— O meu filho contou-me que compraste um T3 no centro. Pois fica a saber: nesse apartamento vou viver eu, e mais ninguém! — declarou a sogra.
Ana saiu do escritório e caminhou até ao carro. O dia de trabalho tinha sido daqueles que sugavam todas as forças: três reuniões com clientes, uma pilha interminável de documentos e chamadas que pareciam não acabar. Há cinco anos exercia advocacia numa grande empresa e, por muito cansativo que fosse, já se habituara àquele ritmo.
Desde nova que Ana tinha uma vontade firme. Ainda na universidade arranjara trabalhos em part-time, porque detestava depender dos pais. Carlos e Isabel, donos de uma cadeia de lojas de materiais de construção, poderiam ter-lhe garantido uma vida tranquila e sem preocupações. Mas Ana queria conquistar tudo por mérito próprio.
Três anos antes, casara-se com João, programador numa empresa de informática. Conheceram-se numa festa de trabalho de amigos comuns, e ele agradou-lhe logo: tinha um sorriso sereno e sabia ouvir sem interromper. Só mais tarde Ana percebeu que aquela paciência dele se estendia a toda a gente — sobretudo à mãe, Teresa. No início da relação, porém, esse detalhe passou-lhe despercebido.
Depois do casamento, arrendaram um apartamento de dois quartos nos arredores. Não era mau, mas Ana sonhava com uma casa sua. Desde os primeiros salários, começara a poupar com disciplina: todos os meses punha de lado um terço do que ganhava para a entrada de um futuro apartamento. João também juntava algum dinheiro, embora muito menos. Justificava-se dizendo que ajudava a mãe e o irmão mais novo, Miguel.

Ao fim de três anos, Ana tinha conseguido reunir cerca de vinte mil euros. João, por sua vez, juntara apenas cinco mil. Ela nunca lhe atirou isso à cara; compreendia que cada pessoa tivesse prioridades diferentes. Mas, quando começou a falar mais a sério sobre a compra de casa, Carlos surpreendeu-a com uma proposta inesperada.
— Ana, a tua mãe e eu conversámos e decidimos oferecer-te trinta mil euros para o apartamento — disse o pai, durante o almoço de domingo. — És a nossa única filha. Queremos que vivas com dignidade. Na tua idade, continuar em casas alugadas não faz sentido.
Ana abraçou os pais com força e nem tentou esconder as lágrimas de gratidão. Com aquele apoio, já era possível procurar algo realmente bom.
A busca prolongou-se por um mês. Ana analisou dezenas de anúncios, visitou prédios em vários pontos da cidade e atravessou metade de Lisboa até encontrar a opção ideal: um T3 num edifício recente, mesmo no coração da cidade, com oitenta metros quadrados, muita luz e uma distribuição excelente. Custava noventa mil euros. O valor que faltava podia ser coberto por um crédito habitação em condições favoráveis.
— João, olha para isto, não é maravilhoso? — disse Ana, mostrando-lhe as fotografias no telemóvel. — Três quartos, uma cozinha grande ligada à sala, duas casas de banho! Consegues imaginar?
João pegou no telemóvel e passou as imagens uma a uma. Depois assentiu.
— É ótimo. Mas… em nome de quem vai ficar o apartamento?
Ana calou-se por instantes. Já tinha previsto aquela pergunta e refletira muito antes de tomar uma decisão.
— João, eu gostava que ficasse em meu nome. Entende… o dinheiro veio dos meus pais. É um presente deles para mim, pessoalmente. Quero que a casa seja minha, pelo menos no papel. Por segurança.
O rosto dele fechou-se.
— Então eu vou morar no teu apartamento? Como se fosse um inquilino?
— Não digas disparates. És o meu marido, esta será a nossa casa. Só que, legalmente, a proprietária serei eu. João, acredita, é o mais sensato.
João suspirou e acabou por concordar, embora a expressão deixasse claro que a decisão não lhe agradava. Ainda assim, não discutiu — nunca gostou de conflitos.
