Ana virou o rosto para João. O olhar dela dizia tudo: “Estás a ver?”
Maria entrou na cozinha como se a casa lhe pertencesse, trazendo na mão um saco cheio de comida.
— Meu querido João, fiz-te sopa em casa e trouxe-a para cá. A Ana, coitada, já nem deve saber o que é cozinhar como deve ser. Também trouxe batatas com carne. Tu sabes bem como adoras as minhas batatas.
Ana sentiu o calor subir-lhe ao rosto. Cada visita da sogra vinha embrulhada naquele tipo de “cuidado”: palavras doces por fora, alfinetadas por dentro.
— Obrigada, Maria, mas eu cozinho para o meu marido.
— Claro, claro — respondeu a sogra, abanando a mão, como se aquilo fosse um pormenor sem importância. — Mas comida de mãe é sempre mais saudável. Não achas, Joãozinho?
João ficou imóvel, sentado como se estivesse sobre brasas. Sentia a tensão a engrossar entre as duas mulheres e não encontrava uma única frase que não piorasse tudo.
— Mãe, obrigado, mas não era preciso teres vindo de propósito…
— Que disparate! Não me custa nada. Moro aqui perto. Aliás, Ana, reparei que no quarto de banho há um azulejo solto. O João devia tratar disso no fim de semana.
Ana apertou os dedos com tanta força que as unhas quase se lhe cravaram na palma da mão. Maria não tinha vindo apenas trazer comida. Tinha inspecionado a casa inteira.
— Maria, quando é que reparou no azulejo do quarto de banho?
— Ah… bem… passei cá de manhã — respondeu ela, atrapalhando-se por um segundo. — Queria ver como o João estava a dormir. Ontem parecia tão cansado. E, pelo caminho, espreitei o quarto de banho.
— Pelo caminho para onde?
A sogra calou-se, visivelmente desconcertada.
— Ora… isso agora não interessa. O importante é que aquilo precisa de ser arranjado.
Ana levantou-se devagar. A paciência, que já vinha por um fio, rompeu-se de vez.
— Maria, não lhe parece estranho entrar de manhã na casa de outra família e andar a ver todas as divisões?
— Outra família? — indignou-se a sogra. — Esta é a casa do meu filho!
— É a casa do seu filho e da mulher dele! E nós temos direito ao nosso espaço!
— Ana… — murmurou João, tentando travá-la.
Mas Ana já não conseguia recuar.
— Não, João. Basta. Eu calei-me tempo demais. Maria, peço-lhe com toda a clareza: devolva-nos as chaves da nossa casa.
Caiu um silêncio pesado, quase físico. Maria ficou pálida; depois, o rosto dela tingiu-se de vermelho.
— O quê?! Estão a exigir que eu entregue as chaves da casa do meu próprio filho?
— Estou apenas a pedir que respeite os nossos limites. Se quiser vir cá, telefone antes. Isso é normal em qualquer família.
— Em qualquer família, talvez. Na nossa, não! — Maria virou-se bruscamente para o filho. — João! Vais permitir que esta… que esta tua mulher expulse a tua mãe da tua própria casa?
Todos os olhares se prenderam a João. Ele permanecia sentado, de cabeça baixa, sem dizer nada. Aquele era, talvez, o momento mais difícil da sua vida. De um lado estava a mãe, a mulher que o criara sozinha depois do divórcio. Do outro, a esposa que amava, e que, por mais doloroso que fosse admitir, tinha razão.
— Mãe… — começou ele, num tom baixo. — Talvez a Ana não esteja errada. Talvez nós precisemos mesmo de mais… privacidade.
Maria olhou para o filho como se ele acabasse de a ferir.
— Tu… tu estás do lado dela?
— Não estou contra ti, mãe. Nem do lado de ninguém. Só acho que um casal precisa de viver a sua vida de forma independente.
A sogra deixou-se cair numa cadeira. As lágrimas começaram a deslizar-lhe pelo rosto.
— Então já não precisam de mim. Então agora sou uma estranha.
Ana sentiu uma picada de pena. Não queria ver aquela mulher mais velha a chorar. Mas também sabia que, se recuasse naquele instante, tudo voltaria a ser como antes.
— Maria, a senhora não é uma estranha. É a mãe do João. Mas cada pessoa precisa do seu lugar e dos seus limites.
— Que limites? — soluçou a sogra.
