Mal tocou à campainha, a porta abriu-se, como se Ana estivesse há muito à espera daquele som.
— Ainda bem que veio — disse a nora, tentando disfarçar a ansiedade que lhe tremia na voz.
— Olá, querida — respondeu Teresa, comedida, roçando-lhe ao de leve o rosto num gesto quase maternal. — E a nossa princesinha?
— Está no quarto… a mexer nas coisas — murmurou Ana.
— Outra vez a espalhar tudo pelo chão? — perguntou Teresa, enquanto se descalçava e avançava para a sala.
Assim que entrou, ficou imóvel por um instante. A divisão, antes tão acolhedora, parecia agora um armazém improvisado: caixas meio cheias encostadas às paredes, brinquedos fora do sítio, roupa dobrada às pressas sobre o sofá, livros empilhados sem ordem. O ar da casa tinha perdido a serenidade; tudo ali cheirava a partida forçada.
— Duas semanas — disse Ana, sem vida, retirando um livro da estante e colocando-o mecanicamente dentro de uma caixa.
Teresa aproximou-se, tirou-lhe o livro das mãos e devolveu-o ao lugar com uma firmeza silenciosa.
— Sabes uma coisa? Vamos suspender isto por uns dias. Empurra essas caixas para um canto e não mexas mais em nada, ouviste? Eu ainda não falei com o meu filho. As viagens de “trabalho” dele têm o curioso hábito de se prolongar quando lhe convém.
— Eu… não sei… — Ana olhou para a confusão à volta, perdida entre a obediência e o medo.
— Sabes, sim. Por agora, vais respirar. E onde está a minha pequenina? Maria! — chamou Teresa, erguendo a voz com doçura.
Do quarto surgiu uma figurinha apressada, de cabelo despenteado e olhos brilhantes.
— Avó! — gritou a menina, lançando-se para os braços dela.
— Ai, a minha menina linda! A minha joia, o meu raio de sol, a minha bonequinha preciosa! — exclamou Teresa, apertando-a contra o peito com uma ternura que, por instantes, apagou toda a dureza do seu rosto.
— Avó, avó, avó… — repetia Maria, enroscando-se nela.
— Então, que me dizes? Vamos ao parque? Mostramos às folhas caídas que grande artista tu és? — propôs Teresa, ajeitando a menina ao colo.
Ana abriu a boca, mas nenhuma resposta saiu. O olhar dela correu das caixas para Teresa, depois de Teresa para as caixas, como se pedisse autorização para acreditar.
— Até ao fim da semana — disse a sogra, num tom baixo, sereno, mas impossível de contestar. — Dá-me esse tempo.
Ana inspirou fundo, como quem recebe uma trégua depois de muitos dias de cerco.
— Está bem — respondeu por fim, e foi buscar os casacos.
Havia ainda hesitação nos seus movimentos, mas também qualquer coisa nova, quase impercetível: uma esperança frágil, daquelas que se têm medo de tocar para não se desfazerem.
Alguns dias mais tarde, a luz dourada do outono atravessava as janelas altas de um restaurante elegante, espalhando reflexos quentes sobre as toalhas brancas e os copos de cristal. Teresa entrou sem pressa. O porte direito, o casaco impecável, o olhar atento. Viu João de imediato, sentado junto à janela.
E não estava sozinho.
Ao lado dele encontrava-se uma rapariga jovem, demasiado arranjada para parecer casual, demasiado segura para compreender o terreno em que pisava.
Teresa aproximou-se da mesa, sentou-se e pousou a mala ao seu lado. Só então dirigiu os olhos ao filho.
— João, eu tinha pedido uma conversa em privado — disse, com voz baixa. — Fazes o favor de me explicar a presença desta pessoa?
João contraiu ligeiramente o sobrolho.
— Mãe, esta é a Sofia. A minha noiva.
— Que enternecedor — respondeu Teresa, sem esboçar um sorriso. — Contudo, o convite foi feito a ti. Não a uma demonstração pública dos teus caprichos recentes.
Sofia percebeu de imediato o gelo. Aquelas palavras não eram apenas frias; eram deliberadamente humilhantes.
— Se quiserem, eu posso ir embora — ofereceu-se ela, num fio de voz.
— Não — cortou João, seco. Depois encarou a mãe, desafiador. — Eu não tenho segredos para a Sofia. Mais cedo ou mais tarde, ela saberá tudo.
— Compreendo. Então que fique. Talvez assim descubras mais depressa todo o encanto da tua escolha — disse Teresa, deixando o olhar percorrer Sofia de alto a baixo, como quem avalia uma peça barata numa montra.
As pestanas da rapariga tremeram. A cor abandonou-lhe o rosto.
— Pois bem, meu filho — começou Teresa, ajeitando o colar de pérolas com uma precisão quase cerimonial. — O assunto é o apartamento. Mais exatamente, essa tua tentativa ambiciosa de pôr Ana fora de casa.
— Esse assunto está resolvido — disse João, recostando-se na cadeira, esforçando-se por parecer descontraído. Mas a tensão denunciava-se-lhe nos ombros, nos dedos, no maxilar cerrado. — Não há nada para discutir.
— Enganas-te, querido. Uma decisão só fica tomada quando todos os envolvidos a aceitam. E eu não aceitei.
— Eu preciso daquele apartamento. Vou casar-me com a Sofia e vamos viver lá — insistiu ele, elevando a voz.
— Não, não vão. E já te explico porquê. — Teresa virou-se ligeiramente para Sofia; o seu tom tornou-se doce, mas de uma doçura cortante. — Menina, talvez fosse prudente tapar os ouvidos ou ir retocar o pó ao nariz. Pode ouvir coisas capazes de estragar essa alegria… tão ingénua.
Sofia fez menção de se levantar.
— Fica sentada — ordenou João, colocando-lhe a mão sobre o ombro num gesto que tinha menos de proteção do que de posse.
— Apenas me preocupei com os nervos delicados da jovem criatura — comentou Teresa, com uma perplexidade fingida, como se a sua bondade tivesse sido injustamente recusada.
João respirou fundo, tentando recuperar o controlo.
— A Ana vai sair. Eu já lho disse.
O rosto de Teresa endureceu.
— Permite-me recordar-te uma coisa, rapaz. O apartamento onde Ana vive com Maria pertence-me legalmente. Tal como pertence-me aquele onde eu moro.
— Mãe, isso é só fachada! Uma formalidade! — protestou ele. — Pus as coisas em teu nome porque…
— Porque preferiste contornar impostos — interrompeu ela, desenhando no ar umas aspas delicadas com os dedos. — E é precisamente aí que começa a raiz de todos os teus atuais “problemas”. Também foste tu que compraste o apartamento de Ana. Registaste-o em meu nome e, quando te deu jeito, quiseste reavê-lo. Só que, no meio dessa engenhosa manobra, esqueceste-te de regularizar os impostos devidos sobre a doação. Um esquecimento muito conveniente.
— Não te metas nas minhas finanças — disse João, já com a voz afiada. — Isso não é da tua conta.
— Pelo contrário, meu querido. Convém lembrar-te que sou a única fundadora das tuas duas empresas. No papel, claro. Esse papel que tanto gostas de tratar como decoração quando deixa de te servir.
— Mãe, o que estás a dizer? — João arregalou os olhos, genuinamente surpreendido. — Isso sempre foi uma formalidade…
— Analisei a documentação — prosseguiu Teresa, sem se deixar interromper. — Com calma. Comparei os rendimentos declarados com o movimento real das contas. Há uma diferença, João, de pelo menos vinte vezes. Vinte. Isto não é um erro de contabilidade. É um esquema.
O sangue fugiu-lhe do rosto.
— Tu estiveste a fazer contas?
— Como fundadora, tenho acesso total à contabilidade. Vejo para onde entra o dinheiro e para onde sai. E, sabes, nem foi a dimensão que mais me impressionou. — Teresa inclinou ligeiramente a cabeça, como uma professora desiludida com um aluno medíocre. — Foi a insolência com que falsificaste as minhas assinaturas nas ordens de pagamento. E, já agora, de uma forma bastante trapalhona.
— O facto de estares como fundadora é uma fic… — começou João.
Teresa bateu com a palma da mão na mesa. A porcelana vibrou, os talheres tilintaram, e Sofia encolheu-se na cadeira.
— Cala-te! — A palavra saiu dura, como uma chicotada. — Mais uma referência a “ficções” e és posto fora. A partir de hoje. Percebeste? Não é ficção nenhuma. É absolutamente real.
— O quê?! — O rosto de João ficou vermelho; uma veia saltou-lhe no pescoço. Sofia, ao lado dele, estava ainda mais pálida.
— São as minhas empresas que te alimentam. Eu sei quanto ganhas de verdade e sei a quantia ridícula que entregas a Ana para sustentar a tua filha. A minha proposta — disse Teresa, pronunciando cada palavra com uma clareza meticulosa — é muito simples: assinas imediatamente a doação do apartamento em nome de Ana. E, a partir do próximo mês, quadruplicas a pensão de alimentos. Uma pensão real, compatível com os teus rendimentos reais. Caso contrário…
— Caso contrário, o quê? — rosnou João, entre dentes.
Teresa fitou-o sem pestanejar, com uma calma tão fria que parecia mais perigosa do que qualquer grito.
