“Estou-me nas tintas para o teu salão de beleza!” rosnou João, exigindo que ela preparasse a mesa para a mãe

Histórias
É revoltante e injusto sacrificarem sonhos assim.

— Perdeste mesmo a vergonha? — João nem se dignou a levantar os olhos do telemóvel quando Ana passou por ele, já com a mala ao ombro. — Onde pensas tu que vais a esta hora?

Ela ficou imóvel no hall, com a mão pousada no puxador da porta. Lá fora, a tarde de dezembro já se transformara numa noite cerrada. Dentro de casa, apenas a cozinha estava iluminada por uma luz amarelada e cansada, vinda de uma lâmpada antiga que João prometera trocar ainda em outubro.

— Vou encontrar-me com a Maria. Já tínhamos combinado… — começou Ana.

Mas ele cortou-lhe a frase, finalmente afastando o olhar do ecrã.

— Estou-me nas tintas para o teu salão de beleza! Primeiro preparas a mesa para os convidados da minha mãe e só depois vais para onde muito bem quiseres! — rosnou, com uma frieza na voz que fez Ana largar o puxador quase por reflexo.

O salão de beleza. Ele dizia sempre aquilo assim, com troça, arrastando as palavras como se falasse de uma brincadeira infantil. E, no entanto, durante os últimos seis meses, Ana tinha posto tudo naquele projeto: as poupanças tiradas do salário de contabilista, as noites mal dormidas, o pouco tempo livre, a esperança. Maria já encontrara um espaço; na segunda-feira, iam assinar o contrato de arrendamento. Estava tudo praticamente encaminhado.

— João, nós combinámos isto há uma semana. Eu não sabia que a tua mãe…

— Agora já sabes. — Ele ergueu-se do sofá, pesado, com uma T-shirt larga e uma nódoa de ketchup no peito. Aproximou-se, e Ana sentiu-lhe o cheiro a cerveja. — Vão ser doze pessoas. A minha mãe ligou há uma hora. Disse que a Carolina vem com a família, o Rui também traz a mulher, ainda aparece a tia Helena… Enfim, fazes a mesa. Saladas, entradas, essas coisas. Tu sabes.

Doze pessoas. A uma quarta-feira. Três dias antes do fim de semana. Num dia em que ela própria trabalhava até às oito da noite, em que ainda seria preciso comprar comida, cozinhar, arrumar aquela casa eternamente atafulhada. Ana apertou a alça da mala com tanta força que o couro rangeu sob os seus dedos.

— João, eu não posso desmarcar a reunião. É importante. Se não entregarmos o sinal até sexta-feira, perdemos o espaço.

Ele soltou uma risada curta, torta, carregada de desprezo, como se ela acabasse de dizer a maior estupidez do mundo.

— Tu achas mesmo que esse teu salãozinho vale mais do que a família? A minha mãe juntou toda a gente de propósito, quer anunciar… — calou-se de repente.

Ana reparou. Viu a forma como ele engoliu o resto da frase e mudou de assunto depressa demais.

— Bom, isso não te diz respeito. Fazes a mesa e acabou.

Ela permaneceu ali, ainda agarrada à mala, enquanto por dentro alguma coisa se deslocava devagar, como uma peça a sair do lugar. Não era a primeira vez nos últimos meses. A bem dizer, nem sequer era a primeira vez naquele ano. João estava diferente — ou talvez tivesse apenas deixado de fingir. Antes, pelo menos, simulava ouvi-la. Antes, pedia desculpa quando perdia a cabeça. Agora nem isso.

— Está bem — disse ela, quase num sussurro, retirando a mala do ombro.

João assentiu, satisfeito com a vitória, e voltou para o sofá. Pegou no comando, ligou um programa qualquer e começou a rir-se das piadas, bebendo cerveja diretamente da lata. Ana, por sua vez, entrou na cozinha e tirou o telemóvel do bolso.

“Maria, desculpa. Hoje não vou conseguir. Falamos amanhã?”

A resposta chegou quase de imediato.

“Ana, é a terceira vez este mês. O que se passa?”

O que se passa? Ana olhou pela janela. Do outro lado do vidro, piscavam as luzes da cidade; algures, havia pessoas a viver a própria vida, a encontrar-se, a rir, a fazer planos. Ela, porém, estava plantada na cozinha, enfiada num robe turco que João chamava “roupa de velha”, sem saber o que responder à amiga.

“Está tudo bem. Só estou cansada. Amanhã encontramo-nos de certeza.”

Pousou o telemóvel sobre a mesa e abriu o frigorífico. Quase vazio. Teria de ir ao supermercado. Doze pessoas. Saladas, entradas, prato quente. Talvez alguma coisa com carne. A sogra gostava de juliana gratinada, embora encontrasse sempre defeitos: ora os cogumelos não eram os certos, ora o queijo não derretia como devia.

— Ana! — gritou João da sala. — Já não há cerveja?

— Não! — respondeu ela, sem sair da cozinha.

— Então vai comprar!

Ana não disse nada. Limitou-se a tirar um bloco de notas do armário e começou a fazer a lista. Frangos — três. Batatas — uns três quilos. Cenouras, cebolas, maionese, ovos… As contas foram-se formando na sua cabeça. Daria cerca de cinquenta euros, talvez sessenta. E no cartão restavam-lhe precisamente sessenta e cinco euros até receber o ordenado.

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