“A partir de agora cozinhas por aqui” disse João — Ana, furiosa e humilhada, atirou a pasta sobre a mesa

Histórias
Essa intromissão maternal é absurda e profundamente injusta.

— Não é nada de grave — respondeu João, desviando os olhos. — A minha mãe precisa de uma ajuda para arranjar a varanda.

— Uma ajuda de quanto?

Ele passou a mão pelo cabelo, como se o valor fosse uma minúcia.

— Setecentos euros.

Ana pousou a chávena com força sobre a mesa. O chá saltou para o tampo.

— Setecentos? E de onde é que tiramos nós esse dinheiro?

— Temos as poupanças — murmurou ele, sem a encarar.

— As poupanças eram para as férias. E para o frigorífico novo, que está quase a morrer.

— Ela devolve até ao verão — disse João, encolhendo os ombros. — Além disso… eu já transferi.

Ana levantou-se de repente.

— Tu fizeste isso sem falar comigo? João, aquele dinheiro é dos dois!

— Não comeces aos gritos. É a minha mãe. Como é que eu lhe ia dizer que não?

Nesse instante, o telemóvel de Ana começou a tocar. Número desconhecido. Ela atendeu, ainda com a respiração presa.

— Estou?

— Aninha, querida, é a tia Catarina — veio uma voz melosa do outro lado. — Tenho uma coisinha para te pedir…

Ana apertou o telemóvel contra a orelha.

— Que coisinha?

— A minha Bichinha está doente… apareceu-lhe uma coisa, sabes? Precisa de ser operada. É coisa para mil euros. Tu não vais virar costas à família, pois não?

Ana deixou-se cair lentamente na cadeira.

— Tia Catarina, nós não temos esse dinheiro.

— Como assim, não têm? — a doçura desapareceu da voz num segundo. — Têm casa comprada, carro novo… Então agora uma cadela já não merece consideração?

— Eu…

— Falamos melhor quando nos virmos! — cortou Catarina, desligando de forma brusca.

Ana ficou uns segundos imóvel. Depois olhou para João. Ele estava sentado no sofá, de olhos fixos no próprio telemóvel, como se nada tivesse acontecido.

— Ouviste isto?

— Ajuda a tua tia — respondeu ele, sem grande convicção. — Também é família.

— E onde é que eu arranjo mil euros? Vou trabalhar dia e noite?

— Podes pedir um crédito — resmungou. — Eu ajudei a minha mãe…

Foi nesse momento que Ana percebeu. Num impulso, arrancou-lhe o telemóvel da mão. Abriu o histórico das transferências. Lá estavam: valores repetidos para Maria. Cento e cinquenta, duzentos, trezentos euros. Ao longo dos últimos seis meses.

— Tu… andaste este tempo todo… — a voz falhou-lhe.

— É a minha mãe! — João recuperou o telemóvel com um gesto seco. — Foi ela que me criou!

— E eu sou o quê para ti? Uma máquina de pagar contas?

A campainha tocou antes que ele respondesse. Quando João abriu a porta, Maria surgiu no patamar com um saco enorme nos braços.

— Trouxe-vos umas coisinhas boas! — anunciou, animada. Mas a alegria sumiu-lhe ao reparar nas caras dos dois. — Que ambiente é este? Aconteceu alguma coisa?

— Nada, mãe, entra — apressou-se João.

Ana colocou-se entre eles.

— Dona Maria, o seu filho acabou de lhe transferir o dinheiro das nossas férias. E agora a tia Catarina exige mil euros para a cadela.

Maria revirou os olhos, como se Ana estivesse a fazer uma cena ridícula.

— E qual é o problema? A Catarina é da família. Ou és assim tão agarrada ao dinheiro? O meu filho merece uma mulher que respeite os parentes dele.

Ana soltou uma gargalhada curta, nervosa, quase sem som.

— Agora percebi. Eu aqui sou a intrusa. Isto é uma associação familiar de entreajuda. Só que a conta vem sempre parar ao meu bolso.

Virou-se, pegou na mala e nas chaves.

— Onde vais? — perguntou João, assustado.

— Ao banco. Vou pedir um crédito para a operação da Bichinha. Já que, pelos vistos, fui nomeada patrocinadora oficial da vossa família.

A porta bateu atrás dela. No elevador, Ana sentiu as lágrimas a escorrerem-lhe pelo rosto sem conseguir travá-las. Tirou o telemóvel da mala e escreveu a uma amiga: “Acho que não casei com um homem. Casei com a família dele inteira.”

Ainda não fazia ideia de que aquilo era apenas o começo. Uma hora mais tarde, Catarina publicaria no grupo da família uma fotografia com um casaco de pele novo e a legenda: “Obrigada aos meus queridos pela ajuda! A Bichinha já está muito melhor!”

Ana regressou do banco com um envelope pesado dentro da mala. Mil euros. Um crédito aprovado a correr, com uma taxa de juros absurda. Parou à entrada do prédio, a olhar para o ecrã do telemóvel, onde a fotografia de Catarina já brilhava no grupo: ela sorria, vaidosa, enfiada num casaco de vison aparentemente acabado de comprar.

“Obrigada aos meus queridos pela ajuda! A Bichinha já está muito melhor!”

Por baixo da imagem, os comentários multiplicavam-se.

“Que casaco maravilhoso!”

“Catarina, estás uma rainha!”

“Ana, fizeste muito bem em não abandonar a família!”

Ana subiu no elevador sem sentir as pernas. Dentro da cabeça, uma pergunta batia sem descanso: como é que tinham tido coragem? Como é que ousavam tratá-la daquela maneira?

A porta de casa estava encostada. Da cozinha chegavam vozes.

— Claro que ela é sovina por natureza — dizia Maria, num tom venenoso. — A minha nora nem uma sopa sabe fazer como deve ser, mas para contar tostões é uma especialista.

— Mãe, não digas isso — tentou João, fraco, quase a pedir desculpa por contrariá-la.

Ana entrou na cozinha. O silêncio caiu de imediato. À mesa estavam Maria, João e Catarina, esta última com o tal casaco de pele vestido, apesar de estarem dentro de casa. Sobre a toalha havia uma garrafa de espumante aberta e um bolo já meio comido.

— Olha, chegou a nossa benfeitora! — gritou Catarina, erguendo o copo. — Aninha, anda brindar connosco ao meu casaco novo!

Ana colocou a mala sobre a mesa com uma calma assustadora.

— Aqui estão os teus mil euros — disse, retirando o envelope. — O dinheiro para a operação da Bichinha. Embora, pela fotografia, pareça que a cadela recuperou num instante.

Catarina corou, mas logo se riu, abanando a mão.

— Ai, não sejas tão dramática, querida. O casaco é antigo. Foi só uma brincadeira.

— Antigo? — Ana desbloqueou o telemóvel e mostrou a imagem aumentada. — Então explica-me a etiqueta na manga: “Coleção 2024”. Muito antigo, sem dúvida.

Maria levantou-se de repente.

— Já chega! Não tens vergonha de falar assim com pessoas mais velhas? A Catarina também é tua família!

— Minha? — Ana riu, mas os olhos estavam frios. — A minha família não me engana para comprar casacos enquanto eu me mato em dois empregos.

João, finalmente, ergueu a cabeça.

— Ana, para. Estás a humilhar-me à frente da minha família.

— Eu é que te humilho? — A voz dela tremeu. — Tu deste todas as nossas poupanças à tua mãe, a tua tia arrancou-me mil euros com uma mentira, e agora estão aqui a festejar à minha custa. Mas a vergonha sou eu?

Maria aproximou-se, rígida, com o queixo levantado.

— Se não sabes comportar-te, nós ensinamos. A partir de amanhã, cozinhas conforme o meu menu, limpas a casa de acordo com o meu horário e todo o teu salário entra no orçamento comum.

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