Vinha exausto, com o rosto abatido e sombras fundas por baixo dos olhos. Ana esperou-o no corredor de entrada e segurou-lhe a mão antes que ele pudesse sequer tirar o casaco.
— Temos de falar a sério. Mas não à frente da tua mãe.
Saíram para o patamar. Ana fechou a porta atrás de si.
— João, a tua mãe não fez apenas uma doação da casa. Ela assinou também a renúncia ao direito de lá viver até ao fim da vida. A Catarina enganou-a em tudo. E agora há base para avançarmos para tribunal.
João encostou-se à parede, vencido pelo cansaço.
— Tribunal? A minha mãe nunca aceitará isso. Ela protege a Catarina como se fosse de cristal.
— E tu? Estás disposto a viver enfiado num quarto com a tua mãe e, ao mesmo tempo, continuar a pagar uma hipoteca por dois? Achas justo a tua irmã ficar confortável à tua custa?
Ele não respondeu.
— Eu não quero entrar numa guerra com a minha irmã — murmurou por fim. — Somos família.
— Família? — repetiu Ana, amarga. — A tua mãe veio parar à nossa casa porque a tua irmã a pôs na rua assim que ficou com a escritura na mão. Isso não é família, João. Isso é uma predadora que devorou a própria mãe. E, se nós ficarmos calados, um dia ela também virá atrás de nós.
João continuava a olhar para o chão. Ana percebeu o peso que aquilo lhe fazia no peito e aproximou-se.
— Não te estou a pedir vingança. Estou a pedir justiça. Foste tu que disseste que te tiraram a herança. O teu pai deixou aquela casa para os dois. A parte que te cabia devia estar contigo.
Ele ergueu finalmente a cabeça.
— Eu sei. Mas a mãe…
— A tua mãe confunde amor com sacrifício. Pela Catarina, aceita ser humilhada. Por ti, nem sequer consegue admitir que merecias mais.
João apertou os punhos.
— Então o que queres fazer?
— Quero que falemos com uma advogada. Só isso, para começar. Que nos diga se há alguma hipótese. Se der para recuperar uma parte do dinheiro, ou uma quota da casa, temos obrigação de tentar. Caso contrário, vamos continuar presos neste aperto, a engolir ressentimento dia após dia.
Depois de um longo silêncio, João assentiu.
— Está bem. Amanhã vamos.
Na manhã seguinte, estavam sentados no escritório de uma advogada. Era uma mulher de cerca de cinquenta anos, cabelo grisalho apanhado num carrapito, olhar atento e mãos firmes. Examinou a cópia do contrato durante vários minutos antes de falar.
— Do ponto de vista formal, o negócio foi feito dentro das regras — explicou. — Mas há aqui uma questão importante. Se a sua mãe declarar que assinou essa renúncia por erro, pressão ou engano, podemos intentar uma ação para tentar anular o contrato. Agora, convém terem noção de uma coisa: estes processos raramente são simples. Os tribunais não anulam doações de ânimo leve. Teremos de demonstrar que a filha prometeu cuidados e apoio, que depois não os prestou, e que a doadora não compreendeu as consequências do que estava a assinar.
— Temos provas — disse Ana. — Mensagens em que a Catarina a ameaça caso ela não assine. E há vizinhos que viram a Maria sair de lá à pressa, quase sem levar nada.
A advogada anuiu.
— Então começaremos por uma interpelação extrajudicial. Enviamos à sua irmã uma exigência formal: ou devolve o imóvel, ou paga uma compensação. Se recusar, avançamos com a ação.
Quando Maria soube dos planos do filho e da nora, perdeu completamente o controlo.
— Vocês querem meter a Catarina na prisão? — gritava, de mãos a tremer. — Querem tirar-lhe o pouco que ela tem! Ela é minha filha! Prefiro morrer a ir contra ela em tribunal!
— Ninguém falou em prender ninguém — respondeu Ana, com uma calma dura. — Estamos a falar da restituição de um bem. Ou de uma indemnização. A senhora assinou uma renúncia, sim, mas nem leu o que estava no papel. A Catarina aproveitou-se da sua confiança.
— Não te atrevas a falar assim da minha filha!
João colocou-se entre a mãe e a mulher.
— Mãe, chega. Eu também sou teu filho. Também tenho direito ao que o pai deixou. Tu tiraste-me esse direito em silêncio. Entregaste tudo à Catarina, como se eu não existisse. E agora ainda queres que eu continue calado?
Maria começou a chorar.
— Tu és homem, tens de ser forte. A Catarina sozinha não se aguenta.
— Ela não está sozinha — cortou Ana. — Tem amantes, amigas, créditos e uma casa nova. O João tem-me a mim e uma hipoteca. E eu não vou deixar que a tua filha continue montada às costas dele.
A discussão alastrou pela casa como fogo em palha seca. A sogra ameaçou ir embora, mas não tinha para onde ir. Ana, apesar dos gritos e das lágrimas, insistiu para que a advogada enviasse a interpelação. Quando recebeu a carta, Catarina telefonou ao irmão.
— Tu enlouqueceste? — guinchou ela do outro lado da linha. — Queres roubar-me a casa? Eu sou tua irmã! Somos do mesmo sangue!
— Tu puseste a mãe fora — respondeu João, com a voz fria. — Fizeste-a assinar uma renúncia através de engano. Nem uma vez perguntaste como ela estava a viver. Que espécie de irmã és tu?
— Eu não vou entregar casa nenhuma. Vendo-a antes. E vocês não recebem um cêntimo.
Ana arrancou-lhe o telemóvel da mão.
— Se venderes, complicas ainda mais a tua situação. Já apresentámos queixa na polícia por burla. Temos testemunhas. E também sabemos que falsificaste a assinatura da tua mãe na renúncia. Uma perícia vai confirmar isso.
Do outro lado, caiu um silêncio pesado. Logo a seguir, a chamada foi desligada.
Alguns dias depois, Catarina apareceu à porta do prédio. Não trazia o ar luxuoso de sempre. O casaco caro dera lugar a um blusão acolchoado, e o rosto, antes impecável, parecia gasto e sem brilho.
— Quero falar com a minha mãe — declarou.
Ana ficou firme à entrada.
— Ela não quer ver-te.
— Deixa-me passar. Tenho esse direito.
— Perdeste esse direito no dia em que a atiraste para fora de casa.
Catarina tentou empurrá-la, mas Ana segurou a porta com força. Nesse instante, João saiu do elevador.
— O que se passa aqui?
— A tua irmã veio armar escândalo — respondeu Ana.
João aproximou-se de Catarina.
— Vai-te embora. Antes que seja eu a pôr-te na rua.
Catarina agarrou-lhe a manga.
— João, perdoa-me! Eu errei, está bem? Eu trago a mãe de volta para minha casa! Só queria resolver os meus problemas!
— Agora é tarde — disse ele. — Enganaste a mãe. Enganaste-me a mim. E eu não vou continuar a fingir que temos uma família normal.
Catarina desatou a chorar.
