A mais de trezentos quilómetros dali, num subúrbio de Dallas, Maria Costa, advogada de defesa reformada de sessenta e oito anos, quase deixou cair a chávena de café quando a notícia apareceu no telejornal.
No início da carreira, não conseguira impedir que um inocente fosse arrastado para a morte pelo sistema. Esse fracasso nunca a abandonara; instalara-se nela como uma sombra antiga, voltando sempre que via um olhar igual.
E foi precisamente esse olhar que reconheceu quando a câmara mostrou os olhos de Daniel Silva.
Horas depois, Maria já tinha espalhados à sua frente os documentos do processo do homicídio de Catarina Silva, a mulher de Daniel, assassinada cinco anos antes. Leu autos, depoimentos, relatórios periciais, datas, assinaturas. Quanto mais avançava, mais frio lhe ficava o sangue.
O procurador que obtivera a condenação de Daniel — agora juiz Rui Sousa — mantivera ligações comerciais privadas com Miguel Silva, o irmão mais novo de Daniel. E Miguel, pouco depois da detenção do irmão, herdara a maior parte da fortuna dos pais.
Havia ainda outro detalhe difícil de ignorar: nas semanas que antecederam a sua morte, Catarina Silva andara a consultar extratos financeiros, escrituras e documentos legais que ninguém parecera interessado em analisar com seriedade.
Maria começou então a unir peças que outros tinham preferido deixar separadas.
Entretanto, Ana, depois da visita à prisão, mergulhara num silêncio absoluto. No lar estatal onde vivia há seis meses, sob a tutela do tio Miguel, já quase não usava palavras. Comunicava apenas por desenhos.
Um deles chamou a atenção de todos.
Mostrava uma casa. Uma mulher caída no chão. Um homem de camisa azul inclinado sobre ela. E, no corredor, uma figura pequena, escondida nas sombras.
Daniel nunca tivera uma camisa azul.
Miguel, pelo contrário, usava uma quase todos os dias.
Faltavam menos de trinta horas para a execução quando Maria recebeu uma chamada de um homem desaparecido havia cinco anos: Pedro Gomes, o antigo jardineiro da família.
— Eu vi o que aconteceu naquela noite — disse ele.
