“Porque mandei trocar as fechaduras, João” disse Ana, calma, enquanto via o ex-marido enfurecer-se e bater na porta do patamar

Histórias
A obstinação dele era ridícula; a decisão, justa.

Tentou resolver a situação pela via civilizada: falou com ele, explicou limites, pediu que, pelo menos, avisasse antes de aparecer. Mas a gota de água chegou num dia em que Ana voltou do trabalho mais cedo, com uma enxaqueca daquelas que fazem latejar até a luz.

Mal abriu a porta, viu no hall umas sapatilhas brancas que não eram suas, enormes, com uma sola exagerada. Da sala vinha a gargalhada de João, misturada com a voz aguda da sua nova paixão. Tinham passado por ali, segundo disseram depois, para “buscar o casaco de inverno” dele. Só que, já agora, acharam natural fazer chá, abrir as bolachas de Ana e instalar-se no sofá dela como se estivessem em casa.

Dessa vez, Ana não gritou. Não fez cena. Entrou na cozinha em silêncio, abriu a gaveta onde João, por descuido, deixara o molho de chaves, pegou nele e guardou-o no bolso. Depois voltou à sala e, sem levantar a voz, apontou-lhes a porta.

João protestou. Beatriz revirou os olhos com uma expressão ensaiada, como se estivesse a assistir a uma injustiça intolerável. Ainda assim, acabaram por sair. Na manhã seguinte, Ana chamou um serralheiro.

— Ana, para quê isto agora? — A voz de João, do outro lado da porta, mudou de tom num segundo: da agressividade passou para aquele registo meloso e suplicante que ele usava sempre que queria arrancar-lhe dinheiro para mais uma inutilidade do carro. — Somos adultos, não somos? Divorciámo-nos, pronto. Mas é preciso levar tudo tão ao extremo? Eu só preciso das chaves por uma questão prática. Pode chegar correio meu, contas, qualquer papel. E, além disso, ainda tenho aí metade das minhas coisas.

— O correio deixo na tua caixa, lá em baixo. Tens a chave dela — respondeu Ana, firme. — Quanto às coisas, estão todas ensacadas. Chama uma carrinha.

— Eu não tenho dinheiro agora para mudanças! — João voltou a perder a calma. — Nem tenho carro! Vim de autocarro! Abre a porta, eu ponho os sacos no corredor e depois venho buscá-los um dia destes. E já agora, preciso de ir à casa de banho!

Ana fechou os olhos por um instante. Estava exausta daquela infantilidade manipuladora, daquele hábito de transformar qualquer limite dela numa crueldade.

— Há uma casa de banho pública muito decente no centro comercial da esquina, João. Os sacos ponho-os no patamar. Se até ao fim do dia não os levares, chamo uma empresa de limpezas e vai tudo para o lixo.

Desligou antes que ele tivesse tempo de responder. Do outro lado da porta ouviu-se um palavrão abafado, seguido de passos pesados a descerem as escadas. Pouco depois, a porta do prédio bateu.

Só então Ana largou o ar que tinha preso nos pulmões. Afastou-se do aro metálico da porta, foi até à cozinha e pôs água a aquecer. As mãos ainda lhe tremiam, carregadas da tensão acumulada, mas por dentro começou a espalhar-se uma leveza estranha, quase luminosa. Tinha conseguido. Cortara o último fio por onde ele ainda tentava puxá-la.

O telemóvel, pousado na mesa, vibrou de novo. No ecrã apareceu: “Teresa”. A sogra. Ou melhor, a ex-sogra.

Ana verteu água quente para a chávena, mergulhou uma saqueta de camomila e só depois atendeu, com calma.

— Sim, Teresa, boa tarde.

— Ana, que história é esta? — A voz da mulher vinha afiada de indignação, carregada daquele dramatismo teatral que ela dominava tão bem. — O João acabou de me ligar quase a chorar! Diz que o puseste na rua, que mudaste as fechaduras, que estás a atirar as coisas dele para as escadas! Perdeste completamente a vergonha, nesta idade?

— Com a idade, Teresa, costuma ganhar-se juízo — respondeu Ana, sentando-se à mesa e envolvendo a chávena quente com as duas mãos. — O João não lhe contou que estamos divorciados há mês e meio?

— E o que é que o divórcio tem a ver com isto? — explodiu a outra. — Em todas as famílias há zangas! Discutem, afastam-se, depois entendem-se. O rapaz cometeu um erro, acontece a qualquer um. Essa fedelha armada em boneca vai cansá-lo depressa, e ele acabaria por voltar para casa. Mas tu não, tu tens de queimar todas as pontes! Como é que ele entra agora em casa?

— Ele já não tem casa aqui. Este apartamento é meu. E ele não tropeçou por acaso, Teresa. Fez uma escolha consciente: sair e começar uma vida nova. Então que a construa noutro sítio.

— Teu apartamento! Olha-me esta, agora deu em proprietária! — A voz de Teresa subiu até quase guinchar. — E o casamento? Não conta? O meu filho não deu anos da vida dele a esse buraco? Achas que vamos ficar quietos? Vamos para tribunal! Havemos de reclamar metade! Pelas obras, pelos móveis, pelos anos perdidos!

Ana bebeu um pequeno gole de chá. A camomila tinha um calor macio e reconfortante.

— Teresa, respeito-a pela sua idade, mas convém falarmos com honestidade. Este apartamento foi-me deixado em herança por uma tia minha. Pela lei, bens herdados não entram na partilha do divórcio. Obras estruturais pagas em conjunto, nunca fizemos. A mobília foi comprada com o meu cartão de salário; tenho faturas e extratos bancários guardados. E, quanto ao João, nos últimos cinco anos, ele trabalhou muito pouco.

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