Pouco depois, João entrou na cozinha. Aproximou-se de Ana em silêncio e pousou-lhe as mãos nos ombros, como quem pede perdão sem encontrar as palavras.
— Obrigado — murmurou ele.
Ana não se virou logo. A voz saiu-lhe baixa, mas firme.
— Não me agradeças. Não estou a fazer isto por ela. Estou a fazê-lo por ti.
Nessa noite, o sono não veio. Ana permaneceu deitada, de olhos abertos, a ouvir a respiração regular do marido. Na cabeça repetiam-se as queixas de Maria, aquele ar submisso, a maneira como se deixara ficar sem discutir. Havia ali qualquer coisa que não batia certo. Maria cedera depressa demais. Aceitara as regras com uma docilidade que não combinava com ela. Uma mulher habituada a dar ordens, a ocupar espaço e a impor a sua vontade, não baixava a cabeça assim sem mais nem menos.
Por fim, Ana afastou o lençol, levantou-se com cuidado e vestiu o robe. No corredor, a luz fraca do candeeiro de presença deixava tudo baço, quase irreal. Junto à mala da sogra estava a carteira dela.
Ana sabia muito bem que mexer nas coisas dos outros era errado. Ainda assim, uma sensação insistente empurrava-a para ali. Abaixou-se devagar, abriu o fecho e começou a procurar. Encontrou uma carteira pequena, lenços, medicamentos, alguns papéis dobrados. Puxou uma folha e desdobrou-a.
Era uma cópia da escritura de doação.
Leu à pressa, linha após linha, até que os olhos lhe pararam num parágrafo. Ficou imóvel.
Na parte destinada às obrigações da pessoa beneficiária, constava que a beneficiária se comprometia a garantir à doadora o direito de habitação vitalícia no imóvel transmitido. Mais abaixo, aparecia a assinatura de Catarina.
Ana virou a página. No verso, escrito à mão, havia uma declaração curta: a doadora renunciava voluntariamente a esse direito, sem qualquer reclamação futura. Por baixo, a assinatura de Maria.
Mas aquela assinatura não parecia normal. As letras estavam tremidas, os traços quebravam-se a meio, como se a mão tivesse sido guiada à força ou como se a mulher assinasse num estado em que já não conseguisse resistir.
Ana engoliu em seco.
Aquilo mudava tudo. Maria não se limitara a oferecer o apartamento à filha. Também assinara uma renúncia ao único direito que a protegia: continuar a viver lá até ao fim da vida. Voluntariamente? Ana duvidava. Catarina fora muito mais calculista do que parecera à primeira vista. E Maria, agora, sabia que não tinha para onde voltar.
Mas por que razão escondera aquele documento do filho? Por vergonha? Por medo? Ou porque ainda havia mais alguma coisa por trás?
Um ruído leve veio da sala. Ana dobrou de novo os papéis, enfiou-os na carteira e voltou para o quarto. João continuava a dormir profundamente. Ela deitou-se ao lado dele e ficou a olhar para o teto, enquanto as ideias se atropelavam. Se Maria ocultava a escritura, era porque se sentia humilhada. Ou então porque preparava alguma manobra. Talvez apenas não quisesse que João percebesse a dimensão da asneira que ela própria cometera.
Mas uma coisa era clara: agora Ana tinha uma peça importante nas mãos. E não tencionava ignorá-la.
No dia seguinte, enquanto João estava no trabalho, decidiu enfrentar a sogra. Maria encontrava-se sentada no sofá, rodeada de fotografias antigas que trouxera consigo. Passava-as uma a uma, como se procurasse nelas uma vida que já lhe escapara.
Ana sentou-se à sua frente.
— Maria, eu vi a escritura de doação.
A sogra sobressaltou-se. Ergueu a cabeça devagar.
— Andaste a mexer nas minhas coisas?
— Andei. E não me arrependo. Está lá escrito que a senhora tinha direito a viver naquele apartamento para o resto da vida. Depois, no verso, aparece uma renúncia assinada por si. Porquê?
O rosto de Maria perdeu cor.
— Isso não te diz respeito.
— Diz, sim. Está a viver na minha casa. Tenho o direito de saber que história entrou pela minha porta. A senhora abriu mão do direito de morar com a sua filha. Porquê? Ela obrigou-a?
Durante algum tempo, Maria não respondeu. Os dedos apertaram uma fotografia até a dobrarem ligeiramente. Depois soltou um suspiro pesado.
— A Catarina disse-me que era só uma formalidade. Que eu ia continuar com ela na mesma. Explicou-me que o papel era necessário para o apartamento ficar “limpo”, caso um dia fosse vendido. Eu acreditei. Assinei. Nunca pensei que ela me enganasse.
Ana fitou-a, incrédula.
— Nunca pensou? Ela é sua filha, mas isso não a torna incapaz de a usar.
A voz de Maria vacilou.
— É o meu sangue. Confiei nela mais do que em mim.
Ana abanou a cabeça, sem conseguir esconder a dureza do olhar.
— E agora? Ia ficar calada? Instalar-se aqui e fingir que está tudo normal?
— E que queres que eu faça? — Maria levantou a voz, finalmente perdendo a compostura. — Que vá para tribunal? Que lhe tire o apartamento? A Catarina não aguenta! Tem empréstimos, tem planos, tem uma vida para organizar!
— E a senhora aguenta? — Ana inclinou-se para a frente. — Ficou sem casa, sem dinheiro, sem uma morada sua. Tem uma reforma miserável, talvez uns cento e tal euros, e pouco mais. Passou a vida a proteger a filha, e ela descartou-a como se fosse um móvel velho. Ainda assim, continua a defendê-la?
Maria tapou o rosto com as mãos. Os ombros estremeceram.
— Eu não sei viver de outra maneira. Sempre achei que ela precisava mais de mim. O João sempre foi forte, sempre se desenrascou. A Catarina era frágil, dependia de ajuda.
Ana levantou-se. A paciência que lhe restava estava a desaparecer.
— Tem noção do que fez ao seu filho? Ele trabalha sem descanso para pagar este apartamento onde a senhora está agora sentada. Enquanto isso, a irmã recebeu tudo, sem esforço, sem mérito, sem nada. E a senhora ainda encontra desculpas para ela.
Maria não respondeu. Virou apenas o rosto para a janela, encerrando a conversa antes que ela pudesse continuar. Ana percebeu que dali não sairia mais nada. Pegou no telemóvel e foi para a cozinha.
Marcou o número de Catarina. Um toque. Depois outro. Ao terceiro, atenderam.
— Estou? — veio uma voz seca, impaciente.
— Catarina, é a Ana. A tua mãe está cá em casa. E nós precisamos de conversar.
— Conversar sobre o quê? — O tom da cunhada tornou-se gelado. — Sobre ela não ter sido capaz de cumprir uma coisa simples? Dei-lhe um apartamento, fiz obras, deixei tudo pronto, e ela é que não quis viver comigo.
Ana soltou uma gargalhada curta, sem humor.
— Ela é que não quis? Mudaste as fechaduras. Fizeste a tua mãe assinar uma renúncia ao direito de habitação. Puseste-a na rua.
— Isso é assunto da nossa família. Não te metas.
— Já me meti. E sabes uma coisa? A tua mãe pode levar isto para tribunal. Pode tentar anular a doação, se provar que assinou enganada. E há documentos que ajudam a provar isso.
Do outro lado, instalou-se um silêncio denso. Depois, Catarina riu-se.
— Que tente. Ela nunca se vai virar contra mim. Sou filha dela. Ela ama-me.
— Veremos — respondeu Ana.
E desligou.
Ao fim da tarde, João voltou do trabalho.
