“Sou eu que vou casar com o teu ex-marido. Portanto, menina, está na altura de começares a desocupar o apartamento” — anunciou a amante sem a menor cerimónia, deixando Ana atônita à porta

Histórias
Cruel e humilhante, o silêncio cortou tudo.

— Que delicadeza a tua, mandares primeiro o teu cão de caça em vez de teres a coragem de me telefonar pessoalmente — disse ela, com a voz presa pelo esforço de não gritar. — Muito atencioso da tua parte. Comovente, até.

— Sempre soubeste que o apartamento não era teu — respondeu João, ignorando-lhe o veneno. — A minha mãe deu-mo antes de nos casarmos. Não te lembras?

— Lembro-me perfeitamente — atalhou Ana. — A tua mãe deu-nos este apartamento por causa do casamento. E tu, depois, foste-te embora e deixaste-me aqui sozinha com a nossa filha. Se a memória não me falha, prometeste que não mexerias connosco até a Maria acabar a escola. Ou as tuas promessas também têm prazo de validade?

— Não comeces com esses juramentos antiquados. As coisas mudam — tentou ele escapar.

— Não desconverses, João. Tu prometeste.

Do outro lado ouviu-se uma respiração curta, impaciente.

— Prometi, sim. Mas agora preciso do apartamento.

A frieza daquela frase atingiu-a como uma bofetada.

— Tu és… um miserável sem princípios! — deixou escapar, antes de se obrigar a baixar o tom. — Isto é simplesmente nojento.

— Queres discutir ou queres falar do assunto em concreto? — perguntou ele, numa calma quase ofensiva.

— Diz à Joana que não se atreva a… — começou Ana.

— Não — interrompeu-a João, com uma dureza que não deixava margem. — Quem precisa do apartamento sou eu. Foi um erro ela ter ido aí antes de mim.

— Ah, então tiveste medo e mandaste a aia à frente? — devolveu Ana, amarga.

— Basta de conversa inútil. Quero que saias daí no prazo de duas semanas — declarou ele, seco, como se estivesse a comunicar uma alteração de contrato.

— E para onde é que eu vou? — indignou-se ela. — Sabes muito bem que não tenho outro sítio!

— Arrendas uma casa. Eu pago a pensão da Maria, e não é pouca. Dá para isso também.

— Não se faz uma coisa destas, João. Tu prometeste — disse Ana, e detestou imediatamente o tom suplicante que lhe entrou na voz.

— Para com isso. Não tenho outro apartamento, pelo menos não um como esse. Duas semanas chegam perfeitamente para encontrares alguma coisa. Percebeste?

— Não, tu é que não percebes. A tua filha vive aqui. Repito: a tua filha. Aquela que tu não visitas, aquela a quem nem sequer deste os parabéns no aniversário. Ainda te lembras de que ela existe?

Seguiu-se um silêncio espesso. Depois, um suspiro. João ficou calado durante alguns segundos, e quando voltou a falar a voz veio sem calor algum:

— Duas semanas.

E desligou.

Ana ficou a olhar para o telefone como se ele ainda pudesse cuspir mais alguma crueldade. Depois deixou-se cair numa cadeira, sem forças. Lá fora, o dia apagava-se devagar; dentro dela, a escuridão parecia adensar-se ainda mais depressa.

A noite arrastou-se interminável. Ana mal conseguiu fechar os olhos. As ideias andavam-lhe em círculos, mordendo-a por dentro. O apartamento, juridicamente, não era dela. João podia expulsá-la, se quisesse. A pensão que ele pagava ajudava, sim, mas uma renda absorveria quase tudo. E depois havia a escola, as roupas, a comida, os imprevistos, a vida inteira a exigir dinheiro. Não via saída.

Quando a madrugada começou a infiltrar-se pelas cortinas mal fechadas, trouxe consigo uma claridade baça, acinzentada, que espalhou sombras pela sala. Ana moveu-se pela cozinha quase sem pensar, preparando o pequeno-almoço da filha. Tinha o rosto pálido e as olheiras profundas denunciavam a noite em branco.

Depois de dar de comer a Maria e de começarem a preparar-se para sair, a campainha tocou.

À porta estava Teresa, a mãe de João. Apesar do divórcio do filho, a avó continuara a aparecer quase todos os dias. Gostava de estar com a neta, levava-a a passear, dava-lhe banho quando era preciso, ensinava-lhe pequenas coisas; agora entretinha-se com ela a desenhar, a juntar letras e a descobrir palavras nos livros infantis.

Teresa observou Ana de alto a baixo com atenção.

— O que se passa contigo? — perguntou, fixando as sombras que lhe marcavam os olhos.

Ana inspirou fundo, procurou recompor-se e respondeu em voz baixa:

— O João quer pôr-me fora de casa.

— Muito bem — disse Teresa, sem se alterar. Pegou em Maria ao colo, deu-lhe um beijo sonoro na bochecha e entrou para a sala, instalando-se no cadeirão como se fosse presidir a uma reunião. — Conta-me os factos, sem floreados.

Ana contou tudo. A chegada de Joana, a exigência do apartamento, o telefonema do ex-marido, a confirmação fria de que não se tratava de um capricho da nova mulher, mas de uma decisão dele.

— Duas semanas, Teresa. Só duas semanas! Para onde é que eu vou? — Ana abriu os braços, olhando à volta para os móveis, para as estantes, para os brinquedos espalhados. — E o que faço a isto tudo? Ponho na rua? Deito fora?

Teresa baixou a cabeça. Durante algum tempo não disse nada. Depois levantou-se, aproximou-se da janela e ficou a observar as crianças que brincavam no pequeno jardim em frente ao prédio. Quando voltou para junto delas, falou num tom mais baixo:

— Legalmente, o meu filho tem esse direito. O apartamento é dele. Pode dispor dele como entender.

— E a Maria? — lembrou Ana, com uma ponta de desespero.

Teresa contraiu os lábios, desconfortável.

— Não sei — respondeu. — Não sei, minha querida.

Aproximou-se da neta e passou-lhe a mão pelo cabelo com uma ternura quase dolorosa.

— Mas ele prometeu — insistiu Ana. — Ele disse que nos deixava ficar até ela acabar a escola.

Teresa soltou um riso breve, sem alegria.

— Querida, as promessas do João são tão sólidas como certas declarações fiscais dele — disse, sentando-se outra vez ao lado da neta. Olhou para o desenho que Maria fazia, pegou num lápis de cor e corrigiu com cuidado uma linha torta. — Vamos fazer assim: não te deixes consumir por isto antes do tempo. O que o João decidiu exatamente, eu ainda não sei. Há muito que ele não me informa sobre os seus “brilhantes” planos financeiros nem sobre as suas intrigas pessoais. Mas uma coisa eu te digo…

Fez uma pausa e acariciou de novo a cabeça de Maria.

— Eu vou falar com ele.

— Obrigada — murmurou Ana, e na voz dela surgiu uma esperança cautelosa, quase envergonhada.

— Vou falar — repetiu Teresa, agora com firmeza.

Levantou-se logo a seguir e dirigiu-se para a entrada.

— Já se vai embora? — perguntou Ana, sem conseguir disfarçar a desilusão.

— Vou preparar os argumentos para a conversa com o génio das finanças — respondeu Teresa, calçando-se com gestos decididos. Ao abrir a porta, acrescentou: — Com ele, se uma pessoa não for bem armada, perde antes de começar.

Saiu para o patamar, deixando Ana entregue a uma mistura estranha de alívio e inquietação. A porta pesada fechou-se com um som surdo, e ela ficou sozinha naquele apartamento que, talvez dentro de pouco tempo, deixasse de ser a sua casa.

Teresa saiu para a rua. O vento de outono despenteou-a de imediato e fê-la estremecer. Parou por instantes, olhando as folhas secas que rodopiavam no ar frio. Aquela dança triste trouxe-lhe à memória o dia em que Carlos, o marido, morreu.

As lembranças surgiram enevoadas, partidas. João tinha então apenas dois anos. Ainda assim, Teresa recordava com nitidez a sensação de desamparo absoluto, o peso da impotência, o medo de não saber como continuar. Era o mesmo desespero que agora via no rosto da nora.

Caminhou devagar até ao carro e sentou-se ao volante. No interior, pairava um leve aroma a lavanda, o perfume que sempre preferira. Durante alguns segundos ficou imóvel, com as mãos sobre o volante, olhando a rua quase vazia.

Lembrou-se de como a própria mãe lhe virara as costas nos momentos difíceis. A única pessoa que então lhe estendera a mão fora Helena, a sogra, que acolhera a jovem viúva e a criança no seu espaçoso apartamento. Depois da morte da senhora, a casa passara para Teresa. E talvez por isso, mais do que ninguém, ela soubesse o que significava ter um teto quando o mundo parecia desabar.

Pôs o cinto, introduziu a chave na ignição e ligou o motor.

— Não está certo, meu filho. Não está nada certo — disse, como se João estivesse sentado ao lado dela. A censura na sua voz era fria, cortante. — Esconderes-te atrás de uma… Joana qualquer não é coisa de homem. É cobardia, João. Cobardia pura.

Arrancou com suavidade. As ruas encontravam-se quase desertas, e Teresa conduziu sem pressa, mergulhada nas próprias recordações, ensaiando mentalmente cada passo da conversa que teria de enfrentar.

Passaram-se alguns dias. Teresa decidiu ir visitar a neta, Maria.

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