— Perdeste completamente o juízo? Porque raio a minha chave já não entra na fechadura?
A voz de João, ao telefone, estava quase a transformar-se num grito. Respirava com força, e mesmo através do altifalante Ana conseguia ouvir o eco pesado dos seus passos irritados no patamar.
Ela permanecia no vestíbulo, encostada à superfície fria da nova porta de entrada. Do outro lado, a poucos centímetros, o ex-marido enfurecia-se. Pelo óculo, via-lhe a silhueta: vermelho de raiva, casaco aberto, puxava a maçaneta com violência e empurrava a porta com o ombro.
— Porque mandei trocar as fechaduras, João — respondeu Ana, num tom tão calmo que até a si própria surpreendeu, enquanto observava o seu reflexo no espelho do roupeiro. — O técnico veio cá esta manhã. Instalou um sistema de segurança excelente.
— Estás a dizer o quê? Que fechaduras? — ouviu-se uma pancada abafada; provavelmente João acabara de dar um pontapé na porta metálica. — Abre já! Preciso dos meus pneus de inverno que estão na varanda e da caixa das ferramentas! Além disso, vinha buscar mais umas coisas.

— As tuas coisas estão preparadas — disse Ana, desviando o olhar para quatro grandes sacos axadrezados, alinhados com cuidado junto ao móvel dos sapatos. — Os pneus também já estão no corredor. Tirei-os da varanda. Os sacos das ferramentas estão aqui igualmente. Chama uma carrinha ou um táxi de carga, e eu desço tudo até ao rés do chão. Ou então sobes tu, mas dentro de casa não voltas a entrar.
— Tu és doida! — berrou ele, e a voz explodiu ao mesmo tempo no telefone e no patamar. — Esta casa também é minha! Vivi aqui quinze anos! Fui eu que fiz obras! Fui eu que assentei estes azulejos do corredor com as minhas próprias mãos!
Ana soltou uma risada curta, quase sem som. Continuava a espantá-la aquela memória seletiva masculina. O apartamento tinha-lhe sido deixado por uma tia, muito antes de conhecer João, e estava registado apenas em nome dela. Quanto às famosas “obras” que ele gostava de invocar sempre que lhe convinha, resumiam-se, na prática, ao facto de ter colocado os azulejos da entrada depois de estragar metade do material e deixar o rodapé novo coberto de cola. O papel de parede fora aplicado por uma equipa contratada, o pavimento flutuante tinha sido colocado por trabalhadores, e a canalização fora substituída por profissionais. Tudo pago com as poupanças pessoais de Ana. Nessa altura, João encontrava-se, como tantas outras vezes, na sua fase permanente de “procurar o próprio caminho”, sobrevivendo de biscates ocasionais.
— João, para de bater. Estás a assustar os vizinhos — disse ela, ajeitando uma madeixa que lhe caíra sobre o rosto. — Nos documentos, esta casa é minha. Estamos oficialmente divorciados. A decisão do tribunal já transitou em julgado. Nunca tiveste sequer a tua morada registada aqui, porque não quiseste deixar a morada da tua mãe por causa de umas vantagens quaisquer nas despesas. Portanto, direitos sobre este apartamento tens exatamente os mesmos que o funcionário da limpeza do prédio.
Seguiu-se um silêncio pesado. Através da espessura da porta blindada, Ana ainda lhe ouvia a respiração tensa.
A separação deles arrastara-se durante meses, cansativa e corrosiva. João não tinha saído para ficar sozinho: saíra para os braços da “compreensiva” e “leve” Beatriz. Ela trabalhava como rececionista num ginásio onde João começara a ir à noite, dizendo que precisava de aliviar o stress. Beatriz tinha vinte e cinco anos, ria-se alto das piadas sem graça dele e olhava-o de baixo para cima com uns olhos muito abertos, como se ele fosse alguém admirável. Ana, aos quarenta e dois, olhava para o marido de frente, sem ilusões, e pedia apenas o mínimo: que contribuísse para as despesas da casa e participasse nas tarefas domésticas. Naturalmente, nessa comparação injusta, ela saíra a perder.
Na noite em que João preparou a primeira mala, comportou-se com uma superioridade teatral. Falou da vida que só se vive uma vez, de como se sentia sufocado pela rotina, de como precisava de liberdade, impulso, inspiração. Ana não derramou uma única lágrima. Ficou simplesmente junto à janela, de braços cruzados, a vê-lo atirar para dentro da mala as camisas caras que era ela quem engomava todas as manhãs.
Pensou que, quando ele fechasse a porta atrás de si, tudo terminaria. Enganou-se. João tinha decidido outra coisa. Depois de se instalar no apartamento arrendado com a sua nova musa, continuou a tratar a casa de Ana como armazém gratuito, lavandaria e ponto de passagem. Podia aparecer tranquilamente num sábado de manhã, abrir a porta com a chave dele, atravessar a cozinha sem tirar os sapatos, beber café, vasculhar o frigorífico, levar o material de pesca e ir-se embora, deixando uma caneca suja em cima da mesa.
Ao princípio, Ana ainda suportou aquilo, atribuindo essa invasão à inércia de tantos anos de casamento.
