Voltou-se então para o marido.
— João, estás a ouvir o que a tua mãe acabou de dizer?
João tinha perdido a cor. O olhar dele saltava de Ana para Teresa e de Teresa para Ana, como se procurasse uma saída onde não havia nenhuma.
— Mãe, espera… vamos falar disto com calma…
— Falar de quê, exatamente? — cortou Teresa, sem lhe dar espaço. — És meu filho. Tens obrigação de me garantir uma velhice digna. Passei a vida inteira a investir em vocês, em ti e no Miguel, e agora chegou a altura de me devolverem alguma coisa. A decisão está tomada: fico com o quarto maior, que tem mais luz. Tu e a Ana acomodam-se no pequeno. Ou, se preferirem, arranjem outro sítio para viver.
Ana fechou os olhos por um instante e contou, em silêncio, até dez. Depois inspirou fundo e voltou a encará-la.
— Teresa, este apartamento é meu. Foi comprado com dinheiro que eu ganhei e com a ajuda que os meus pais me deram. Aqui vou viver eu com o João. Mais ninguém. Pegue nas suas malas e saia, por favor.
A sogra soltou uma gargalhada seca, desagradável.
— Ah, então é assim? Agora és tu que mandas? Já te esqueceste de quem eu sou? Sou a mãe do teu marido! Sem mim, ele não existia. Nem tu estarias casada com ele!
— Mãe, acalma-te — tentou João, mas a voz saiu-lhe trémula.
— Cala-te! — berrou Teresa, virando-se para ele. — És homem ou és um farrapo? A tua mulher monta-te em cima e tu nem és capaz de abrir a boca!
Ana deu um passo em frente e colocou-se entre os dois.
— Chega. Vou dizer uma última vez: pegue nas suas coisas e vá embora. Agora.
— Eu não vou a lado nenhum! — Teresa bateu o pé no chão, furiosa. — Já está tudo decidido! Dou o meu apartamento ao Miguel e venho para aqui. Tu, Ana, és uma rapariga gananciosa e ingrata. Os mais velhos respeitam-se!
— O respeito conquista-se. Não se exige — respondeu Ana, num tom gelado.
Teresa virou-lhe as costas, agarrou numa das malas e encaminhou-se para a divisão maior.
— Pronto, a conversa acabou. Vou começar a instalar-me.
Alguma coisa se partiu dentro de Ana. Em duas passadas alcançou-a, arrancou-lhe a mala da mão e atirou-a de volta para o corredor.
— Saia imediatamente do meu apartamento — disse, baixo, mas com uma firmeza cortante. — Imediatamente.
— João! — guinchou Teresa. — Estás a ver como ela me trata? Vais permitir que fale assim com a tua mãe?
João permanecia junto à parede, pálido, os braços caídos ao longo do corpo.
— Mãe… talvez seja melhor não… Podemos falar disto noutra altura, quando estivermos todos mais calmos…
— Melhor não?! — a voz de Teresa subiu de tom. — De que lado é que tu estás?
— Do meu — atalhou Ana. — Porque este apartamento é nosso, esta família é nossa, e a senhora entrou aqui sem ser convidada. João, ajuda a tua mãe a levar as malas até à porta.
Teresa levou a mão ao peito, como se estivesse prestes a desfalecer.
— Ai, o meu coração… É isto que me fazes, sua ingrata… Eu que gostava de ti como se fosses minha filha…
— Basta de teatro — Ana abriu a porta de entrada. — Saia. E nunca mais apareça sem avisar.
Só então Teresa percebeu que já não controlava a situação. Pegou em duas malas e arrastou a terceira pelo chão, avançando até à saída.
— João, vais arrepender-te disto! Eu sou tua mãe! Vais mesmo escolher essa cabra em vez da mulher que te pôs no mundo?
João continuou em silêncio, com os olhos cravados no chão.
Teresa parou à soleira da porta.
