“Sou eu que vou casar com o teu ex-marido” — anunciou a amante com uma segurança insolente

Histórias
Atitude ousada e cruel, impossível de perdoar.

— A primeira possibilidade — respondeu Teresa, com uma serenidade glacial — é eu, enquanto fundadora única da empresa, despedir-te ainda hoje, sem indemnização e com todas as consequências que isso terá para a tua reputação e para o teu historial bancário. A segunda é este pequeno conjunto de papéis, com as tuas “criatividades”, seguir para a Autoridade Tributária e para a polícia. Escolhe. Tens até amanhã.

João deixou-se cair contra o encosto da cadeira. Só naquele instante percebeu a profundidade da armadilha em que se tinha metido, confiando, como sempre, na indulgência inesgotável da mãe. Teresa nunca o enfrentara daquela maneira. Antes, quando discordava, fazia-o por alusões, por silêncios, por frases cuidadosamente deixadas no ar.

— João… — murmurou Sofia, com uma voz trémula, quase sem som.

— Cala-te — cortou ele, seco, afastando-se dela como se a simples proximidade o irritasse.

Teresa abriu devagar a mala elegante. Retirou de lá uma pasta enrolada, pousou-a sobre a mesa e manteve a mão por cima, tamborilando no cartão com as unhas vermelhas.

— Há aqui material suficiente para despertar um interesse bastante vivo nas entidades competentes — disse, sem desviar os olhos dos dele.

O olhar de João ficou baço, vazio, como se a compreensão se tivesse desligado dentro dele. Traição? Da própria mãe? Esse cenário nunca lhe ocorrera. Não fazia parte dos cálculos dele.

Teresa voltou a guardar a pasta, levantou-se e ajeitou a alça da mala no ombro.

— Obrigada pela visita, João — declarou, com uma cortesia impecável, como quem encerra uma reunião de negócios. — E… boa sorte com o apartamento.

Depois saiu, calma, sem se apressar.

Passaram-se alguns dias. Como de costume, Teresa parou diante daquela porta que conhecia tão bem e carregou no botão da campainha. Do interior da casa, veio logo um grito feliz.

— Vó!

Um sorriso nasceu-lhe nos lábios antes mesmo de ela se dar conta.

Foi Ana quem abriu. Tinha o rosto cansado, as olheiras mais fundas do que o normal, mas esforçou-se por sorrir enquanto deixava a sogra entrar.

— Vó! Vó! Vó! — A pequena Maria, com os caracóis dourados a saltarem como molas, correu pelo corredor fora e lançou-se ao pescoço de Teresa como um vendaval.

— Meu tesouro, minha luz! — Teresa ergueu-a nos braços e cobriu-a de beijos, respirando aquele cheiro limpo e doce dos cabelos de criança. — Mas que crescida estás! Já pareces uma senhora forte e decidida.

— Vamos passear, avó? — perguntou Maria, tentando já libertar-se do abraço, impaciente por avançar.

— Claro que sim. Foi precisamente para isso que vim — confirmou Teresa. — Mas primeiro vestes-te como deve ser, está bem? Nada de sair como ontem, que o vento quase te levava o vestido.

— Sim! Sim! Sim! — gritou a menina, escorregando para o chão antes de desaparecer a correr em direção ao hall.

Teresa voltou-se então para Ana. O olhar atento apanhou imediatamente a palidez estranha da nora, as sombras marcadas debaixo dos olhos, o esforço de quem se mantinha de pé apenas por teimosia.

— Então, Ana? O ânimo já subiu um pouco ou continuamos em modo “sobreviver à segunda-feira”? — perguntou com doçura, embora a ironia discreta não desaparecesse por completo da voz.

Ana abriu os braços num gesto de impotência.

— Péssimo. Para ser sincera, estou mais perto do fundo da Fossa das Marianas do que de qualquer segunda-feira suportável.

— Admirável — comentou Teresa, franzindo ligeiramente a boca enquanto a seguia até à sala.

O cenário era desolador. Quase todos os armários estavam abertos e vazios. Ao longo das paredes acumulavam-se caixas, sacos, pilhas de objetos sem destino. No chão, roupas, livros, brinquedos e papéis formavam montes caóticos. A luz poeirenta que entrava pelas frestas das cortinas apenas tornava a desordem mais evidente, como se iluminasse as ruínas de uma vida inteira desmontada às pressas.

— Isto sim, é uma visão digna de registo — observou Teresa. — Espero que não seja uma coleção de esperanças vazias da vida conjugal feliz. Eu esperava confusão, admito, mas não uma instalação artística sobre o colapso doméstico.

Ana soltou um suspiro abafado e levou a mão à testa.

— Eu própria fiquei assustada. Parece que não vivi aqui sete anos. Parece que passei sete anos a juntar peças para o museu do absurdo. Cada canto tem uma prova de alguma estupidez.

— Estupidez de quem, exatamente? — perguntou Teresa, num tom tranquilo, mas com a pergunta carregada de intenção.

— Não me obrigues a dizer o óbvio em voz alta — respondeu Ana, abanando a mão. — Mas talvez devesse dar-me os parabéns por estar a tentar pôr isto em ordem. Ou talvez nem isso. Sinto-me como Sísifo, só que a pedra são as gravatas velhas dele e as minhas ilusões.

— Sísifo, minha querida, pelo menos sabia por que empurrava a pedra — replicou Teresa, seca. — Tu estás a abrir espaço para qualquer coisa nova. Ou, no mínimo, para o ar circular. Já é uma conquista.

— Vou vestir a Maria antes que ela enfie as botas nas mãos — disse Ana, voltando-se apressadamente para o corredor.

— Espera um segundo, Ana — pediu Teresa, com firmeza suave.

Abriu a mala, procurou lá dentro e tirou algumas folhas cuidadosamente dobradas.

— Toma. Acho que chegou a altura de veres isto. Para que as últimas ilusões se evaporem de vez e deixem espaço ao bom senso.

Entregou-lhe os documentos e, sem acrescentar mais nada, foi ajudar a neta com o casaco. Ana ficou parada, sozinha, com as folhas nas mãos.

A princípio, os olhos dela deslizaram pelas linhas sem compreender. Depois prenderam-se numa frase. Voltaram atrás. Leram de novo. A cor fugiu-lhe do rosto. Os dedos apertaram o papel com tanta força que as folhas se enrugaram. Por mais que tentasse conter-se, as lágrimas começaram a correr-lhe pela cara.

Sem dizer palavra, como se se movesse dentro de um sonho, aproximou-se de Teresa, que naquele momento abotoava o casaco de Maria. Ana abraçou-a com força, encostou o rosto ao ombro dela e sussurrou, com a voz partida:

— Mãe… Obrigada… Muito obrigada… Eu… eu não sabia… Estava cega…

Maria levantou a cabeça, surpreendida, os grandes olhos castanhos alternando entre a mãe e a avó.

— Mãe? A avó é mãe?

Ana limpou as lágrimas com as costas da mão e agarrou-se ainda mais a Teresa.

— É, meu amor. A avó também é mãe. A mais segura de todas.

Teresa passou a mão pelas costas da nora, num gesto lento e protetor.

— Não vou permitir que magoem a minha neta — disse baixo, mas com uma firmeza que não deixava espaço para dúvidas. — Nem a mãe dela. Ninguém tem o direito de entrar na vossa vida para a sujar com vileza. Estes papéis são apenas provas. Agora já não estás desarmada.

Ana inspirou fundo, tentando recompor-se.

— Obrigada — repetiu. — Só consigo dizer isso. Obrigada por tudo.

Teresa endireitou-se, aliviando deliberadamente o peso daquele momento.

— Então, a equipa de libertação está pronta para entrar em ação? — perguntou com energia renovada. — Temos sol, temos vento fresco… condições perfeitas para um passeio estratégico e para um gelado tático.

Maria soltou imediatamente um grito de alegria:

— Viva! Gelado!

Ana, ainda com lágrimas nos olhos, sorriu e acenou que sim. Aproximou-se de uma das caixas, abriu-a e retirou de lá um urso de peluche gasto, mas limpo: o fiel companheiro de Maria, sobrevivente silencioso de todas as tempestades daquela casa. Olhou para ele e deixou escapar um sorriso amargo.

— Sabes, mãe, este ursinho é o único “homem” desta casa que nunca me traiu nem me mentiu. Um verdadeiro cavaleiro de peluche.

— Um exemplar valioso — comentou Teresa, com um toque de sarcasmo. — Guarda-o bem. A experiência mostra que a lealdade de peluche, por vezes, vale mais do que a de certas pessoas de carne e osso.

Ana colocou o urso na prateleira que acabara de libertar. A luz do sol atravessou o tule da cortina e caiu-lhe precisamente sobre o focinho, como se quisesse sublinhar aquilo que ainda restava ali: um pequeno símbolo de calor verdadeiro, simples e sem fingimento.

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