
Ana engoliu em seco. Aquilo mudava tudo. Teresa não se limitara a oferecer a casa à filha. Também assinara a renúncia ao direito de continuar a viver nela. De livre vontade? Ana duvidava muito. Mariana tinha sido mais astuta do que parecera à primeira vista. E a sogra, agora, sabia que talvez já não conseguisse recuperar nada.
Mas por que motivo escondera aquele documento do filho? Porque não o mostrara logo a João?
Um ruído vindo da sala fê-la sobressaltar-se. Ana dobrou os papéis à pressa, voltou a metê-los na bolsa e regressou ao quarto. João dormia profundamente. Ela deitou-se ao lado dele e ficou a olhar para o teto, com os pensamentos em rodopio. Se Teresa guardava aquele contrato em segredo, era porque tinha vergonha. Ou porque preparava alguma coisa. Ou talvez porque não suportasse que o filho percebesse até que ponto se deixara enganar.
De uma coisa, porém, Ana tinha a certeza: acabara de encontrar uma carta forte. E não tencionava ignorá-la.
No dia seguinte, enquanto João estava no trabalho, decidiu falar diretamente com a sogra. Teresa encontrava-se no sofá, com um maço de fotografias antigas no colo, folheando-as como quem procura abrigo no passado. Ana sentou-se diante dela.
— Teresa, eu vi a escritura de doação.
A sogra estremeceu e ergueu a cabeça devagar.
— Andaste a mexer nas minhas coisas?
— Andei — respondeu Ana, sem desviar o olhar. — E não me arrependo. Está lá escrito que a senhora tinha direito a viver naquela casa até ao fim da vida. E, no verso, há uma declaração em que abdica desse direito. Porquê?
Teresa perdeu a cor.
— Isso não te diz respeito.
— Diz, sim. Está a viver dentro da minha casa. Tenho o direito de saber com quem estou a lidar. A senhora abriu mão do direito de morar com a sua filha. Porquê? Ela obrigou-a?
Durante longos segundos, Teresa não respondeu. Depois soltou um suspiro pesado.
— A Mariana disse que era só uma formalidade. Jurou que eu continuaria a viver com ela, que aquele papel era necessário para a casa ficar “limpa” se um dia fosse preciso vendê-la. Eu assinei. Nunca pensei que ela me fizesse uma coisa dessas.
— Ela é sua filha. Como é que nunca pensou nessa possibilidade?
A voz de Teresa quebrou-se.
— É sangue do meu sangue. Eu confiava nela mais do que em mim própria.
Ana abanou a cabeça, sem conseguir esconder a indignação.
— E agora? Ia ficar calada? Instalar-se aqui e fingir que está tudo bem?
— E que queres que eu faça? — Teresa elevou a voz, num sobressalto de desespero. — Que a leve a tribunal? Que lhe tire a casa? A Mariana afunda-se! Tem créditos, tem planos, não se aguenta sozinha!
— E a senhora aguenta-se? — Ana inclinou-se para a frente. — Ficou sem casa, sem dinheiro, sem uma morada que seja verdadeiramente sua. A sua reforma deve rondar os cem euros ou pouco mais. Passou a vida a sacrificar-se pela sua filha e ela pô-la na rua como se fosse um móvel velho. E, mesmo assim, ainda a defende?
Teresa tapou o rosto com as mãos.
— Eu não sei viver de outra maneira. Sempre gostei mais dela. O João é forte, desenrasca-se. A Mariana é frágil, precisa de ajuda.
Ana levantou-se bruscamente.
— Tem noção da ferida que está a abrir no seu filho? Ele trabalha sem descanso para pagar este apartamento onde a senhora está agora sentada. E a irmã recebeu tudo sem mexer um dedo, apenas porque a senhora quis protegê-la. E ainda arranja forças para desculpar o que ela fez.
Teresa não disse mais nada. Virou-se apenas para a janela, calada, como se a conversa tivesse deixado de a alcançar. Ana percebeu que dali não sairia nenhuma confissão útil. Foi até à cozinha, pegou no telemóvel e marcou o número de Mariana. Um toque. Depois outro. Ao terceiro, a chamada foi atendida.
— Estou? — ouviu-se uma voz irritada.
— Mariana, é a Ana. A tua mãe está cá em casa. Temos de falar.
— Sobre quê? — A voz da cunhada tornou-se imediatamente fria. — Sobre ela nem sequer ter conseguido cumprir uma coisa simples? Dei-lhe casa, fiz obras, deixei tudo em condições, e ela é que não quis viver comigo.
Ana soltou uma risada curta, sem humor.
— Ela é que não quis? Mudaste as fechaduras. Fizeste-a assinar uma renúncia ao direito de habitação. Puseste a tua mãe na rua.
— Isso é assunto da nossa família. Não te metas.
— Já me meti. E sabes uma coisa? A tua mãe pode levar-te a tribunal. Pode pedir a anulação do negócio se provar que assinou enganada. E nós temos provas.
Do outro lado, fez-se silêncio. Depois Mariana riu-se.
— Que tente. Ela nunca se vai virar contra mim. Eu sou filha dela. Ela adora-me.
— Veremos — disse Ana, antes de desligar.
Ao fim da tarde, João voltou para casa com um ar exausto.
