“Está claramente fora do seu alcance” — disse Cristina com desdém, sem saber que a cliente era a dona da boutique

Histórias
Arrogância desprezível que feriu a minha dignidade.

— Na sua idade, até um velhote qualquer serve, desde que abra a carteira.

Não lhe dei resposta. Limitei-me a fitá-la, serena, à espera de que concluísse a cobrança. As minhas mãos continuavam firmes. A voz, se fosse preciso usá-la, não me falharia. Eu sabia que, dentro de poucos minutos, aquela sobranceria toda iria embater contra a realidade.

— Muito bem, vamos lá ver — disse Cristina, introduzindo o cartão no terminal. — Já ficamos a saber se isto tem mesmo dinheiro ou se é só plástico para fazer figura. Hoje em dia até se arranjam cartões destes em qualquer esquina.

O aparelho apitou. A transação foi aprovada.

Cristina retirou o cartão, olhou para o talão e a expressão dela mudou de imediato. A boca torceu-se-lhe, como se tivesse mordido um limão.

— Tome — resmungou, estendendo-me o cartão e o comprovativo. — Vá trocar-se. Eu embalo o vestido.

Regressei ao provador, despi o vestido com cuidado e voltei a vestir a minha roupa. Quando saí, Cristina já tinha colocado a compra num saco da boutique. Ainda assim, não fez o menor esforço para sorrir, agradecer ou sequer fingir educação.

— Aqui tem — disse, empurrando-me o saco por cima do balcão. — Volte quando a reforma deixar. Ou quando o tal “padrinho” lhe der mais algum.

Peguei no saco. Depois olhei-a com atenção, sem levantar a voz.

— Cristina — perguntei — há quanto tempo trabalha aqui?

Ela franziu o sobrolho e cruzou os braços, defensiva.

— E isso interessa-lhe para quê?

— Interessa-me apenas saber.

— Há três anos, já que faz tanta questão — respondeu, de mau modo. — Três anos enfiada neste sítio. E depois?

— Três anos — repeti, acenando devagar. — Compreendo. E diga-me uma coisa: sabe quem é a proprietária desta boutique?

A pergunta pareceu irritá-la ainda mais. Cristina fez uma careta impaciente.

— Claro que sei. Antes, isto pertencia à Mariana. Depois vendeu a alguém. A nova dona, nunca a vi. Quem trata de tudo é a gerente, a Helena. Mas por que raio quer saber isso?

— Onde está a Helena neste momento?

— No armazém, a conferir uma entrega. Chegou mercadoria. Porquê, vai fazer queixa? — soltou uma risada curta. — Queixa de quê, exatamente? Eu não lhe fiz mal nenhum. Vendi-lhe o vestido, cobrei o valor, entreguei a compra. Tudo conforme as regras.

— Chame-a, por favor.

— Para quê chamar a gerente? — Cristina revirou os olhos. — A Helena está ocupada. Tem coisas importantes para fazer. Não tem tempo para conversar com cada avozinha que lhe aparece à frente.

— Mesmo assim, chame-a.

Cristina bufou, mas acabou por pegar no telemóvel e marcar um número.

— Helena? Está aqui uma cliente a exigir falar contigo. Sim, agora. Podes vir, por favor? Ela está aqui plantada e não sai. Sim, na sala de vendas. Está bem.

Desligou e encarou-me com ar desafiador.

— Já vem. Mas está a perder tempo. Eu não disse nada de especial. Aliás, sou sempre educadíssima. Pergunte aos outros clientes, se quiser.

Mantive-me calada. Fiquei junto ao balcão, com o saco do vestido na mão, e desviei o olhar para a montra. Lá fora, a neve caía em silêncio, e as pessoas passavam apressadas, cada uma mergulhada nos seus próprios assuntos. Um dia de inverno comum. Uma loja comum. Só que, dentro de instantes, nada ali continuaria igual.

Pouco depois, saiu da zona de serviço uma mulher de cerca de quarenta e cinco anos, vestida com um fato cinzento de corte rigoroso. Trazia uma pasta encostada ao peito e no rosto a expressão cansada de quem não tinha parado desde manhã. Era Helena, a gerente.

Eu já me encontrara com ela uma vez, um mês antes, quando assinei o contrato de compra da boutique. Mas ela não me reconheceu. Naquele dia, eu usava óculos, o cabelo preso num coque austero e um fato escuro, de trabalho. Agora tinha o cabelo solto, vestia calças de ganga, uma camisola macia e trazia apenas uma maquilhagem leve. Parecia outra pessoa.

— Boa tarde — cumprimentou Helena, com delicadeza, embora com alguma cautela. — Em que posso ajudá-la?

— Boa tarde — respondi. — Gostaria de saber se Cristina costuma falar assim com os clientes.

A gerente carregou o cenho e olhou de imediato para a vendedora.

— O que aconteceu? Cristina, houve algum problema?

— Problema nenhum! — apressou-se ela, quase saltando. — Falei com ela normalmente! Ela é que está a implicar!

Continuei a olhar Helena nos olhos.

— Chamou-me avozinha — disse, com calma. — Ofereceu-se para me acompanhar até à porta e deixou bem claro que, na opinião dela, eu não tinha lugar nesta boutique.

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