— …que me pediu mil euros para uma suposta “operação urgente ao cão”.
— Isso é mentira! — Catarina levantou-se de um salto, com o rosto vermelho.
— Mais baixo — disse Ana, sem se alterar, passando para a imagem seguinte. — Aqui está o comprovativo da transferência. Curiosamente, feita no mesmo dia em que apareceu a fotografia do casaco de vison.
A sogra perdeu a cor.
Ana deslizou o dedo pelo ecrã.
— Continuemos. — Abriu um extrato bancário. — Aqui estão todas as transferências que o meu marido fez para a mãe ao longo do último ano. Três mil oitocentos e setenta euros. Saídos da nossa conta comum.
João baixou a cabeça, incapaz de a encarar.
— E, por fim… — a voz de Ana falhou por um instante, mas ela obrigou-se a continuar — esta é a declaração do meu chefe sobre a difamação.
O agente remexeu-se na cadeira, desconfortável.
— Bem… isto são assuntos de família…
— Não — cortou Ana, endireitando-se. — Isto já deixou de ser apenas família. Estamos a falar de burla, difamação e extorsão.
O silêncio caiu sobre a sala como uma manta pesada.
Foi Maria quem se recompôs primeiro.
— Tu… tu não consegues provar nada!
— Já provei. — Ana tocou discretamente no bolso, onde o gravador continuava ligado. — Está tudo registado.
Depois virou-se para João.
— Amanhã dou entrada no divórcio. E se alguém desta vossa “família tão unida” tentar prejudicar-me outra vez, estas gravações seguem diretamente para o Ministério Público.
À porta, ainda parou e olhou para trás.
— Quanto às minhas coisas, podem deitá-las fora. Não quero levar nada daqui.
Assim que a porta se fechou, ouviu-se lá dentro o grito estridente da sogra:
— Mas quem é que ela pensa que é?!
Ana já não a escutava. Caminhava para o carro e, pela primeira vez em muitos meses, sentia o peito menos apertado. Como se finalmente houvesse ar.
O telemóvel vibrou-lhe no bolso. Era uma mensagem da amiga:
“Foste incrível. Vamos comprar champanhe?”
Ana sorriu e respondeu:
“Não. Vamos ao advogado.”
Ainda não fazia ideia de que a parte mais interessante estava apenas a começar. Porque, no exato momento em que se sentava ao volante, João, em pânico, ligava a alguém e murmurava:
— Mãe, o que é que fazemos agora? Se ela avançar para tribunal, toda a gente vai descobrir o teu segundo crédito… e a outra família do pai…
Três semanas depois, Ana estava diante do edifício do tribunal, a ajeitar a gola do casaco novo. Ao seu lado encontrava-se a advogada, amiga de um antigo colega da faculdade, que aceitara o caso com uma dedicação quase feroz.
— Estás preparada? — perguntou a advogada, conferindo pela última vez a pasta dos documentos.
Ana inspirou fundo.
— Há muito tempo.
A sala recebeu-as com uma quietude tensa. Do outro lado estavam João, Maria e o advogado deles, um homem já de idade, com o olhar cansado de quem preferia estar noutro lugar.
O juiz abriu a sessão.
— Processo de dissolução do casamento entre Ana Silva e João Silva.
João tamborilava os dedos na mesa, nervoso. Maria, por sua vez, lançava a Ana olhares carregados de veneno.
Quando o juiz pediu às partes que apresentassem as condições do divórcio, a advogada de Ana levantou-se.
— A minha constituinte requer a divisão igualitária dos bens adquiridos durante o casamento. Requer ainda uma indemnização por danos morais no valor de três mil euros.
A sala encheu-se de exclamações indignadas.
— Que dinheiro?! — Maria ergueu-se, furiosa. — Ela é que nos devia devolver tudo!
— Senhora Maria — advertiu o juiz, com firmeza. — Peço-lhe que mantenha a ordem.
A advogada de Ana prosseguiu, sem se deixar interromper:
— Dispomos de provas de pedidos reiterados de dinheiro por parte da família do requerido, bem como de indícios de difamação e pressão psicológica exercida sobre a minha cliente.
Colocou sobre a mesa uma pasta com cópias de mensagens, extratos bancários e transcrições das gravações áudio.
João ficou pálido.
— Ana… nós ainda podemos resolver isto a bem…
Ela olhou-o sem raiva. Apenas com cansaço.
— Agora é tarde.
O juiz examinou os papéis durante alguns minutos.
— A parte requerida tem algo a declarar?
O advogado de João soltou um suspiro pesado.
— Estamos disponíveis para um acordo.
Uma hora depois, tudo estava decidido. O apartamento ficaria em copropriedade até ser vendido. O carro passaria para João. Quanto ao dinheiro existente nas contas, metade teria de ser devolvida a Ana.
À saída da sala, João apressou o passo e alcançou-a no corredor.
— Ana… eu…
Ela virou-se. Pela primeira vez em muito tempo, olhou realmente para ele. Para aquele homem com quem se casara cheia de esperança, convencida de que estavam do mesmo lado.
— Sabes o que me magoa mais? — perguntou. — Talvez eu até tivesse cozinhado seguindo a pasta da tua mãe. Talvez tivesse feito esse esforço. Bastava que, uma única vez, tivesses ficado do meu lado.
Ele desviou os olhos.
— Ela é minha mãe…
— Pois é. E agora isso é problema teu.
Ana virou costas e caminhou para a saída.
Lá fora, a amiga esperava por ela, segurando uma garrafa de champanhe como se fosse um troféu.
— Então? Mulher livre?
Ana riu-se. E, de repente, percebeu que estava a chorar. As lágrimas escorriam-lhe pelo rosto sem pedir licença.
— Sabes qual é a primeira coisa que quero fazer?
— Qual?
— Comer uma pizza. Daquelas com ananás. A que ele detestava.
A amiga passou-lhe um braço pelos ombros.
— Vamos já.
Quando o carro arrancou, Ana tirou o telemóvel. No grupo de família, de onde ninguém se lembrara de a remover, havia uma mensagem nova de Maria:
“Filhinho, não te preocupes. Nós arranjamos-te uma mulher nova. Obediente.”
Ana sorriu com calma. Escreveu a última mensagem antes de bloquear a conversa:
“Obrigada pela lista. Agora a minha vai para a advogada.”
Fechou a aplicação, baixou o vidro da janela e respirou fundo. À sua frente abria-se uma vida nova.
Nesse mesmo instante, dentro do carro do ex-marido, o telefone começou a tocar.
— Estou, mãe?
Do outro lado, Maria gritava:
— Filho, vem já para cá! Aquele canalha do teu pai pediu o divórcio! Afinal, ele tem…
Mas Ana nunca chegaria a ouvir o resto.
A história dela com aquela família terminara ali.
Embora… talvez, algures, já estivesse a crescer a próxima nora destinada a receber a famosa pasta azul.
