“Se eu voltar a encontrar a tua mãe dentro do nosso quarto às seis da manhã, ponho-a na rua… e a ti juntamente com ela!” gritou Ana, furiosa, dando um ultimato a João e ameaçando expulsar a sogra

Histórias
Essa intromissão é intolerável, humilhante e egoísta.

Ana voltou-se para ele. Havia na sua voz um brilho de desespero contido.

— João, a sério que não percebes? Ou fazes de conta? Ela vigia-nos. Sabe quando estamos em casa, quando saímos, quando regressamos. Conhece melhor os nossos horários do que nós próprios. E tu ainda perguntas o que há de estranho?

João sentiu a irritação subir-lhe ao peito. Vinha cansado do trabalho, só queria algum silêncio, e em vez disso encontrava mais uma discussão interminável sobre a mãe.

— Ana, chega. Sim, a minha mãe às vezes passa dos limites. Mas não faz por mal. Ela gosta de mim e só quer ter a certeza de que estamos bem.

— Gosta? — Ana semicerrava os olhos. — João, ela não quer apenas gostar de ti. Quer mandar na tua vida. E isso é muito diferente.

— Não digas disparates.

— Disparates? Está bem. Então responde-me só a isto: quando foi a última vez que tomaste uma decisão sobre a nossa casa sem antes falares com a tua mãe?

Ele ficou imóvel. A pergunta apanhou-o desprevenido.

— Que queres dizer com isso?

— Quero dizer que consultaste a tua mãe antes de comprarmos o sofá. Fizeste o mesmo com as obras da casa de banho. Até o papel de parede do quarto foi escolhido depois de ouvires a opinião dela. E lembras-te da minha promoção? Quando me propuseram aquele cargo, mas teríamos de mudar para outra zona? Quem foi que disse que era uma péssima ideia? Quem te meteu na cabeça que uma mulher deve trabalhar perto de casa?

João não respondeu. As recordações começaram a alinhar-se, uma atrás da outra, e a imagem que formavam não era propriamente confortável.

— Ana, pedir conselho aos pais é normal…

— Conselho? João, ela não dá conselhos. Dá ordens. E tu cumpres, obediente, como um menino bem-comportado.

Ana aproximou-se da mesa e pegou no telemóvel.

— Sabes uma coisa? Vamos fazer uma experiência. Liga-lhe agora e diz-lhe que decidimos mudar as fechaduras do apartamento. Sem explicações. Comunica apenas a decisão.

— Para quê?

— Porque temos esse direito. Esta casa é nossa, João. Temos o direito de decidir a quem entregamos uma chave e a quem não entregamos.

Ele recebeu o telemóvel, mas os dedos não se moveram para marcar o número.

— Ana, é a minha mãe. Ela vai ficar magoada.

— E eu já estou magoada! — Ana sentou-se junto à mesa. — Estou magoada por viver numa casa onde não tenho direito ao meu próprio espaço. Onde a minha sogra pode entrar no quarto enquanto eu durmo e toda a gente acha isso normal.

Depois inclinou-se para ele, com a voz mais baixa, mas mais firme.

— João, eu não te estou a pedir que cortes relações com a tua mãe. Estou a pedir-te que ponhas limites. Que protejas a nossa família. A nossa casa. O nosso casamento.

— Mas como é que eu lhe explico isso?

— Não expliques. Diz apenas: “Mãe, mudámos as fechaduras. Se quiseres vir cá, telefona antes.” Só isto.

João rodava o telemóvel entre as mãos. No fundo, sabia que Ana tinha razão. Ainda assim, enfrentar a mãe parecia-lhe assustador. Maria sabia ficar ofendida como ninguém: podia passar semanas sem lhe dirigir a palavra, cobri-lo de lágrimas e censuras, e ele suportava muito mal aquele peso.

— E se ela ficar triste?

— Então que fique! — Ana levantou-se de repente. — João, tu és um homem adulto. Tens uma mulher, tens uma família. Não podes viver a vida inteira com medo de ferir os sentimentos da tua mãezinha.

Nesse preciso instante, a chave girou na fechadura. A porta de entrada abriu-se, e no corredor soaram passos demasiado familiares.

— Olá, meus filhos! Voltei! Como não vos vi à janela, achei melhor subir para confirmar se estava tudo bem!

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