A escritura ficou resolvida sem grandes demoras. Passadas duas semanas, Ana tinha finalmente nas mãos as chaves do apartamento que, no registo, era seu. Entrou nas divisões ainda vazias quase sem acreditar, rodopiando devagar, já a imaginar a casa pronta: o sítio certo para o sofá, o tom dos azulejos da casa de banho, a parede onde ficaria perfeito um espelho grande. João observava-a com um sorriso enternecido e, de fita métrica na mão, ia medindo os cantos e as paredes sempre que ela lhe pedia.
— Acho que devíamos ligar aos meus pais e agradecer outra vez — disse Ana, sentando-se no parapeito da janela. — Sem eles, ainda íamos passar mais dez anos a juntar dinheiro.
— Claro — concordou João. Depois tirou o telemóvel do bolso. — E também vou contar à minha mãe.
Ana ergueu logo o olhar, desconfiada.
— Para quê?
— Como assim, para quê? É a minha mãe. Quero partilhar a notícia com ela.
Ana chegou a abrir a boca para o impedir, mas conteve-se. João já estava a marcar o número.
— Olá, mãe! Olha, temos uma novidade… Comprámos casa! Sim, um apartamento de três assoalhadas no centro, oitenta metros quadrados… Sim, construção nova… Pois, ficou em nome da Ana, porque foram os pais dela que deram a maior parte do dinheiro… Não, mãe, eu percebo… Foi assim que decidimos…
Enquanto o ouvia falar, Ana sentiu um aperto crescer-lhe no peito. Teresa nunca fora uma mulher fácil. Metia-se em tudo, opinava sem ser chamada, dava conselhos como se fossem ordens e, acima de tudo, vivia convencida de que o filho lhe devia obediência eterna. Ana fazia o possível para manter uma distância saudável da sogra, mas nem sempre conseguia.
Quando desligou, João guardou o telefone e anunciou:
— A minha mãe quer vir conhecer o apartamento. Convidei-a para a semana.
— Que maravilha — respondeu Ana, seca, sem conseguir disfarçar a falta de entusiasmo.
Os dias seguintes passaram a correr. Ana e João escolheram mobília, combinaram com uma pequena equipa algumas obras de melhoria e começaram a imaginar a mudança. No apartamento já havia um frigorífico novo em folha e uma mesinha simples com duas cadeiras, o suficiente para se sentarem ali e fazerem planos. Na sexta-feira à noite, João lembrou a mulher de que Teresa apareceria no dia seguinte.
— Tenta ser um bocadinho mais simpática com ela, está bem? — pediu ele, com cautela. — Eu sei que vocês não se entendem muito bem, mas ela continua a ser minha mãe.
— Eu sou sempre educada — respondeu Ana de imediato.
Na manhã de sábado, a campainha tocou. Ana foi abrir a porta e ficou imóvel. Do outro lado estava Teresa, com duas malas enormes nas mãos e uma terceira pousada junto aos pés.
— Bom dia, Ana — disse a sogra, com um sorriso apertado. — Ajuda-me lá a levar isto para dentro.
Sem perceber bem o que se passava, Ana pegou numa das malas quase por reflexo e afastou-se para a deixar entrar. Teresa atravessou a porta, parou no meio do corredor e percorreu o apartamento com um olhar avaliador, como se estivesse a inspecionar uma propriedade sua.
— Bem… não está mau — comentou. — Eu teria escolhido outra disposição, claro, mas serve.
João saiu da casa de banho nesse instante, ainda a secar as mãos numa toalha.
— Olá, mãe! Correu bem a viagem?
— Correu, meu querido. Trouxe algumas coisas.
Ana pousou a mala no chão e franziu o sobrolho.
— Que coisas?
Teresa endireitou as costas, cruzou os braços sobre o peito e fixou Ana com uma segurança desconcertante.
— O meu filho disse-me que compraste um apartamento de três assoalhadas no centro. Pois bem, quem vai viver aqui sou eu.
Ana pestanejou várias vezes, convencida de que tinha ouvido mal.
— Como disse?
— Vou mudar-me para cá — declarou Teresa, com a maior naturalidade. — O Miguel casa-se daqui a seis meses, e o meu apartamento fica para ele e para a noiva. Eu preciso de um sítio onde morar. E este é perfeito: central, espaçoso, com três divisões. Para mim, chega e sobra.
Ana sentiu o sangue subir-lhe ao rosto, mal conseguindo conter a raiva.
