— O acordo amigável não o isenta da responsabilidade por utilização indevida dos valores. A sua comparência é obrigatória.
João atirou o telemóvel para o banco do carro e, de mãos a tremer, marcou o número da mãe.
— Mãe, ela avançou contra mim. Quer que eu devolva todos os empréstimos. Diz que fui eu que gastei o dinheiro.
Helena soltou o ar com tanta violência que ele ouviu do outro lado da linha.
— Isso é impossível. Ela não tem dinheiro para advogados. É contabilista, João. Ela não tem força para nada disso.
— Tem, mãe. Tem provas. Transferências, fotografias, tudo.
— Então aperta com ela. Diz-lhe que sabia de tudo, que eram despesas do casal.
— Não vamos conseguir — murmurou ele, apertando o volante até os nós dos dedos ficarem brancos. — Ela preparou tudo.
No dia seguinte, Helena telefonou a Ana. A voz vinha tensa, mas ainda carregada daquela superioridade antiga.
— Ana, sou eu. Precisamos de falar. Tu não percebes o que estás a fazer. O João é meu filho, e eu não vou deixar que o destruas.
Ana ligou o altifalante e fez um sinal a Maria, sentada à sua frente. Maria tirou de imediato o gravador da mala.
— Helena, pode falar. Estou a ouvi-la. E a gravar.
Do outro lado houve uma pausa curta. Mas Helena não recuou.
— Julgas-te muito esperta? Pensas que consegues assustar-nos? Havemos de encontrar maneira de te travar, como travámos o teu pai.
Ana deixou escapar um riso seco.
— Refere-se à chantagem com as Finanças? Tenho a carta dele. Ele contou tudo por escrito. Quer que eu entregue isso à polícia juntamente com esta chamada?
Fez-se silêncio. Depois, ouviu-se apenas o som breve da chamada desligada.
Maria parou a gravação e olhou para Ana.
— Ela não volta a ligar.
— Eu sei.
Beatriz Pereira soube do processo pela boca de João. Ele apareceu-lhe em casa ao fim da tarde, com uma garrafa de aguardente na mão e o rosto desfeito.
— Vou ter de vender tudo. A casa, o carro… O agente de execução arrestou os bens. A Ana vai ganhar. Eu sei que vai.
Beatriz estava junto à janela e nem sequer se virou.
— João, eu não vou discutir isto. Disseste-me que tinhas dinheiro. Que o apartamento era teu. Que íamos viver bem. E agora apareces falido.
Ele tentou aproximar-se, mas ela deu um passo para trás.
— Vai-te embora. Eu preciso de um homem que garanta uma vida, não de alguém enterrado em tribunais. Sai, João.
Ele ficou parado no meio daquela sala que já lhe parecia estranha, incapaz de aceitar a rapidez com que tudo se desmoronava. Beatriz abriu a porta.
— Vai. E não me ligues mais.
O julgamento arrastou-se durante dois meses. João justificava-se como podia, repetia que o dinheiro tinha sido usado para a família, que Ana sabia de tudo, que nada fora escondido. Mas não apresentou uma única prova sólida. Do lado de Ana havia extratos bancários, fotografias, mensagens e testemunhos.
A juíza, uma mulher de idade, com olhos cansados e voz sem enfeites, leu a decisão em poucas palavras:
— Condeno João Silva ao pagamento integral da dívida. Os bens ficam arrestados até à liquidação do montante em falta.
João agarrou-se à beira da mesa. Helena empalideceu e levou a mão à boca, como se aquele gesto pudesse impedir a sentença de existir.
Uma semana depois, a polícia abriu inquérito por burla. Descobriu-se que João falsificara assinaturas de Ana em contratos de crédito. A perícia confirmou a falsificação. Recebeu quatro anos de pena suspensa. O património foi inventariado. O agente de execução levou as chaves do apartamento e do carro.
Afinal, aquele era o seu tão anunciado “divórcio do século”: perder, de uma só vez, os bens, o controlo da própria vida e a ilusão de impunidade.
Helena saiu do apartamento e mudou-se para casa da irmã, nos arredores de Lisboa. A receção foi gelada.
— Ficas aqui calada. Sem visitas, sem exigências e sem dramas. Está entendido?
João arranjou trabalho como segurança num parque de estacionamento.
