“Pois fica a saber: nesse apartamento vou viver eu, e mais ninguém!” declarou a sogra, deixando Ana sem palavras

Histórias
Injusto e repugnante: usurpação de sonhos conquistados.

Tinha o rosto contorcido pela fúria, quase irreconhecível.

— Muito bem. Se é assim que querem… então amaldiçoo-vos aos dois! Nesta casa, não hão de ter um único dia de paz. Vão viver aqui como no inferno! Eu ainda me vingo, vão ver!

Assim que Teresa passou para o patamar, Ana fechou a porta com força. O som ecoou pelo apartamento e, durante alguns segundos, pareceu-lhe que até as paredes tinham estremecido. Encostou-se depois à parede, fechou os olhos e soltou o ar devagar, como se só naquele instante tivesse voltado a respirar. As mãos tremiam-lhe, e o coração batia-lhe tão depressa que lhe zuniam os ouvidos.

João estava sentado no chão, de cabeça baixa, com o rosto escondido entre as mãos.

— Porque é que foste tão dura com ela? — murmurou ele. — É a minha mãe…

Ana aproximou-se e sentou-se ao lado dele, controlando a voz para não voltar a explodir.

— Ouve-me com atenção. A tua mãe apareceu aqui com malas, decidiu por conta própria que ia passar a viver connosco e ainda nos mandou sair da nossa própria casa. Tu percebeste o que acabou de acontecer, não percebeste?

— Ela está desorientada por causa do Miguel… — João falou sem levantar os olhos. — E, no fundo, não tem para onde ir.

— Tem, sim. Tem a casa dela — cortou Ana, agora num tom mais firme. — E quando o Miguel se casar, será ele a decidir onde vive com a mulher: se na casa da mãe, se noutro sítio. Isso é um problema deles, não nosso. João, se tu não aprenderes a dizer “não” à tua mãe, o nosso casamento não vai aguentar muito tempo.

Ele ergueu finalmente a cabeça. No olhar havia surpresa, culpa e medo, tudo misturado.

— Estás mesmo a falar a sério?

— Completamente. Eu não vou dividir a casa que comprei com o meu dinheiro e com a ajuda dos meus pais com a tua mãe. Este é o meu limite. E, se tu não o respeitares, então não temos futuro juntos.

João ficou calado durante muito tempo. O silêncio pesava mais do que qualquer discussão. Por fim, assentiu devagar.

— Está bem. Eu falo com ela. Explico-lhe que isto não pode ser assim.

— Não — Ana abanou a cabeça. — A altura das explicações já passou. Amanhã vou chamar um serralheiro e mudar a fechadura. Tu ficas com um único conjunto de chaves. Um só. E, se eu descobrir que deste uma cópia à tua mãe, ou que a deixaste entrar sem o meu consentimento, avanço com o divórcio. No mesmo dia. Sem discussões.

João endireitou-se, atónito.

— Estás a brincar comigo?

— Não. Estou a proteger a minha casa, o meu espaço e os meus limites. João, eu amo-te. Mas não vou permitir que a tua mãe governe a nossa vida. Tens de escolher: ou estás comigo, ou continuas preso a ela. Não há meio-termo.

Ele passou as mãos pelo rosto, como se quisesse afastar o cansaço. Os ombros caíram-lhe, e Ana percebeu, de repente, como ele parecia exausto.

— Estou contigo — disse por fim, num fio de voz. — Tens razão. A minha mãe passou todos os limites.

Ana abraçou-o. Sentiu-o rígido durante alguns segundos, depois ele cedeu e encostou-se a ela.

— Obrigada. Então fica combinado: mudamos a fechadura, tu tens apenas um conjunto de chaves e a tua mãe só entra aqui se for convidada. De acordo?

— De acordo — respondeu João, quase num sussurro.

No dia seguinte, Ana chamou um serralheiro. O homem chegou a meio da manhã, analisou a porta e substituiu a fechadura antiga por uma mais segura. Quando terminou, entregou-lhe os novos conjuntos de chaves. Ana guardou dois consigo e deu apenas um a João.

— João, isto é sério — disse-lhe, fitando-o nos olhos. — Não as percas, não as emprestes a ninguém e não mandes fazer cópias sem me falares primeiro. Está bem?

— Está bem — confirmou ele, com um aceno.

Ao cair da noite, Teresa telefonou. João foi atender para a varanda e ficou lá muito tempo. Ana não ouviu a conversa inteira, apenas pedaços soltos que chegavam pela porta entreaberta: “Mãe, tenta compreender… A casa é dela… Não, eu não posso fazer isso… Desculpa…”

Quando voltou para a sala, trazia o rosto fechado.

— Ela ficou muito ofendida. Diz que eu a traí.

— Não a traíste — respondeu Ana, com calma. — Escolheste a tua própria família. E era isso que devias fazer.

João puxou-a para si e abraçou-a, escondendo o rosto no cabelo dela.

— Espero que isto acabe por se resolver.

Ana não respondeu. Conhecia Teresa demasiado bem para acreditar que ela se conformaria tão depressa. Mas, naquele momento, dentro da sua casa, com uma fechadura nova na porta e limites finalmente traçados, sentiu uma serenidade que há muito não sentia. Aquela batalha tinha sido ganha. E, se fosse preciso, defenderia o seu território durante o tempo que fosse necessário.

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