— Não pode fazer isso! — soltou ela, quase sem ar. — Trabalho aqui há três anos! Tenho experiência! Tenho direitos!
— Posso, sim — respondi, sem levantar a voz. — Sou a proprietária. E não admito que, no meu negócio, os clientes sejam tratados com arrogância e desprezo. Helena, trate, por favor, do processo de despedimento. Com fundamento disciplinar. Falta grave de conduta profissional e reincidência no mau atendimento ao público.
— Compreendido — confirmou a gerente, inclinando a cabeça. — Fico com isso resolvido ainda hoje.
— Mas eu pedi desculpa! — Cristina deu um passo na minha direção, com a voz já a tremer. — Dê-me só mais uma oportunidade! Eu juro que nunca mais volto a fazer uma coisa destas!
Fixei-a nos olhos durante alguns segundos.
— Não jure. E não suplique. Nos últimos seis meses recebeu três advertências por escrito. Foram-lhe dadas oportunidades. Bastantes. E desperdiçou-as todas. Continuou a humilhar pessoas que entravam nesta loja apenas para serem atendidas com respeito. Agora terá de assumir as consequências das suas escolhas.
— Eu odeio-a! — gritou Cristina, e dessa vez a raiva apareceu sem disfarce. — A senhora é uma velha amarga e vingativa! Veio aqui de propósito para me apanhar numa armadilha!
Helena avançou de imediato e segurou-a pelo braço com firmeza.
— Cristina, cale-se agora mesmo e vá para a zona de serviço. Pegue nas suas coisas e saia da loja. Já. O acerto final será transferido para a sua conta amanhã.
A vendedora libertou o braço com um puxão brusco, apanhou a mala que estava debaixo do balcão, arrancou o crachá do peito e atirou-o para o chão. Depois atravessou a sala de vendas quase a correr. A porta bateu com tanta violência que o vidro da montra vibrou. Ficámos apenas eu e a gerente, envolvidas por um silêncio pesado.
— Peço imensa desculpa, Ana — disse Helena, com a voz insegura. — A responsabilidade também é minha. Eu devia tê-la despedido há muito mais tempo. Falhei consigo.
— Não se atormente com isso — respondi. — O essencial é que a situação ficou resolvida. Consegue encontrar alguém para a substituir?
— Consigo, sim. Tenho uma pessoa em mente. É uma senhora de quarenta e dois anos, com experiência numa boutique semelhante. Educada, discreta, sem aquele ar de superioridade, e com referências muito boas.
— Ótimo. Contrate-a assim que puder. E faça também uma reunião com o resto da equipa, por favor. Quero que todos percebam, sem margem para dúvidas, que respeito pelos clientes não é uma frase bonita para colocar num manual. É a base deste negócio. Não interessa a idade da pessoa, a roupa que traz vestida, nem o dinheiro que tem na carteira. Qualquer cliente que entre por aquela porta merece atenção, cortesia e um atendimento digno. Esta regra não é negociável.
— Entendi — disse Helena. — Vou falar com todos. Hoje mesmo, depois de fecharmos.
— Obrigada. E há mais uma coisa.
Tirei um cartão do bolso e estendi-lho.
— Se surgir algum problema, ligue-me diretamente. A qualquer hora. A partir de agora, passarei por aqui uma vez por semana. Sem avisar. Quero ver a loja como ela realmente funciona, não apenas quando todos sabem que vou aparecer.
A gerente pegou no cartão, leu-o com atenção e guardou-o no bolso do casaco.
— Está bem. Manterei contacto. E quanto ao vestido, Ana? Ficou satisfeita com a compra?
Sorri, finalmente.
— O vestido é excelente. Bem cortado, bom tecido. Vou usá-lo com gosto.
— Fico contente. Se precisar de mais alguma coisa, sabe onde me encontrar.
Despedi-me de Helena e saí da boutique. Lá fora, o frio cortava a pele. O vento soprava com força e a neve batia-me no rosto em pequenas rajadas. Caminhei até ao carro, abri a porta, sentei-me ao volante e coloquei o saco no banco ao lado. Liguei o motor e aumentei o aquecimento.
Antes de arrancar, tirei o telemóvel da mala e escrevi uma mensagem breve a Helena: “Obrigada pela rapidez. Fico a aguardar informações sobre a nova funcionária.” Enviei, guardei o aparelho e fiquei por instantes a olhar para a montra iluminada.
Os cento e oitenta mil euros que juntei ao longo de vinte anos não tinham sido fáceis de poupar. Comprei aquele edifício não apenas para ganhar dinheiro. Comprei-o também para ter um lugar onde a minha presença fosse respeitada. Um espaço onde ninguém olhasse primeiro para a data de nascimento no meu documento antes de decidir se eu merecia consideração.
Cristina julgou que a idade me tornava frágil.
Enganou-se.
O respeito não se implora. Conquista-se.
