— Avózinha, quer que a acompanhe até à porta? — perguntou a vendedora, com veneno na voz, enquanto me media dos sapatos ao cabelo. — Esta roupa não é propriamente para reformadas. Talvez ficasse melhor servida no mercado.
Eu estava parada junto à montra dos vestidos. Tinha a mala numa mão e o casaco pendurado no ombro. Atrás do balcão, a rapariga observava-me como se eu fosse uma barata encontrada no prato de sopa.
— Vim apenas ver — respondi, sem alterar o tom.
— Pois, “apenas ver” — bufou ela, com desdém. — Já conhecemos esse género. Experimentam meia loja, amarrotam tudo e depois saem sem comprar nada. Isto aqui é uma boutique, está a perceber? Não é uma loja de roupa em segunda mão.
Era nova, talvez uns vinte e oito anos. Usava um vestido preto justo, unhas pintadas de uma cor berrante e trazia no rosto aquela expressão de superioridade que só a ignorância costuma dar. No crachá preso ao peito lia-se: Cristina.

Por um segundo, passou-me pela cabeça que ela nem imaginava que, um mês antes, eu tinha comprado aquela boutique inteira, juntamente com o edifício. E que, naquele preciso momento, estava a ser grosseira com a própria patroa.
— Posso ver as novidades? — perguntei, apontando para o expositor onde estavam pendurados vários vestidos.
— As novidades? — Cristina caminhou devagar junto à montra, endireitando cabides sem necessidade. — Avózinha, tem a certeza? São peças caras. Muito caras. Se calhar convinha-lhe mais a zona dos saldos. Lá há umas coisas mais simples.
Aproximei-me e tirei um vestido azul do suporte. O tecido era macio, sedoso, e o corte, clássico. Uma peça bem feita.
— Quanto custa este? — quis saber.
Cristina olhou para a etiqueta e soltou um sorriso torto.
— Seiscentos e oitenta euros — disse, arrastando as palavras. — Mas nem vale a pena perder tempo a olhar. Está claramente fora do seu alcance.
Não respondi. Mantive o vestido nas mãos, examinei as costuras, virei a peça para ver os acabamentos. A qualidade era boa. O vestido justificava o preço; talvez até pudesse custar mais.
— Gostaria de o experimentar — disse eu.
— A sério? — Cristina ergueu uma sobrancelha. — Tem noção de que, se o sujar ou rasgar, terá de o pagar, não tem? São as regras da casa. Ninguém lhe vai perdoar seiscentos e oitenta euros.
— Tenho noção — confirmei com um aceno.
— Muito bem — a vendedora encolheu os ombros. — A decisão é sua. Mas, se depois perceber que não vai comprar, diga logo. Não me faça perder tempo. Estou quase na hora de almoço.
Tirou o vestido do cabide e entregou-mo de qualquer maneira, como se estivesse a passar-me um pano velho.
— O provador é ali — indicou com a cabeça, para um canto da loja. — E cuidado com o fecho. É italiano, delicado.
Peguei na peça e entrei no provador. Fechei a porta, despi-me e vesti o vestido. Assentou-me na perfeição. O azul realçava-me os olhos, o corte disfarçava aquilo que eu preferia esconder e o comprimento era exactamente o certo. Virei-me diante do espelho, de um lado e do outro. Era um bom vestido. Elegante, bem confecionado, digno do dinheiro que pediam por ele.
Saí do provador. Cristina estava sentada atrás do balcão, a folhear uma revista enquanto mascava pastilha elástica. Nem sequer levantou a cabeça.
— Então? — perguntei.
Ela arrancou os olhos da revista com uma lentidão estudada e percorreu-me com o olhar.
— Bem, no geral, fica aceitável — disse, num tom preguiçoso. — Para a sua idade, até não está mal. Embora o decote seja um pouco ousado, sinceramente. Aos cinquenta anos, já não convém mostrar tanto. As rugas no pescoço, sabe, não favorecem ninguém.
Tenho cinquenta e quatro anos. Sim, tenho rugas. Mas nunca tive vergonha delas. Ganhei-as. Cada uma nasceu de anos de trabalho, de decisões difíceis, de quedas superadas e de experiência acumulada.
— Fico com ele — declarei.
Cristina pousou a revista e endireitou-se de repente.
— A sério? — A surpresa apareceu-lhe na voz sem qualquer disfarce. — Tem mesmo a certeza de que percebeu quanto custa?
— Seiscentos e oitenta euros — repeti. — Sim, percebi perfeitamente.
A vendedora levantou-se, aproximou-se de mim e apertou ligeiramente os olhos, como se agora me visse com uma curiosidade nova.
— Hum — fez ela. — E vai pagar como? Com a reforma, em prestações? Ou foram os netinhos que fizeram uma vaquinha?
Abri a mala, tirei o cartão e coloquei-o em cima do balcão.
— Com este cartão.
Cristina pegou nele e virou-o entre os dedos. Reparou no plástico preto, no emblema de banca premium, e soltou uma risadinha pelo nariz.
— Oh, um cartão preto — comentou, sem se esforçar por esconder o sarcasmo. — Encontrou um marido rico, foi? Ou tem algum “padrinho” generoso a ajudar? — Cristina deixou a frase suspensa por um instante, pronta a rematar a crueldade.
