“Estou-me nas tintas para o teu salão de beleza!” rosnou João, exigindo que ela preparasse a mesa para a mãe

Histórias
É revoltante e injusto sacrificarem sonhos assim.

Era esse o dinheiro que Ana tencionava guardar para dar a primeira entrada do equipamento.

Fechou os olhos por um instante. As têmporas latejavam-lhe como se alguém batesse por dentro. E, sem aviso, surgiu-lhe na memória o dia do casamento. Quatro anos antes, em agosto. João, nervoso e comovido, lera-lhe uns versos que ele próprio escrevera — desajeitados, quase ridículos, mas tão ternos que ela chorara. Prometera levá-la ao colo pela vida fora. Prometera que seriam uma equipa. Uma equipa… Que piada amarga.

— Ana, estás a ouvir-me ou não?! — berrou ele da sala, já sem paciência.

Ela abriu os olhos devagar.

— Estou. Eu vou.

Vestiu o casaco, calçou os ténis à pressa, pegou na carteira e no saco das compras. Ao sair para o patamar, recebeu de imediato aquele cheiro velho a tabaco entranhado e humidade. O elevador, como de costume, estava avariado. Desceu os sete andares a pé, passando pelas paredes riscadas, por lâmpadas meio fundidas e por uma porta atrás da qual uma mulher gritava com os filhos.

Na rua, o frio cortava. Ana avançou depressa, quase a correr, em direção à mercearia aberta toda a noite, na esquina. Carros passavam a toda a velocidade, grupos de jovens riam alto, alguém tirava fotografias junto a uma árvore de Natal iluminada. O Ano Novo aproximava-se, e a cidade parecia preparar-se para celebrar. Dentro da cabeça dela, porém, só havia uma lista: cerveja, frangos, batatas…

A loja estava abafada e demasiado iluminada. Ana encheu o cesto sem se demorar, pagou na caixa e nem olhou duas vezes para o talão. Sessenta e três euros. O cartão aceitou a operação. Na conta ficaram dois euros. Dois euros até dia vinte e sete.

Quando voltou, João já dormia no sofá, estendido de qualquer maneira, a ressonar baixinho, com o telemóvel pousado sobre o peito. A televisão continuava ligada, debitando vozes e luzes para a sala vazia. Ana deixou os sacos na cozinha, apagou a luz da sala e encostou a porta.

Sentou-se à mesa. Pegou no telemóvel e escreveu a Maria: “Não fiques zangada comigo. Depois explico-te tudo.”

Mas, na verdade, não havia nada simples para explicar. Ou havia demasiado. E ela não queria começar, porque bastava puxar uma ponta para tudo se desfazer. Aquele castelo de cartas que andava a sustentar nos últimos meses cairia de vez.

Deixou a cabeça tombar sobre os braços e ficou assim, imóvel, no silêncio nu da cozinha, onde a torneira pingava e a luz do frigorífico piscava de vez em quando. No dia seguinte haveria outro dia. E depois outro. E, na quarta-feira, chegariam os convidados, e ela sorriria, serviria saladas, levaria travessas para a mesa. A sogra faria algum comentário sobre o cabelo dela, ou sobre o vestido. E João rir-se-ia com os outros.

Porque sempre fora assim.

De manhã, João saiu cedo. Bateu a porta sem se despedir. Ana ficou deitada, de olhos presos ao teto, a ouvir os passos dele morrerem na escada do prédio. No ecrã do telemóvel marcavam sete horas. Ainda podia dormir mais uma hora, mas o sono já não vinha.

Levantou-se e pôs a chaleira ao lume. No lava-loiça, a loiça do jantar da véspera acumulava-se em torres inclinadas. João, claro, não lavara nada. Ana ensaboava os pratos de modo automático quando o telefone tocou. Número desconhecido.

— Estou?

— Dona Ana? — perguntou uma voz masculina, estranha, com um leve sotaque. — O meu nome é Miguel. Estou a ligar por causa do seu marido.

O coração dela pareceu cair-lhe aos pés. Um acidente? Um hospital? A mente correu logo para o pior, como acontece quando um desconhecido telefona às sete da manhã.

— Aconteceu alguma coisa? — conseguiu perguntar, quase sem ar.

— Nada desse género. Queria apenas avisá-la… pessoalmente. — Houve uma pausa curta. — O seu marido anda com a minha mulher. Há quatro meses.

Ana ficou parada, com a esponja molhada na mão, incapaz de dizer fosse o que fosse. Dentro da cabeça, abriu-se um vazio branco, ruidoso, como um apito contínuo.

— Ainda está aí? — perguntou o homem.

— Estou — murmurou ela. — Eu… como é que sabe?

— Encontrei as mensagens. Eles estão a combinar viver juntos depois do Ano Novo. O João prometeu-lhe que se divorciava de si em janeiro. Disse que já tinha decidido tudo.

A esponja escorregou-lhe dos dedos e caiu no lava-loiça com um som mole. Ana agarrou-se à beira da bancada para não perder o equilíbrio.

— Quem é ela? — perguntou, e a própria voz pareceu-lhe de outra pessoa.

— Carolina. Uma amiga da sua sogra.

Carolina. A Carolina que viria na quarta-feira. A mesma para quem ela teria de pôr a mesa, cozinhar, preparar uma noite inteira para doze pessoas. De repente, Ana começou a rir. Um riso seco, nervoso, impossível de travar.

— Está bem? — Miguel alarmou-se.

— Estou — respondeu ela, entre aquele riso que já lhe doía. — É só que… ele mandou-me preparar o jantar para ela. Para eles todos. Está a perceber?

— Estou — disse Miguel, num tom baixo. — Foi por isso que lhe telefonei. Não queria que fosse apanhada de surpresa.

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