“Maria, este apartamento é meu. E eu não tenho qualquer intenção de o vender” — disse Ana, furiosa, recusando-se a ceder à sogra

Histórias
Decisão egoísta e injusta ameaça memórias sagradas.

Maria não era mulher para recuar. Quando queria alguma coisa, apertava, insinuava, chorava, fazia cenas — e continuava até conseguir. Sempre tinha sido assim.

Na manhã seguinte, exatamente às dez, a campainha tocou com uma insistência agressiva. Ana pedira o dia de folga de propósito, preparada para receber as visitas que ninguém tinha convidado. João saíra para o trabalho, deixando-lhe, antes de fechar a porta, um olhar carregado de culpa.

Do outro lado estava Maria. Ao lado dela, uma mulher elegante, na casa dos quarenta, segurava uma pasta.

— Bom dia! Sou a Catarina, da imobiliária Novo Lar — apresentou-se a desconhecida, com um sorriso profissional. — A dona Maria disse-me que pretendiam avaliar o apartamento para uma possível venda.

— Não pretendemos — respondeu Ana, sem levantar a voz. — Houve um engano. Eu não autorizei nada.

Maria empurrou a agente para dentro do hall, como se a casa lhe pertencesse.

— Não lhe ligue. Veja só as divisões e diga-nos por alto quanto isto pode valer.

Ana colocou-se à frente das duas, firme.

— Peço desculpa, mas ninguém vai inspecionar a minha propriedade sem a minha autorização.

Catarina ficou embaraçada, sem saber para onde olhar.

— Nesse caso, o melhor é eu ir andando. Quando tomarem uma decisão, contactem-me.

— Espere lá! — Maria agarrou-a pelo braço. — A senhora vê perfeitamente que isto é antigo e precisa de obras. Diga ao menos um valor aproximado!

A agente libertou-se com delicadeza, mas com firmeza.

— Dona Maria, sem o consentimento da proprietária, não posso fazer absolutamente nada.

E saiu quase a fugir.

Assim que a porta se fechou, Maria virou-se para Ana. Trazia no rosto aquela expressão de indignação virtuosa que usava sempre que queria parecer vítima.

— Mas quem é que tu pensas que és? Eu estou a tentar ajudar-vos!

— Ajudar-nos? Ou pôr-nos a viver ao vosso lado para poder controlar cada passo nosso?

— Como te atreves a falar comigo dessa maneira? Eu sou mãe! Tenho o direito de saber como vive o meu filho!

— O seu filho é um homem adulto. Tem mulher. Tem uma vida própria.

— Vida própria! — repetiu Maria, com desprezo. — Vamos ver que vida vais ter quando o João souber a verdade.

Ana franziu o sobrolho.

— Que verdade?

Maria tirou o telemóvel da mala e abanou-o diante do rosto dela.

— A verdade sobre ontem. Disseste que ias tomar café com uma amiga, mas afinal estavas com um homem. E há fotografias.

Ana ficou gelada. No dia anterior, de facto, tivera uma reunião — com um potencial investidor para o seu projeto. Um encontro de trabalho, no café de um hotel.

— Era um parceiro de negócios.

— Claro, claro — sibilou Maria, triunfante. — Todas dizem isso. Quero ver o que o João vai achar.

E, sem esperar resposta, ligou ao filho.

— João? Vem já para casa. Há aqui uma coisa… Não, não vou dizer por telefone. É sobre a tua mulher.

Ana permaneceu imóvel, sem acreditar. Seria possível que a sogra fosse capaz de a manchar aos olhos do próprio filho só para vencer?

Quarenta minutos depois, João entrou apressado, pálido e tenso.

— O que aconteceu? A mãe disse que era urgente…

Maria lançou-se-lhe ao pescoço.

— Meu filho, custa-me tanto… mas tens de saber.

Estendeu-lhe o telemóvel. Nas imagens via-se Ana sentada à mesa com um homem de fato, ambos envolvidos numa conversa animada.

João olhou, ficou em silêncio por alguns segundos e depois perguntou:

— E então?

Maria arregalou os olhos.

— Como assim, “e então”? A tua mulher anda a encontrar-se com outro homem!

— Mãe, isto é o restaurante de um hotel. Parece claramente uma reunião profissional.

Maria vacilou.

— Mas… ela disse que ia com uma amiga…

— Eu disse que tinha uma reunião — interrompeu Ana. — Foste tu que não ouviste quando expliquei que ia falar com um investidor.

João virou-se para a mãe.

— A mãe andou a seguir a Ana?

— Passei ali por acaso…

— Por acaso? E tirou fotografias também por acaso? Mãe, isto passou todos os limites.

— Limites? — A voz de Maria tremeu. — Eu preocupo-me convosco! E vocês… Sabes que mais? Vivam como quiserem! Fiquem neste apartamento velho! Sem mim!

Saiu furiosa, batendo a porta com tanta força que as paredes pareceram estremecer.

João deixou-se cair numa cadeira, exausto.

— Desculpa. Eu não pensei que ela chegasse a este ponto.

— A que ponto achavas que ela chegava? — perguntou Ana, cansada. — Ela faz isto desde sempre. Manipula, vigia, decide, mete-se na nossa vida.

— É a minha mãe…

— E eu sou a tua mulher. Estou farta de ficar sempre em segundo lugar.

Nessa noite, Maria telefonou. João ouviu-a durante muito tempo, quase sem falar. Por fim, disse apenas:

— Mãe, não vamos vender o apartamento. A decisão é da Ana, e eu estou do lado dela.

Do outro lado ouviu-se um grito histérico, seguido do som seco da chamada desligada.

— Disse que deixei de ser filho dela — murmurou João.

— Ela diz isso sempre que não consegue o que quer.

— Eu sei. Mas mesmo assim custa.

Os dias seguintes decorreram numa calma estranha. Maria não apareceu, não telefonou, não enviou mensagens. Ana começou, devagar, a respirar melhor. Mas, ao quarto dia, a campainha voltou a tocar.

À porta estava uma senhora de idade que Ana nunca tinha visto, segurando uma pasta de documentos.

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