— E por que motivo veio bater à minha porta? Não tem uma filha querida, a quem ofereceu um apartamento inteiro?
Ana permanecia no hall de entrada, de braços cruzados, sem a menor intenção de disfarçar o desagrado. Fitava a sogra sem um vestígio de sorriso. Maria, uma mulher baixa, magra, de lábios apertados e expressão dura, atravessou a soleira e pousou no chão uma mala antiga, aos quadrados. Trazia consigo um cheiro a naftalina misturado com medicamentos. Ao lado dela, João, marido de Ana, mexia-se inquieto, sem saber para onde olhar.
Maria endireitou-se tanto quanto as costas doridas lhe permitiam e encarou a nora com ar ofendido.
— A Catarina agora não pode ocupar-se de mim. Está cheia de obras em casa. E vocês vivem aqui os dois, com duas divisões. Não me digas que não há um cantinho para a mãe do teu marido.
— Um cantinho? — Ana soltou um riso seco. — A senhora deu-lhe o seu T3 na Avenida da República. Então que seja ela a arranjar-lhe esse cantinho. Nós, para sua informação, temos um quarto e uma sala que também serve de cozinha. Onde é que pensa ficar? Numa cama dobrável entre a televisão e o frigorífico?

João pigarreou, constrangido.
— Ana, deixa lá isso. A mãe fica só por uns tempos. Enquanto a Catarina acaba as obras.
— Por uns tempos? — Ana virou-se para ele. — Tu acreditas mesmo nisso? A Catarina pô-la fora assim que os papéis ficaram assinados. Tu sabes perfeitamente como estas coisas começam. Primeiro são as obras, depois aparecem dificuldades, mais tarde arranja um homem a quem uma velha em casa incomoda. E a tua mãe fica aqui. Para sempre.
Maria levou as mãos ao peito, indignada.
— Mas que coração de pedra tu tens! João, diz-lhe alguma coisa! Fui eu que te criei, que passei noites em claro, que te dei tudo o que tinha!
— Tudo o que tinha, deu à Catarina — cortou Ana. — E não foi “tudo o que tinha” em sentido figurado. Foi tudo mesmo. O apartamento inteiro. Quanto a nós, a senhora nunca nos tratou como gente. Afinal, o João é o quê para si? Um filho? Ou apenas um parente decorativo, para aparecer quando dá jeito?
João suspirou. Sentia-se esgotado por aquela discussão antes mesmo de ela ter começado. Doía-lhe por si próprio, doía-lhe por Ana, mas nunca aprendera a contrariar a mãe. Maria sempre soubera apertar-lhe o coração com a palavra “dever”. Já Catarina, a irmã, fora desde cedo a protegida da casa. Tudo lhe era desculpado: as faltas às aulas, o carro do pai que deixou amolgado, os casamentos que se desfizeram mal tinham começado. João crescera calado, obediente. Tirara um curso profissional, começara a trabalhar, comprara aquele apartamento com Ana através de empréstimo. E agora estava ali, encurralado entre duas mulheres, sem coragem para escolher um lado.
— João… — Maria mudou de tom, tornando a voz trémula e queixosa. — A tensão subiu-me no caminho. Ao menos deixa-me sentar um bocadinho.
João pegou na mala e encostou-a à parede do corredor. Ana, porém, não saiu do lugar.
— Pode ir para a cozinha. Faço chá. Mas antes quero ouvir a verdade. Vendeu o apartamento ou ofereceu-o?
Maria descalçou-se, tirou de um saco as pantufas que trouxera e seguiu para a cozinha apoiada no braço do filho. Sentou-se à mesa, juntando as mãos diante de si.
— Fiz uma doação — confessou em voz baixa. — A Catarina jurou-me que eu ficaria no quarto virado para o pátio, o mais sossegado. Disse que ia cuidar de mim. Mas, assim que assinei tudo, mudou a fechadura. Disse que precisava do seu espaço. Que eu atrapalhava a vida dela.
Ana encheu três canecas de chá. Os dedos tremiam-lhe ligeiramente, mas a voz saiu controlada.
— E agora espera que nós a acolhamos depois de uma traição dessas? A senhora nunca nos deu valor nenhum. Nem sequer nos convidou para conhecer a casa quando a Catarina se mudou. Nos aniversários do João, lembra-se dele de seis em seis meses, e só se precisar de alguma coisa.
— Ana — interveio João —, a mãe já está a sofrer bastante.
— Eu também estou a sofrer, João. Sofro quando vejo a tua mãe passar por cima da tua dignidade como se fosse um tapete. Tu trabalhas em dois sítios para pagarmos a prestação ao banco. A tua irmã recebeu um apartamento sem levantar um dedo. E agora a tua mãe senta-se na nossa cozinha a fingir que tudo isto é normal.
Maria apertou ainda mais os lábios.
— O João é homem. Um homem deve sustentar a família. A Catarina é diferente, é sensível, criativa. Para ela, a vida é mais complicada.
— Criativa… — repetiu Ana, com uma amargura que lhe endureceu o rosto. — Nunca trabalhou um dia inteiro na vida. Primeiro viveu às suas custas, agora vai viver na casa que a senhora lhe ofereceu. E nós é que vamos dividir trinta metros quadrados consigo.
João pousou a caneca com força excessiva. O chá saltou para a mesa.
— Basta! A mãe fica. Está decidido.
Ana encarou-o durante alguns segundos, sem pestanejar.
— Decidido por ti? A minha opinião, então, não conta para nada?
— E querias que ela fosse para onde? Para a rua?
— Para casa da pessoa a quem entregou o apartamento. Que vá exigir o quarto prometido. Se no contrato ficou algum direito de uso ou de habitação, ela pode reclamar. Ficou alguma cláusula? Alguma garantia? A morada dela ainda está associada àquela casa?
Maria corou e baixou os olhos.
— Não. A Catarina pediu-me para tratar disso antes. Disse que assim era mais simples para resolver os papéis e pedir apoios.
— Meu Deus… — Ana levou as mãos ao rosto por um instante. — Até isso fez. A senhora pensou em alguma coisa? A Catarina descartou-a como se fosse um móvel velho que já não combinava com a decoração. E agora exige que nós a recolhamos.
João levantou-se da mesa, pálido de tensão.
— Eu não consigo pôr a minha mãe na rua. Mesmo que ela tenha agido mal. É a minha mãe.
— A tua mãe — repetiu Ana, erguendo-se também. Respirou fundo, como quem engole uma resposta pior. — Muito bem. Então fica. Mas escute-me bem, Maria: vou tolerá-la aqui apenas por respeito ao seu filho. Não pense, porém, que vem mandar nesta casa. Este apartamento é meu e do João. Comprámo-lo antes do casamento e continuamos a pagá-lo juntos. A senhora está aqui como convidada. E é como convidada que se vai comportar.
Maria apertou a boca, ferida no orgulho, mas não respondeu. Levantou-se devagar e seguiu para a sala. Ana ficou na cozinha, imóvel, ouvindo o ranger do sofá e o suspiro pesado da sogra enquanto se instalava.
