— Vendemos o apartamento e assunto encerrado! — anunciou a minha sogra ao pequeno-almoço, como se lhe bastasse uma frase para decidir o destino da casa que eu herdara da minha avó.
— Vendem este apartamento, ponto final — repetiu Maria, pousando a chávena no pires com tanta força que as portas envidraçadas do armário estremeceram. — Não faz sentido nenhum continuarem os dois apertados num T2 quando podem comprar um T3 decente, num prédio novo.
Ana ficou imóvel, com a colher suspensa a meio caminho da boca. De repente, a pequena cozinha transformou-se num campo minado. Olhou para o marido, à espera de apoio, mas João limitava-se a barrar manteiga no pão, muito concentrado nessa tarefa e a evitar, com cuidado, cruzar o olhar com ela.
Maria prosseguiu, como se não reparasse — ou como se escolhesse não reparar — na tensão que acabara de instalar-se:
— Já falei com a mediadora. Vem cá amanhã avaliar a casa. Depois arranja-se comprador depressa. A zona é boa, há transportes perto, isto vende-se num instante.

— Espere lá um segundo — disse finalmente Ana, pousando a colher. — Que apartamento é que vai ser vendido? De que é que a senhora está a falar?
A sogra fitou-a com uma expressão de espanto teatral, quase como se Ana não tivesse entendido uma coisa óbvia.
— O vosso, naturalmente. Este. O que a tua avó te deixou. Qual é a lógica de viverem neste prédio velho e gasto se podem mudar-se para uma construção nova?
Ana sentiu a raiva subir-lhe pelo peito, quente e rápida. Aquele apartamento, deixado pela avó três anos antes, era o único bem verdadeiramente seu. Pequeno, sim, mas acolhedor: duas assoalhadas num edifício antigo, de tetos altos e paredes grossas, cheio de uma solidez que ela adorava. Cada canto lhe era querido.
— Maria, este apartamento é meu. E eu não tenho qualquer intenção de o vender.
— Teu? Como assim, teu? — indignou-se a sogra, levando a mão ao peito como se tivesse sido ofendida. — Vocês são uma família! O que é teu também é do João. E o que é do João pertence à família. Não é verdade, meu filho?
Só então João levantou os olhos do prato.
— Mãe, se calhar falamos disso mais tarde…
— Mais tarde porquê? — cortou Maria, aumentando o tom de voz. — Já tratei de tudo! A mediadora vem amanhã às dez. E não me olhes dessa maneira, Ana. Eu só quero o vosso bem. Nos prédios novos, as plantas são modernas e nem precisam de obras.
— E quem vai pagar esse apartamento novo? — perguntou Ana, esforçando-se por manter a voz firme.
— Quem havia de ser? Vendem este, juntam mais algum dinheiro e compram outro. Eu fiz as contas. Se pedirem mais uns trinta mil euros ao banco, conseguem um excelente T3. E ainda por cima estão a construir mesmo perto de nós. Ficamos vizinhos!
Vizinhos. Um arrepio percorreu as costas de Ana. Maria já aparecia lá em casa dia sim, dia não, usando a chave que João lhe dera “por segurança”. Se passassem a morar em prédios ao lado…
— Eu não vou contrair empréstimo nenhum — declarou Ana, sem hesitar. — E também não vou vender a casa. É uma recordação da minha avó.
— Recordação! — soltou Maria, com desdém. — Dinheiro bem aplicado é a melhor recordação que alguém pode ter. João, porque é que estás calado? Explica à tua mulher que eu tenho razão.
João hesitou. Depois, falou num tom inseguro:
— Ana, talvez a minha mãe não esteja totalmente errada. O prédio é antigo, a casa mais cedo ou mais tarde vai precisar de obras…
— Fizemos obras há um ano! — explodiu Ana. — E paguei-as eu, já agora!
— Lá estás tu outra vez com o dinheiro! — atirou Maria, venenosa. — Sempre a esfregar o teu dinheiro na cara dos outros! E não conta o facto de o meu filho te ter recebido como mulher e te sustentar?
— Sustentar-me? — Ana quase não acreditou no que ouvira. — Eu ganho o dobro do João!
O silêncio caiu sobre a cozinha como uma tampa pesada. João ficou vermelho. Maria apertou os lábios até quase desaparecerem.
— Precisamente por isso precisam de uma casa maior — disse ela, depois de uma pausa. — Para terem filhos. Mas tu só pensas em carreira, carreira, carreira… Tens trinta anos e ainda nem me deste um neto.
Aquele era o assunto proibido. Ana e João tentavam ter um bebé havia dois anos, sem sucesso. Cada referência a isso era como sal numa ferida aberta.
— Mãe, chega — disse João, de repente, com uma firmeza inesperada.
— Chega? Chega de quê? De eu dizer a verdade? — Maria levantou-se num sobressalto. — Só quero o melhor para vocês! Mas vocês… Enfim. Amanhã vem a Catarina e ela há de explicar tudo como deve ser. É uma mulher sensata, ao contrário de certas pessoas.
Saiu da cozinha com passos ostensivos, fazendo questão de marcar cada movimento. Um minuto depois, a porta da entrada bateu com estrondo.
Ana e João permaneceram sentados, calados. Foi ela quem acabou por quebrar o silêncio:
— Tu sabias?
— Sabia o quê?
— Que ela queria vender o meu apartamento. Sabias?
João desviou o olhar.
— Ela comentou qualquer coisa… Mas pensei que fosse só conversa.
— E não a travaste?
— Ana, tu conheces a minha mãe. Quando ela mete uma ideia na cabeça…
— Esta casa é minha, João! É a única coisa que é realmente minha!
— Não faças drama. Ninguém te pode obrigar a vender se não quiseres.
Mas Ana sabia muito bem com quem estava a lidar.
