— Sou eu que vou casar com o teu ex-marido. Portanto, menina, está na altura de começares a desocupar o apartamento — anunciou a amante, sem a menor cerimónia.
Ana tinha acabado de adormecer a filha, Maria, havia poucos minutos. Preparava-se também para se deitar e aproveitar, enfim, o sossego daquela casa confortável.
Foi então que a campainha tocou. O som melodioso espalhou-se pelo corredor, anunciando uma visita inesperada.
— Pois claro… parece que a paz vai ter de ficar para outro dia — murmurou Ana, com uma ironia cansada, antes de se dirigir à porta.
Do outro lado estava uma rapariga baixa, de cabelo louro muito curto e olhos castanhos enormes. Observava Ana com atenção excessiva, como se tentasse reconhecer nela alguma coisa ou tirar uma conclusão silenciosa.

— Sim? — perguntou Ana, franzindo ligeiramente a testa.
— Ah… desculpe — disse a jovem, saindo de repente daquele estado de contemplação. — Eu chamo-me Joana.
— Muito prazer — respondeu Ana, cruzando os braços. — Veio por algum motivo em especial?
— Sim, sim, claro — apressou-se a visitante, repetindo quase como se isso explicasse tudo. — Sou a Joana.
— Essa informação já ficou registada — disse Ana, num tom seco, onde a irritação começava a notar-se. — E agora, qual é o assunto?
— A senhora é a Ana, não é? — perguntou a rapariga, de forma hesitante.
— Sou. O que pretende?
— Bem, é que… — Joana abriu um sorriso vivo, quase triunfante. — Eu sou a noiva do João!
Ana arqueou as sobrancelhas, surpreendida. Por um instante, os olhos abriram-se-lhe mais do que queria.
“Claro”, pensou ela, passando a rapariga em revista com um olhar rápido. “O meu antigo conquistador já arranjou mais uma peça para a coleção.” E, logo a seguir, corrigiu-se interiormente: “Embora, para ser justa, o que é que isso tem a ver comigo?”
— Compreenda, eu gostava de falar consigo sobre o meu marido… isto é, sobre o meu noivo — continuou Joana, com um sorriso nervoso.
— Duvido que as minhas recordações lhe sejam úteis. Eu e o João já estamos separados — respondeu Ana, sem rodeios.
— Eu sei. O João contou-me. Mas não vim aqui para discutir!
Ana quase soltou uma gargalhada por dentro. “Discutir porquê? Já não sou mulher dele. E tu, para mim, não significas absolutamente nada.”
— Só queria que me dissesse como ele é… o meu João — acrescentou Joana, prendendo a respiração, como se aguardasse uma revelação preciosa.
“Meu?” A palavra atravessou Ana como uma agulha fina. “Houve um tempo em que ele também foi meu…”
— Está bem. Entre — acabou por dizer, soltando um suspiro.
Deixou a visitante passar para o corredor. No fundo, uma parte dela estava curiosa. Queria perceber como andava a vida do ex-marido. Ultimamente, João não lhe telefonava; limitava-se a enviar, com regularidade, a pensão da filha.
Ana pôs a chaleira ao lume, preparou chá de pétalas de rosa num bule transparente, colocou duas chávenas num tabuleiro, juntou umas bolachas e levou tudo para a sala.
Enquanto isso, Joana percorria a divisão junto às paredes, examinando os quadros, as estantes, as lombadas dos livros. Tocava em tudo com os olhos, e às vezes também com os dedos, como uma criança solta numa loja de brinquedos.
— É lindo aqui! Tão amplo… e o teto é altíssimo! Estas janelas enormes, o jardim lá fora… Sempre sonhei viver numa casa assim — suspirou, encantada.
— Então, o que quer exatamente saber? — perguntou Ana, pousando o tabuleiro na mesa.
— Bem… na verdade, tudo — respondeu Joana, distraída, aproximando-se de uma das portas. — E ali, o que há?
— Não abra — avisou Ana de imediato, com uma firmeza cortante. — A minha filha está a dormir nesse quarto.
— Ah, sim, o João disse que tinha uma filha. Como é que ela se chama?
— Maria — respondeu Ana, de forma breve.
— Sim, Maria! — Joana virou-se e dirigiu-se logo para outra porta. Sem pedir autorização, rodou o puxador e entrou.
— Ei! Onde é que pensa que vai? — indignou-se Ana, seguindo-a apressadamente.
— Quero ver todas as divisões — atirou a visitante, com uma leveza insolente.
— Faça o favor de fechar essa porta e sair daí.
— Porquê? — Joana virou-se, ofendida. — Esta casa também é minha!
— O quê? — Ana ficou imóvel, convencida de que tinha ouvido mal.
— Sim, minha. Vou casar com o João, e ele vai dar-ma. Portanto, eu… — Joana encarou-a de alto a baixo, com um brilho duro no olhar. — Portanto, menina, está na hora de arrumar as suas coisas e deixar o lugar livre.
— Tu estás a ouvir-te? — perguntou Ana entre dentes, esforçando-se por manter o controlo.
— Não me interessa o que pensas. Vim avaliar o presente do meu noivo. Não quero descobrir depois do casamento que me calhou algum buraco miserável. Mas isto aqui serve perfeitamente… — começou Joana.
— Basta! O teu espetáculo acabou. Sai imediatamente da minha casa! — ordenou Ana, com a voz clara e vibrante.
— E tu não mandas em mim! — respondeu Joana, avançando já para o puxador da porta seguinte.
Ana reagiu num impulso. Deu um passo rápido e puxou-lhe a mão com força suficiente para a afastar. Joana perdeu o equilíbrio por um segundo, cambaleou para o lado e só por pouco não caiu. Ana fechou a porta com cuidado, protegendo o espaço como se ali estivesse algo sagrado.
— Rua — sibilou, sentindo a raiva subir-lhe pelo peito como água a ferver.
— Oh, que mulher tão dura! Então ouve bem, menina: dou-te duas semanas. Depois disso, venho viver para aqui. Percebeste?
A insolência era tal que Ana ficou sem palavras. Há muito tempo não se cruzava com alguém de uma falta de vergonha tão descarada.
— Sai — disse, agora em voz baixa, mas gelada de determinação.
— Já estou a ir. Nem consegui acabar de ver os quadros, mas enfim. Já sei a morada. Até breve!
Joana correu para os sapatos, calçou-se à pressa e saiu para a escada antes que Ana decidisse empurrá-la ela própria.
— Duas semanas! — gritou ainda, enquanto descia rapidamente os degraus.
Ana fechou a porta com estrondo. Encostou-se a ela de costas, e só então percebeu que os joelhos lhe tremiam de forma traiçoeira.
“Mas que raio foi isto?”, perguntou a si mesma, atordoada. “O João não podia fazer uma coisa destas. Ele prometeu… Ou será apenas uma fantasia idiota de uma das admiradoras dele?”
Olhou para o relógio. Era tarde, demasiado tarde para conversas difíceis, mas o sono tinha desaparecido por completo. Precisava de ligar ao João. Antes, porém, foi espreitar Maria.
A menina dormia em paz, abraçada ao urso de peluche. Ana ficou alguns segundos à porta, a vê-la respirar devagar. Não permitiria que ninguém destruísse aquela tranquilidade. Muito menos uma mulherzinha arrogante que se apresentava como futura dona da casa.
Nas janelas dos prédios em frente brilhavam luzes amareladas. Os candeeiros da rua já se tinham acendido, estendendo sombras compridas pelo asfalto.
Ana andava de um lado para o outro na sala. Com a mão fina, ajeitava nervosamente as madeixas soltas que lhe caíam para o rosto. Os pensamentos atropelavam-se-lhe, e o coração batia com uma força desordenada. As palavras de Joana — a nova paixão do ex-marido — não paravam de ecoar na sua cabeça.
O apartamento onde Ana vivia com Maria era acolhedor. O sofá macio, coberto de almofadas estampadas, os livros preferidos alinhados nas prateleiras, as fotografias na parede… tudo ali fora escolhido para construir uma sensação de abrigo e segurança. Mas, naquela noite, essa paz parecia subitamente frágil, quase ilusória.
Ana lembrava-se muito bem do acordo feito com João: ela e Maria ficariam ali até a filha terminar a escola. A declaração da “noiva” dele caíra-lhe em cima como uma bofetada.
Incapaz de esperar mais, pegou no telemóvel e marcou o número do ex-marido. Apertou o aparelho contra o ouvido. Depois de alguns toques, ouviu finalmente a voz conhecida.
— Que foi? — resmungou João, sem sequer cumprimentar.
— Como é que devo entender isto? — disparou Ana, tentando falar baixo para não acordar Maria. — Apareceu aqui uma das tuas novas fúrias a mandar-me desocupar o apartamento. Isto é uma piada reles tua ou atingiste um novo patamar de canalhice?
— Está bem, já percebi — disse João. — O mais importante é não ficares nervosa.
Ana foi para a cozinha. A divisão pequena, com móveis antigos mas cuidadosamente conservados, sempre lhe parecera um refúgio. Agora, porém, parecia apertada, pesada, sufocante.
— Não ficar nervosa? — repetiu Ana, a custo, tentando dominar-se.
