— Acabou, mãe. Ela assinou. A casa e o carro ficaram para mim. Os empréstimos ficaram com ela.
João Silva falava ao telemóvel junto às portas da sala de audiências, sem se preocupar em baixar a voz.
Ana Ferreira estava a poucos passos, apertando contra o peito a pasta dos documentos. Quando João se voltou e a viu, abriu um sorriso trocista.
— Ainda aí estás? Vai, anda. Agora tens de trabalhar, não é? Há prestações para pagar.
Ana não lhe respondeu. Limitou-se a virar costas e a seguir pelo corredor, sem olhar para trás. João acompanhou-a com os olhos e voltou à chamada:

— Não, mãe, ela nem tentou discutir. Eu disse-te que ia ser tudo à minha maneira.
Ao sair do tribunal, Ana chamou um táxi e pediu que a levassem ao café Mundo Saboroso. Pedro Costa, o notário, já a aguardava junto à janela.
— Conseguiu — disse ele, sem cumprimentos, estendendo-lhe um envelope lacrado. — Isto é do seu pai. Entregou-mo pouco antes de morrer, há três anos. Pediu que só lho desse depois do divórcio.
Ana segurou o envelope, mas não o abriu.
— Ele sabia que isto ia acontecer?
— Sabia. E deixou-lhe tudo. A rede de padarias Pão com Alegria: dezassete lojas. A senhora é proprietária há seis meses, mas ele insistiu para que eu esperasse por este dia.
Pedro Costa tirou então outra pasta, grossa, presa com um elástico.
— E aqui está o processo. Sobre o seu ex-marido e sobre a mãe dele. O seu pai juntou este material durante dois anos. Está lá tudo. Leia com calma, em casa, e depois decida o próximo passo.
Ana guardou o envelope e a pasta na mala, agradeceu com um aceno e saiu sem terminar o café.
Já em casa, abriu a carta do pai. A letra dele continuava firme, direita, tão familiar que lhe trouxe lágrimas aos olhos.
“Minha Ana, se estás a ler isto, é porque finalmente és livre. Perdoa-me por ter ficado calado. João e a mãe dele chantagearam-me com uma antiga questão fiscal. Ameaçaram denunciar-me se eu tentasse avisar-te. Mas não fiquei parado. Dentro da pasta tens tudo de que precisas. Não perdoes. Vive.”
Ana abriu o dossier. Havia extratos bancários, fotografias de João com Beatriz Pereira, cópias de mensagens, transferências feitas dos cartões de crédito dela para as contas da empresa dele e, de lá, para a conta de Beatriz. Rendas de apartamento. Presentes. Viagens.
Durante muito tempo, Ana ficou a olhar para aqueles números e aquelas imagens. Depois pegou no telemóvel.
— Maria? É a Ana Ferreira. Lembras-te de me teres dito que podias ajudar-me com os créditos? Preciso de uma reunião. Amanhã. Sim, é urgente.
Maria, consultora de crédito de mãos rápidas e rosto cansado, espalhou várias folhas sobre a mesa no dia seguinte.
— Olha bem. Cada empréstimo que fizeste foi parar às contas da firma do teu marido. Depois, o dinheiro seguiu para Beatriz. Isto não são dívidas tuas, Ana. São despesas dele feitas à tua custa. Podes avançar para tribunal. A lei está do teu lado. Quando um dos cônjuges contrai dívidas ou usa dinheiro para fins pessoais sem consentimento do outro, há fundamento para exigir restituição.
Ana tirou da mala a pasta deixada pelo pai e pousou-a diante dela.
— Tenho provas.
Maria abriu-a, folheou algumas páginas e soltou um assobio baixo.
— Então, juridicamente falando, ele está acabado.
Dez dias depois, João recebeu a notificação judicial. Estava sentado no seu todo-o-terreno, parado à porta do prédio de Beatriz, e ao princípio nem percebeu o que tinha nas mãos.
— Que restituição é esta? Nós já tínhamos resolvido tudo. Ela assinou!
Do outro lado, a voz do agente de execução manteve-se fria e sem qualquer emoção.
